quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Lula 70 Anos: A popularidade resiste à guerra suja da mídia

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O ex-presidente completa seus 70 anos de vida, com uma porcentagem de eleitores fiéis que é mais alta que a de todos os políticos brasileiros.
Hoje, 365 dias após a reeleição de Dilma Rousseff, e 364 do início da campanha de desprestígio contra ela e contra Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente brasileiro completa seus 70 anos de vida, com uma porcentagem de eleitores fiéis que é mais alta que a de todos os políticos brasileiros.
No primeiro aniversário do triunfo de Dilma sobre seu rival Aécio Neves, o jornal O Estado de S.Paulo publicou ontem [26/10] que Lula conta com 23% de eleitores incondicionais, cifra que aumenta a 41% se incluem os eleitores potenciais.
“Essa pesquisa inédita do Ibope demonstra que o fantasma de um terceiro mandato de Lula, a partir de 2018, continua ameaçando a oposição” afirma o jornal, corroborando a ineficácia, até agora, da intensa guerra informativa contra o líder do PT, homem influente no atual governo.
O artigo propõe que, por enquanto, o mais realista para acabar com Lula, Dilma e o PT é vencê-los dentro de três anos, nas eleições presidenciais, deixando de lado a aventura do golpe a curto prazo, encabeçada por Aécio Neves e pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha – o evangélico que predica contra a corrução, mas que lavou dinheiro desviado da Petrobras em contas secretas descobertas na Suíça.
O clímax dessa corrida pelo golpe aconteceu há duas semanas, no dia 13 de outubro, quando Aécio Neves e Eduardo Cunha estiveram a ponto de abrir o processo de impeachment no Congresso, mas foram impedidos por uma medida cautelar do Supremo Tribunal Federal.
Se tivesse dado certo, essa manobra daria início à deposição da presidenta, e uma eventual convocação de novas eleições, nas quais Aécio Neves considera que poderá vencer com tranquilidade. Mas os números do Ibope dizem outra coisa. Lula, apesar de ter perdido 10 pontos de aprovação e ter uma rejeição de 55%, é o candidato favorito, já que conta com 8% a mais de eleitores fiéis do que Aécio, e 16% a mais que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, outro político com aspirações presidenciais.
A taxa de rejeição de Lula é fruto das campanhas negativas, midiática e judicial, das quais ele é alvo permanente, sem ter direito de resposta, já que há meses ele não é entrevistado por nenhum meio de comunicação de alcance nacional. As reportagens sobre ele saem em meios regionais, e quando são repercutidas pelos grandes grupos, aparecem tergiversadas, assim como alguns de seus discursos em sindicatos e encontros com movimentos sociais – como o realizado no fim de semana, com o MST.
“O dado concreto é que estamos vivendo quase num estado de exceção. Não se pode continuar com essa coisa de que as pessoas são condenadas sem serem julgadas. Quem condena não é o juiz, é a capa do jornal, o que alimenta um clima de suspeita generalizada. Me irrita ver os corruptos históricos falando de corrupção”, disse Lula, na sexta-feira, durante uma viagem pelo Nordeste. No sábado, dia 24/10, ele confessou estar “irritado” com as acusações lançadas contra seus familiares.
Ontem [26/10], a Polícia Federal invadiu o escritório de seu filho, Luiz Cláudio Lula da Silva, em diligência relacionada à Operação Zelotes contra uma rede de empresários e lobistas. Cristiano Zanin Martins, advogado do filho de Lula, qualificou a ação como “desproporcional”, e afirmou que existe a intenção de forçar a criação de vínculos inexistentes do seu cliente com a Operação Zelotes.
Também sobre a Zelotes, o ex-ministro e dirigente petista Gilberto Carvalho disse, em declarações publicadas ontem, que os lobistas habitualmente são “malandros” e afirmam manter relações com o governo que são falsas ou exageradas, para obter benefícios. E que essas falácias não podem ser tomadas como provas para acusar ninguém. Carvalho, que integrou o gabinete presidencial entre 2003 e 2014, repudiou o abuso das chamadas “delações premiadas”, utilizadas por juízes e especialmente advogados, para forçar provas que envolvam Lula.
Democracia adolescenteDesde que a Justiça Eleitoral confirmou o triunfo de Dilma, com mais de 54 milhões de votos no segundo turno, no dia 26 de outubro, Aécio Neves, o candidato derrotado, começou uma guerra política que prolonga até hoje, buscando inviabilizar seu segundo governo, o quarto do PT. O primeiro ataque partiu do mercado financeiro, às 10h30 da segunda-feira posterior à votação, dia 27 de outubro, que forçou uma queda de 6% na abertura da Bolsa de Valores de São Paulo – as ações da Petrobras chegaram a cair mais de 10% – devido à contrariedade com a opção da maioria dos eleitores.
O poder financeiro exigia a nomeação de um banqueiro ou de alguém do seu mundo no Ministério da Fazenda, além do fim da política desenvolvimentista aplicada por Dilma durante o seu primeiro mandato.
Semanas depois Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), iniciava sua própria manobra golpista, afirmando que a eleição de Dilma foi resultado de uma “associação ilícita”. Simultaneamente, e outra vez sem provas, denunciava a presidenta por fraude eleitoral, e solicitava uma investigação da Justiça. O próprio PSDB reconheceu há duas semanas que não houve fraude nas eleições.
Essa extensa lista de denúncias sem fundamento, surgidas de operações midiáticas, depois de um tempo não são desmentidas. No domingo, dia 25/10, na véspera do primeiro ano de sua reeleição, Dilma disse à CNN que o ódio semeado pela oposição, no afã de derrubá-la como um “golpe paraguaio”, é um tema que a preocupa. “Temos que ter muito cuidado com isso (o impeachment), porque eu diria que a nossa democracia ainda é adolescente”.

Sem impeachment à vista, golpismo aperta o cerco sobre Lula

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É preciso ter nervos de aço, dentes à mostra e muita cabeça. Tornou-se evidente que, depois que se foi afastando a possibilidade de impeachment de Dilma – primeiro, com a rearticulação com o PMDB; depois, com a desmoralização de Eduardo Cunha – a mira do golpismo brasileiro voltou-se quase que exclusivamente para um único alvo: Lula.
“batida” policial no escritório de um de seus filhos é só um pedaço de uma ofensiva iniciada há algum tempo e que não vai parar, porque há um nítido ânimo – talvez seja melhor chamá-lo de obsessão – no Ministério Público e na Polícia Federal para “pegar o Lula”, seja lá por que for, como for e por meio de quem for.
E sempre, ou quase sempre, numa família ou num círculo de amigos, auxiliares ou simples conhecidos quem tenha feito, com o perdão da expressão, “alguma cagada”. Seja em relação a Lula, a mim, ao Zé ou ao Antônio.
A parentalha da direita, claro, faz o que quer e bem entende, porque os nossos guapos “homens de preto” não lhes dão a menor bola.
A ilusão das “instituições republicanas” numa sociedade rachada de forma abismal como a nossa transforma-se numa politização desabrida, segundo o corte de classe dos seus integrantes. Devidamente concursados e fartamente remunerados – inclusive com penduricalhos de escassíssima moralidade –, vão nos livrar destes “inferiores e ladrões” da política.
Os da esquerda, claro, porque os da direita estalavam os dedos e mandavam tudo para as gavetas.
E depois, há uma vantagem: não é preciso provar nada. Basta ter feito um contrato qualquer com qualquer um que tenha se metido em maracutaias para que seja exposto como provável ladrão.
As provas, ah, estas ficam para daqui a um ano, quando as “sentenças” já tiverem transitado na opinião pública.

O BRASIL DEVE, MAS ESTÁ LONGE DE ESTAR QUEBRADO - A DÍVIDA PÚBLICA E A MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA.


O Governo tem seus defeitos - entre eles uma tremenda incompetência na divulgação da situação real do país - mas também tem suas virtudes.

A maior parte da imprensa está trombeteando, aos quatro ventos, o fato de que a dívida pública subiu 3,68% em agosto, para 2.68 trilhões. Por que não dar a informação completa, e dizer que o Brasil deve essa quantia, mas tem quase um trilhão e meio de reais, 1.48 trilhões, a câmbio de hoje, em reservas internacionais em caixa?

Reservas internacionais de 370 bilhões de dólares, cujo valor, em moeda nacional aumenta - já que o negócio é divulgar grandes números - em contraposição ao que se deve em reais, a cada vez que o dólar sobe? 

Em um país normal seria também interessante lembrar - em benefício do leitor e da verdade - que a dívida líquida pública - que é o que o país verdadeiramente deve, descontando-se o que tem guardado - caiu em quase 50% nos últimos 13 anos, depois do fim do governo FHC, de mais de 60%, em dezembro de 2002, para aproximadamente 34% do PIB agora.

Para efeito comparativo, nos países desenvolvidos, essa dívida é quase três vezes maior, de mais de 80% em média. 

Quase da mesma forma que a dívida pública bruta, a única a que se dá destaque, que em países como o Japão, a Itália, os Estados Unidos, a França ou Inglaterra, duplica, ou é de quase o dobro da nossa. 

Essa é a realidade dos fatos que, hipócrita e descaradamente, não são levados em consideração, por sabotagem e outros interesses de ordem econômica e geopolítica, por agências envolvidas com escândalos e multadas, em bilhões de dólares, por irregularidades, que, sem críticas ou questionamento, são endeusadas e incensadas, interesseiramente, pela mídia conservadora nacional, como a Standard&Poors, por exemplo.

Uma justiça para a família Vaccari e outra para a família Cunha

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Por que Sérgio Moro pediu a prisão da cunhada do petista com base em uma imagem e mantém livre a esposa de Cunha, titular de contas ilegais na Suíça?
Coordenadora financeira do Centro Sindical das Américas, Marice Corrêa de Lima estava no Panamá, participando de um congresso da entidade, no dia 15 de abril deste ano, quando tomou ciência de que sua prisão temporária havia sido decretada pelo juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava-Jato. Foi quando ela soube também que seu cunhado, o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, havia sido preso e sua irmã e esposa dele, Giselda de Lima, cumprira mandado de condução coercitiva.
Dada como foragida, Marice só soube das provas que pesavam contra ela dois dias depois, quando retornou ao país e se apresentou espontaneamente à Polícia Federal: o Ministério Público Federal (MPF) a identificou como a mulher que aparecia em imagens cedidas pelo Banco Itaú efetuando depósitos na conta de sua irmã, Giselda, em duas agências da capital paulista. Foi o suficiente para o juiz Sérgio Moro acatar a tese de que ela estaria ajudando Vaccari a lavar o dinheiro oriundo da corrupção.
No dia 20, o MPF chegou a pedir a conversão da sua prisão temporária em preventiva, para que ela ficasse detida por tempo indeterminado. “Tudo indica que Giselda [mulher de Vaccari] recebe uma espécie de ‘mesada’ de fonte ilícita paga pela investigada Marice, sendo que os pagamentos continuam sendo feitos até março de 2015. Nesse contexto, a prisão preventiva de Marice é imprescindível para a garantia da ordem pública e econômica, pois está provado que há risco concreto de reiteração delitiva”, sustentaram os procuradores.
Marice negava. Mas o juiz Sérgio Moro estendeu a prisão temporária dela, que vencia no dia 20, por mais cinco dias. Ele teve que voltar atrás no dia 23, liberar a investigada e reconhecer o erro primário: uma perícia feita pela PF comprovou que não era Marice que aparecia nas imagens, mas a própria Giselda. A frágil prova jurídica apresentada pelo MPF, acatada pelo juiz e amplamente divulgada pela imprensa caíra por terra. “Elas são muito parecidas”, desculparam-se procuradores e juiz.
Dois pesos e uma medidaSituação bem diversa vive a família do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), também acusado de envolvimento no mesmo esquema da Petrobrás, investigado pela mesma Operação Lava-Jato. No dia 20 de agosto, a Procuradoria Geral da República (PGR) encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de abertura de investigação contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), acusado de receber pelo menos US$5 milhões em propinas de uma empresa contratada pela estatal.
Na denúncia, a PGR pede que ele seja condenado por dois crimes de corrupção passiva e 60 operações de lavagem de dinheiro. Isso mesmo: 60 operações de lavagem de dinheiro. E não se tratam de depósitos fracionados em agências bancárias do Itaú, aqui mesmo no Brasil, mas de um esquema sofisticado que envolve contas em paraísos fiscais, empresas offshores e até a utilização de doações à igreja Assembleia de Deus de Madureira, no Rio de Janeiro, frequentada por Cunha.
Quatro das contas utilizadas por Cunha e seus familiares estão registradas no banco suíço Julius Baer. Três delas em nome de empresas offshores ligadas diretamente ao presidente da Câmara. Uma quarta aparece com o nome fantasia KOEK, mas um dossiê encaminhado pelo Ministério Público Suíço às autoridades brasileiras comprova que sua titular é a ex-apresentadora da TV Globo, Cláudia Cruz, esposa de Cunha. Uma das filhas do casal é registrada como dependente. Conforme o MP suíço, as quatro contas registraram entrada de cerca de R$31,2 milhões e saídas de R$15,8 milhões, entre 2007 e 2015, em valores corrigidos.
A conta movimentada por Cláudia vem sendo usada para sustentar, com o dinheiro da corrupção, alguns luxos pouco comuns à imensa maioria dos brasileiros. De janeiro de 2013 a abril de 2015, ela cobriu US$525 mil em débitos de um cartão de crédito. Outros US$316,5 mil foram destinados ao pagamento de um segundo cartão, em quatro anos. Uma famosa academia de tênis da Flórida, a IMG Academies, recebeu US$59,7 mil do montante. A família destinou US$8.400 à escola inglesa Malvern College e transferiu US$119,7 mil para a Fundacion Esade, da Espanha.
O processo contra Cunha foi parar no STF porque ele tem direito a foro privilegiado, o que não é o caso de Cláudia. As investigações contra ela, se é que já foram transformadas em denúncia, continuam na justiça comum, ou seja, nas mãos de Sérgio Moro, aquele rápido o suficiente para mandar prender a cunhada de Vaccari antes de saber se era ela, de fato, nas imagens que sustentavam a decisão.
O curioso é que mesmo com todas as provas enviadas ao Brasil pelas autoridades da Suíça, não se tem notícia de que ele sequer a tenha convocado para depor. Antes da PGR receber o dossiê do MP suíço sobre o casal, nenhuma acusação contra ela foi vazada para a imprensa. Será que o juiz que decretou a prisão da cunhada de Vaccari no afogadilho, com base em imagens que nem eram delas, não quer se arriscar a incomodar a mulher do poderoso chefe da Câmara?
Debate jurídicoOs erros, atropelos e excessos cometidos no âmbito da Operação Lava-Jato têm suscitado um amplo debate jurídico no país. Há quem aplauda e quem condene o estilo do juiz Sérgio Moro de conduzir o processo. O que ninguém discorda é que – para usar um termo que se tornou bastante usual no mundo jurídico desde o chamado mensalão – ele esteja “inovando” em matéria legal. E o caráter seletivo de suas ações é, sem dúvida alguma, parte fundamental desta “inovação”.
Em palestra na capital norte-americana, no último dia 19, o presidente do STF, ministro Ricardo Lewandowski, declarou que a Lava-Jato é uma “revolução” no país. “As investigações têm sido muito bem conduzidas. Nós temos algumas sentenças, sentenças muito duras, alguns dos altos executivos do Brasil já foram condenados a passar 15 ou 20 anos na cadeia. É realmente algo novo”, disse ele.
Mas há também quem conteste o estilo Moro. No dia 10 de outubro, em seminário promovido pela OAB, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Sebastião Reis, criticou duramente a banalização de uma das principais “inovações” introduzidas pela operação: a utilização da delação premiada como jamais visto antes no país. “A delação está sendo banalizada. Tem mais colaborador do que réus na Lava-Jato”, afirmou.
Ele também destacou que o instrumento gera seletividade nas condenações. “O Estado está abrindo mão do direito de punir em troca da condenação de três, quatro pessoas”, ressaltou. E condenou o vazamento seletivo das delações para a imprensa que, segundo ele, prejudica a defesa dos citados e pressiona os juízes que atuam no caso a condenarem os acusados.
Uma pesquisa realizada pela revista Consultor Jurídico e divulgada no último dia 15 mostrou que todas as delações firmadas no âmbito da Lava-Jato violam a Constituição e as leis penais. A revista analisou 23 acordos homologados por Moro e descobriu que eles preveem, por exemplo, que nem mesmo os advogados de defesa tenham acesso às transcrições dos depoimentos do delator, que ficam restritas ao Ministério Público Federal e ao juiz, o que viola o princípio do contraditório e o direito à ampla defesa.
O estudo também mostra que os acordos impedem os delatores contestarem suas sentenças judicialmente, o que viola o direito de ação (artigo 5º, XXXV), que assegura que nenhuma lesão ou ameaça a direito pode ser excluída da apreciação do Judiciário. E ainda que, tal como o Ato Institucional nº 5, editado durante a ditadura militar, os acordos da Lava-Jato vedam completamente aos réus a possibilidade de impetração de habeas corpus, entre outras críticas apontadas.
Operadores do direito têm criticado também a mão pesada e seletiva do juiz Sérgio Moro para determinar prisões, ainda que de forma diferente para os diferentes envolvidos, no país que vive o dilema de possuir a quarta maior população carcerária do mundo e desrespeita com frequência as garantias individuais previstas pela própria Constituição. Não por acaso, por conta da sua atuação na Lava-Jato, Moro virou o garoto-propaganda de um projeto de lei apresentado pela Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) ao Senado que prevê a prisão de réus condenados em 2ª instância antes mesmo da conclusão do devido processo legal.
Em audiência pública realizada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para debater a proposta, ele foi rechaçado por seus pares, que defenderam é possível avançar no combate à corrupção sem reduzir as garantias individuais previstas na Constituição. No debate, o juiz Rubens Casara, especialista em direito processual penal, que citou diretamente a Lava-Jato ao operar suas críticas ao projeto defendido por Moro, lembrou que tanto no fascismo clássico italiano, quanto no nazismo alemão e no stalinismo soviético, a presunção de inocência foi relativizada.
O magistrado não tocou no episódio que envolveu Marice e nem em nenhum outro, mas sustentou que a presunção da inocência é importante porque os juízes erram muito e por motivos diversos. Entre eles, citou, inclusive, a pressão da mídia e o medo de serem tarimbados como “petralhas”. “Falta coragem para decidir contra a opinião pública, que muitas vezes não passa da opinião publicada pela imprensa”, ressaltou.
Elmir Duclerc Ramalho Junior, promotor na Bahia e professor de direito processual penal, reforçou que o projeto – inspirado na atuação de Moro na Lava-Jato – está impregnado pelo autoritarismo. “Há uma tendência autoritária perigosa que lembra, sim, períodos autoritários da história da humanidade”, afirmou. Ele destacou que a população carcerária brasileira cresceu 16 vezes mais do que a população do país. “Não há malabarismo hermenêutico possível para dizer que não há a incorporação de um pensamento autoritário neste projeto”, disse.
Professor de Criminologia da Faculdade de Direito da USP, Maurício Stegemann Dieter fez uma das críticas mais agressivas ao projeto e ao seu garoto-propaganda. De acordo com ele, o projeto está centrado em uma espécie de “populismo midiático”, que dispensa o conhecimento científico para se calcar no senso comum. Ele lembrou que nunca se prendeu tanta gente na história do país, inclusive gente do andar de cima, como políticos e donos de empreiteiras. Por isso, ele classifica como delírio a premissa que embasa o projeto e o discurso de Moro: a de que o “Brasil é o país da impunidade”.
Um quase epílogoEm 20 de setembro passado, João Vaccari Neto foi condenado por Moro a 15 anos e quatro meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e associação criminosa, pelo recebimento de pelo menos R$4,26 milhões em propina de contratos da Petrobras. Mas como os processos da Lava-Jato correm em segredo de justiça e a imprensa só tem acesso ao que convém para seus condutores, ainda é difícil saber se há, de fato, provas contra Marice e Giselda, como sustentava o MPF em abril deste ano.
Pode ser que sim. A revista Veja, um dos veículos presenteados com vazamentos seletivos do processo, diz que, entre 2008 e 2014, entraram R$322,9 mil na conta de Giselda, em vários depósitos parcelados. Segundo O Estado de S.Paulo, outro destinatário dos vazamentos seletivos, Marice teria recebido, em dezembro de 2013, propina da empreiteira OAS, alvo da investigação sobre corrupção e desvios na Petrobrás. Mas ambos os veículos também disseram que Marice era a mulher que aparecia fazendo depósitos nas agências do Itaú. Então, fica difícil ter certeza de qualquer coisa.
Mesmo atolado em denúncias de corrupção, manobras e desmandos de todo tipo, Cunha continua presidindo a Câmara dos Deputados do país. É o segundo na linha de sucessão da presidenta Dilma Rousseff e o homem que irá decidir se o parlamento acolherá ou não seu pedido de impeachment, como pleiteia a oposição. O processo contra ele continua a tramitar no STF, agora sob sigilo. Partidos como o PSOL, Rede, PT e PSB já pediram a cassação do seu mandato, mas ele se recusa, inclusive, a deixar a presidência da Câmara. De Cláudia Cruz, não se tem nenhuma notícia. Continua livre, leve e solta.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O genocídio que o mundo esqueceu

A MATANÇA DE MAIS DE UM MILHÃO DE MILITANTES COMUNISTAS NA INDONÉSIA CONTOU COM A BENÇÃO DOS EUA. OS RESPONSÁVEIS SÃO DA ELITE QUE GOVERNA HOJE O PAÍS.


São os grandes desaparecidos da Guerra Fria, o genocídio do Século XX, que quase ninguém recorda. Há 50 anos da matança de mais de um milhão de supostos militantes do Partido Comunista, a Indonésia vive uma assombrosa história de amnésia coletiva e lavagem cerebral, versão macabra de uma Macondo asiática que a tritura a verdade dos fatos como uma broca, fazendo com que os genocidas passem a ser heróis da pátria e os sobreviventes e familiares das vítimas vivam com medo de novas represálias.
 
O trabalho das organizações de direitos humanos e um alucinante documentário indicado ao Oscar estão começando a perfurar o muro de silêncio. Em novembro, um Tribunal Popular Internacional realizará uma sessão em Haia com uma palestra na que participarão nove juízes de destacada trajetória no campo dos direitos humanos, para avançar no reconhecimento nacional e internacional do genocídio “que contou com a cumplicidade das grandes potências ocidentais”.
 
O genocídio foi desatado com a intervenção do chefe do exército, o tenente-general Suharto, contra o governo populista do pai da independência nacional, Sukarno, com a desculpa de evitar que os comunistas tomassem o poder. No dia 5 de outubro de 1965, depois de conseguir o pleno controle das Forças Armadas, Suharto começou sua política de patrocinar grupos paramilitares e organizações criminosas, que começaram o trabalho de limpeza de comunistas em Jacarta e em toda a Java central, para depois se estender ao leste do país e à idílica Bali. Nesse arquipélago de três mil ilhas, com mais de cem grupos étnicos diferentes, e que tinha mais de cem milhões de habitantes naqueles Anos 60 – hoje são 255 milhões –, ninguém ficou alheio aos fatos.
 
Em meio à Guerra Fria e com o Vietnã como pano de fundo, a intervenção de Suharto contou com a benção dos Estados Unidos e do Reino Unido. A CIA negou qualquer tipo de vínculo com a matança, mas terminou admitindo que forneceu listas aos esquadrões da morte, através de uma tarefa na qual a embaixada estadunidense também estava envolvida. Num documento considerado “top secret”, revelado há poucos anos pela imprensa norte-americana, mostrava que o genocídio indonésio foi uma das grandes matanças do Século XX, equivalente às realizadas pelos soviéticos e pelo nazismo.
 
Sua magnitude é tão impressionante quanto o silêncio que veio depois. A pressão para um esclarecimento ganhou força em 2012, com o documentário do estadunidense Joshua Oppenheimer, “The Act of Killing”, e um primeiro relatório da Comissão de Direitos Humanos da Indonésia sobre o ocorrido, mas o poder da elite – a mesma que ainda hoje continua direta ou indiretamente vinculada ao fato – mantiveram o muro da impunidade erguido.
 
Durante a campanha eleitoral do ano passado, o atual presidente, Joko Widodo, prometeu que promoveria ações visando o esclarecimento dos fatos. Porém, uma vez eleito, relegou o tema a um segundo plano e propôs uma “solução permanente”, num trabalho em conjunto com a promotoria para buscar uma reconciliação, ou seja, eliminando a busca por verdade e justiça. Soe Tjen Marching, escritora indonésia e diretora do capítulo britânico do Tribunal Popular Internacional de Haia, acredita que somente uma campanha internacional levará o seu país a reconhecer o sucedido. “Querem uma reconciliação sem contar a verdade, sem que ninguém tenha que responder judicialmente. Ou seja, não querem justiça de nenhuma forma. A mesma sociedade indonésia está profundamente dividida. Os culpados não querem uma investigação que os faça descer do panteão dos heróis da pátria ao dos genocidas. Outros não querem agir por temor às consequências, o que afeta até mesmo alguns dos sobreviventes e familiares das vítimas”, disse ela à Carta Maior.
 
A reunião do Tribunal Popular Internacional, nos dias 12 e 13 de novembro em Haia terá um alto valor simbólico e político, mas chocará com uma elite que ainda domina as Forças Armadas, a polícia, a Justiça, o setor financeiro e parte do poder político parlamentar, provincial e municipal. Um dos comandantes que liderou o genocídio foi Sarwo Edhi Wibowo, cuja filha era a esposa de Susilo Bambang Yudhoyono, o presidente da Indonésia entre 2004 e 2014.
 
Essa mesma elite é quem maneja a versão oficial da história, através de um sistema educativo e editorial dedicado a perpetuar a amnésia coletiva. Em 2007, nove anos depois da queda de Suharto, e em meio a um julgamento por corrupção contra ele, o promotor geral Abdul Rahman Saleh vetou a distribuição e ordenou a queima de exemplares de 14 livros de história que não apresentavam o ditador como um salvador da nação, além de não responsabilizarem o Partido Comunista pelos fatos. Uma acadêmica indonésia da Universidade da Carolina do Norte, Paige Johnson Tan, analisou os textos de história publicados atualmente. “Desde a morte de Suharto (em 2008), não mudaram praticamente nada da versão histórica oficial”, escreveu ela recentemente.
 
Nesse hermético silêncio oficial, os documentários do estadunidense Joshua Oppenheimer tiveram um forte impacto, porque despiram a Indonésia perante o mundo. No primeiro deles, “The Act of Killing”, Oppenheimer mostra os assassinos e torturadores fazendo alarde dos seus crimes e voltando aos lugares onde ocorreram os fatos, para mostrar os detalhes (“a gente batia até matar, depois ficava tudo ensanguentado, então mudamos de método e passamos a usar arame”). A impunidade foi tanta que Oppenheimer ofereceu a Anwar Congo, um dos assassinos e fanático por cinema, a possibilidade de filmar versões de seus crimes em diversos gêneros (gangster, texto_detalhe, comédia e até musical), e ele aceitou participar das cenas, junto com alguns dos seus capangas, dirigindo e atuando. A cena final do filme é o apogeu macabro e surrealista, em forma de musical, com Anwar Congo sendo perdoado por duas de suas vítimas, que tiram os arames com os quais foram assassinadas e agradecem a ele por tê-las matado e enviado ao céu (assim mesmo, você não leu mal.)
 
Anwar Congo não é um devaneio dos pesadelos do passado. O genocida é um membro honorário da Pemuda Pancasila, uma organização paramilitar com três milhões de integrantes, uma das mais importantes entre as que atuaram no genocídio, entre 1965 e 1966, e que hoje conta com membros das Forças Armadas, da polícia, do parlamento, dos governos provinciais e municipais em suas fileiras. No filme, o grupo atua com total liberdade para exigir dinheiro e proteção de comerciantes chineses e vendedores ambulantes: o hoje ex-vice-presidente Muhammad Yusuf Kalla se refere aos seus membros como homens que sabem como usar a violência e que têm o direito de fazê-lo.
 
O documentário “The Act of Killing” foi aclamado mundialmente e indicado ao Oscar, mas não chegou a ser exibido nos cinemas da Indonésia, devido à censura – houve grande difusão em mostras de cinema privadas, além da decisão de Oppenheimer de publicar uma versão grátis em idioma indonésio no Youtube.
 
O segundo documentário estreou em Londres em junho, “The Look of Silence”. Nele, Oppenheimer mostra como os sobreviventes e os familiares das vítimas continuam sendo estigmatizados e perseguidos pelo Pemuda Pancasila. “É como se Hitler tivesse vencido a guerra e Himmler, um dos principais generais nazis responsáveis pelo Holocausto, fosse o herói nacional, o salvador da pátria”, comentou Oppenheimer.
 
A busca pela justiça não será fácil. Além da resistência da elite, está o fato de que muitos dos responsáveis pelos assassinatos e muitas testemunhas dos fatos já faleceram. Segundo Soe Tjen Marching, o Tribunal Popular Internacional de Haia será um primeiro passo. “Espero que o governo peça perdão por esses crimes cometidos pelo Estado, e que admita que houve uma manipulação da história. Se o fizer, também terá que admitir que é preciso mudar a história que se ensina nas escolas e se publica nos livros, As vítimas terão que ser reconhecidas como vítimas e não como vilãs que receberam o que mereciam. É o que nós queremos”, indicou a escritora, em entrevista.

Comandante do Exército ridiculariza grupos que pedem intervenção militar

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Faz pelo menos quatro meses que um grupo de homens e mulheres – e até crianças, vistas no local amiúde – montou um acampamento na calçada em frente ao portão principal de acesso ao quartel-general do Exército, no Ibirapuera, Zona Sul da capital paulista, para pedir um golpe militar contra a presidenta Dilma Rousseff.
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Em nota oficial, o responsável pelo Comando Militar do Sudeste, general João Camilo Pires de Campos, informa que o comando não irá se posicionar sobre o acampamento:
“O Comando Militar do Sudeste não se manifesta sobre atos políticos. “O posicionamento do Exército Brasileiro, em qualquer circunstância, é de atuar com isenção e dentro da legitimidade e legalidade, conforme o previsto no Art. 142 da Constituição Federal.”
Ironicamente, esse grupo tão original cita justamente o artigo 142 da Carta Magna como “justificativa” para a sua tão sonhada “intervenção militar constitucional”. Leia o que diz o texto constitucional:
Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.
Não se sabe que tipo de interpretação esses pirados deram ao texto acima, já que determina justamente o contrário de “intervenção militar”. O texto diz, claramente, que cabe às Forças Armadas a “garantia dos poderes constitucionais” e que só podem intervir de alguma maneira em alguma coisa por iniciativa desses poderes, quais sejam, Executivo, Legislativo e Judiciário.
O grupo de acampados é composto, majoritariamente, por pessoas de meia idade e idosos. Na internet, reúnem-se em uma página do Facebook ao qual deram o nome deMovimento Brasileiro de Resistência (MBR), o qual está convocando um “outubro negro” que promete “matar pela pátria” em meio a exaltações a “Deus”.
Observe a convocatória
Manifestacao_Intervencao_Militar03_Convocatoria
Ao fundo do acampamento, o prédio da Assembleia Legislativa de São Paulo. Funcionários da Casa relatam que, na verdade, os acampados costumam aparecer no local mais para tirar fotos e aparecer em vídeos e depois vão embora. Não sabem precisar quem fica lá durante a noite. Durante o dia, há um revezamento entre os protagonistas da iniciativa.
Como essas pessoas residem na região do acampamento, fica fácil a encenação de estarem vivendo no local para enganarem incautos na internet.
Não se sabe ao certo, porém, o que pretendem essas pessoas, já que ninguém acredita em uma intervenção militar, forma como a proposta de golpe militar é chamada por grupos de extrema direita.
Aliás, no domingo, dia 27/9, o comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, 63 anos, deu uma entrevista ao jornal Correio Braziliense em que chega a debochar do acampamento de malucos diante do QG do Exército.
Villas Boas diz que “Não há hipótese de os militares voltarem ao poder” e espanta-se com as propostas de “intervenção militar constitucional” baseada no artigo 142 da Constituição, como pregam grupos de extrema direita. Diz Villas Boas:
“É curioso ver essas manifestações. Em São Paulo, em frente ao Quartel-General, tem um pessoal acampado permanentemente. Eles pedem “intervenção militar constitucional” [risos]. Queria entender como se faz”
O comandante do exército quer entender como se pode fazer uma intervenção militar “constitucional” se a Constituição prega exatamente que militares não podem fazer intervenção alguma em nada a não ser por ordem dos poderes constituídos, nos quais o presidente da República ocupa o cargo de “comandante em chefe” das Forças Armadas.
Abaixo, vídeos mostram os delírios dessas pessoas mês após mês. Arme-se com senso de humor, pipocas e assista. Não posso negar que achei divertido.
27 DE JULHO
11 DE AGOSTO
6 DE SETEMBRO
20 DE SETEMBRO

ONU: Brasil supera média mundial na redução da mortalidade infantil

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À frente de muitos países, o Brasil alcançou em 2011, com quatro anos de antecedência, a meta de redução da mortalidade na infância, o quarto dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), propostos pela ONU em 2000. A taxa passou de 53,7 óbitos por mil nascidos vivos em 1990 para 17,7 óbitos por mil em 2011. A meta estabelecida para o país consiste em reduzir a mortalidade entre crianças menores de 5 anos a dois terços do nível de 1990.
De acordo com o Relatório ODM 2013, elaborado pela ONU, a taxa mundial de mortalidade na infância caiu 47% em 22 anos. Entre 1990 e 2012, o índice passou de 90 para 48 mortes por mil nascidos vivos. Os dados mostram que há muito ainda a ser feito nesta área. Em 2012, 6,6 milhões de crianças menores de 5 anos morreram ao redor do mundo por doenças evitáveis.
Embora o ODM/4 diga respeito à mortalidade na infância, isto é, até 5 anos, o Brasil também já atingiu a meta estabelecida em relação às mortes de crianças com menos de 1 ano de idade – a chamada mortalidade infantil. Essa taxa caiu no país, de 1990 a 2011, de 47,1 para 15,3 óbitos por mil nascidos vivos, superando a meta de 15,7 óbitos estimada para 2015.
A oficial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) no Brasil, Leva Lazarevicute, ressaltou, em entrevista à TV NBR, a efetividade de programas adotados no país para a diminuição da mortalidade na infância.
“Esse tipo de mecanismo, as políticas que promovem a vacinação, que promovem a amamentação materna, bancos de leite, que inclusive já serviram de inspiração para vários outros países, para vários países africanos no sentido de cooperação Sul-Sul, são alguns destaques nesse sentido”, afirma a oficial.
O Ministério da Saúde tem implantado uma rede de cuidados para assegurar às mulheres o direito ao planejamento reprodutivo e a atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério, bem como assegurar às crianças o direito ao nascimento seguro e ao crescimento e desenvolvimento saudáveis.
“As mulheres mais pobres, as mulheres que vivem na periferia das grandes cidades, nas cidades ribeirinhas, no Semiárido Nordestino agora passam a contar com a equipe de saúde da família completa”, afirma o ministro da Saúde, Arthur Chioro, à NBR. “Portanto, fazem as ações de planejamento familiar, têm o pré-natal realizado. Ou seja, começam rapidamente a identificar a gravidez e a acompanhar, dando o número de consultar necessárias, tanto médicas como de enfermagem. Isso faz com que o pré-natal seja mais bem-feito”.
Redução da mortalidade materna
As estratégias adotadas pelo Ministério da Saúde também contribuem para melhorar a saúde materna, o quinto ODM. São duas metas globais a serem atingidas até o fim de 2015: reduzir a mortalidade materna a três quartos do nível observado em 1990 e universalizar o acesso à saúde sexual e reprodutiva.
O desempenho do Brasil na redução da mortalidade materna foi melhor que as médias registradas nas nações em desenvolvimento e na América Latina, embora o país ainda enfrente grandes desafios para alcançar a primeira meta. De 1990 a 2011, a taxa de mortalidade materna brasileira caiu em 55%, passando de 141 para 64 óbitos a cada 100 mil nascidos vivos.
O alcance da segunda meta, contudo, está muito próximo. Em 2011, 99% dos partos foram realizados em hospitais ou outros estabelecimentos de saúde, sendo que cerca de 90% das gestantes fizeram quatro ou mais consultas pré-natais. Para abarcar outras dimensões da saúde da mulher, o Brasil estipulou para si uma terceira meta: deter e inverter a tendência de crescimento da mortalidade por câncer de mama e colo de útero até 2015. O Brasil já atingiu a meta em relação ao câncer de colo de útero, mas a mortalidade por câncer de mama tem avançado.
A despeito da redução ocorrida desde 1990, o mundo não alcançará a primeira meta até 2015. Nos países em desenvolvimento, a mortalidade materna caiu de 440 para 240 óbitos por 100 mil nascidos vivos, uma redução de 45% entre 1990 e 2010. Na América Latina, que apresenta uma situação consideravelmente melhor, o percentual de queda foi semelhante, passando de 130 para 72 óbitos maternos a cada 100 mil nascidos vivos. A segunda meta também não será alcançada, pois a percentagem de partos atendidos por profissionais de saúde treinados era de aproximadamente 66% no mundo em desenvolvimento em 2011, e apenas 51% das gestantes realizavam ao menos quatro consultas de pré-natal.

Che Guevara: Há 48 anos era assassinado o verdadeiro modelo de revolucionário

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Em 8 de outubro de 1967, Ernesto Che Guevara foi assassinado na Bolívia. Depois de sua morte, ele foi instantaneamente transformado em um símbolo do compromisso e do heroísmo revolucionários. Até hoje, Che vive nos corações dos povos solidários.
Com informações de vários sites, em 8/10/2015
Ernesto Guevara de la Serna nasceu em 14 de junho de 1928, em Rosário, importante cidade industrial da Argentina, em uma família classe média alta. Seu pai, o arquiteto e engenheiro civil Ernesto Guevara Lynch, era um militante político, tendo participado de vários comitês e organizações de ajuda aos países democráticos. Apoiou a resistência republicana na Guerra Civil Espanhola, nos anos de 1930, participou de campanhas para brecar a propaganda nazista nas Américas na Segunda Guerra Mundial e, mais tarde, fez oposição ao governo de Juan Perón. A mãe, Cella de la Serna, era igualmente ativista, tendo sido presa diversas vezes por sua militância política. Durante a juventude de Che, a casa dos Guevara vivia repleta de republicanos espanhóis e militantes socialistas.
Aos 2 anos, Che Guevara sentiu os primeiros sintomas de asma que o atormentaria ao longo da vida. Para minimizar os efeitos da doença, a família foi para Alta Gracia, perto da Cordilheira dos Andes, à procura de um clima mais saudável. Mais tarde, Ernestito, como era chamado pelos parentes, começou a praticar esportes como natação, futebol, ciclismo e rugby. Ao contrário do que se poderia imaginar, ele não desenvolveu uma personalidade fraca e indolente por causa da doença. A enfermidade tornou-se um desafio que ele aceitou sem nenhuma autocompaixão. Outra coisa curiosa que aconteceria depois: Che foi dispensado do serviço militar argentino por incapacidade em virtude da asma.
Quando Guevara tinha 12 anos, sua família mudou-se para Córdoba, segunda maior cidade da Argentina, e foi viver próxima de uma favela. O menino brincava diariamente com as crianças pobres do lugar, uma atitude pouco comum para um filho de classe média alta. Nessa época, ele começou a pegar gosto pela leitura, pois seus pais tinham cerca de 3 mil livros em casa. Che tomou contato com a poesia, filosofia, história e arqueologia, dentre outros assuntos. Com isso, abriu novos horizontes e quis conhecer novos lugares. A primeira viagem foi uma travessia do território argentino de bicicleta promovida por uma empresa local. Em cada cidade que parava, comprava vários livros e, desde essa época, começou a escrever um diário, hábito que manteve por toda a vida.
Em 1944, quando tinha 17 anos, a família Guevara transferiu-se para a capital Buenos Aires, centro cultural e político da Argentina. Ele havia decidido fazer Medicina, mas continuava atraído por viagens e aventuras. Em dezembro de 1949, ainda não tendo terminado o curso, começou uma longa viagem de motocicleta em direção ao Chile com seu amigo Alberto Granados. A idéia era rodar todo o continente, conhecendo os povos, as condições de vida, a história e a geografia da América Latina. Passaram pela maioria dos países, mas os que marcaram mais Guevara foram a Bolívia, a Venezuela e o Peru. Nessa viagem, Guevara começa a ver a América Latina como uma única entidade econômica e cultural. Granados, recém-formado em Medicina, ficou na Venezuela trabalhando num sanatório para leprosos e Che voltou para a Argentina para completar seu curso.
Início da inquietação
Em março de 1953, ele se formou em Medicina com especialização em alergia, mas percebeu que ainda não estava preparado para se tornar um médico. Resolveu voltar para a Bolívia. Em um de seus diários, Che relatou: “Quando comecei meus estudos de Medicina, a maioria de meus ideais revolucionários ainda não existia. Como grande parte das pessoas, eu estava em busca de sucesso [...]. Mas, quando comecei a viajar por toda a América, entrei em contato com a pobreza, a fome e a doença [...]. Vi a degradação e a repressão. Então comecei a entender que havia outra coisa tão importante quanto ser famoso, que era ajudar essa gente.”
Em La Paz, capital da Bolívia, Guevara teve contato com vários grupos políticos, especialmente exilados argentinos. Um dos novos amigos, Ricardo Rojo, era um advogado argentino que escapara das prisões do regime de Perón. O plano de Guevara era se encontrar com Alberto Granados na Venezuela, mas Rojo o convenceu a acompanhá-lo até a Guatemala, “onde as coisas estão acontecendo”. Em 1950, os guatemaltecos tinham elegido o presidente Jacobo Arbens Guzmán, um esquerdista moderado que prometera dar seqüência ao programa de reformas sociais iniciado em 1944, quando fora deposto o último regime militar. Arbens estava sobre fogo cerrado das elites locais e dos interesses norte-americanos.
Para chegar à Guatemala, Guevara, Rojo e um grupo de argentinos fizeram uma difícil viagem pelo Peru e Equador, de onde pegaram um barco para o Panamá. O transporte foi obtido graças à interferência de um político socialista chileno, Salvador Allende, que 20 anos depois seria presidente de seu país e terminaria assassinado durante um sangrento golpe militar.
Do Panamá, o grupo foi para a Costa Rica, onde vivia uma grande comunidade de exilados latino-americanos, incluindo alguns remanescentes do ataque ao quartel de Moncada em 26 de julho de 1953. Os cubanos garantiram que voltariam a Cuba para derrubar Fulgêncio Batista, mas, de acordo com Rojo, nem ele nem Guevara os levaram muito a sério.
Primeira luta
Em janeiro de 1954, eles chegaram à Guatemala para mergulhar em um universo político conturbado. Foi lá que Guevara conheceu a peruana Hilda Gadea Acosta, com quem se casou mais tarde. Ela daria importante contribuição a sua formação política. Também foi lá que conheceu o cubano Nico Lopez, um dos líderes do ataque a Moncada, e que, no futuro, apresentaria Guevara a Fidel e Raul Castro, no México.
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Em agosto de 1961 no Uruguai, Che discursa para os chefes da economia da Organização dos Estados Americanos. Foto de Bettmann / Corbis.
Na Guatemala, o exército invasor norte-americano operava a partir de Honduras, sob o comando da CIA – serviço secreto dos Estados Unidos – e com a aprovação do presidente Dwight Eisenhower. Guevara ficou impressionado com a facilidade com que um governo popular era esmagado. “A última democracia revolucionária da América Latina – a de Jacobo Arbens – caiu como resultado da fria e premeditada agressão conduzida pelos EUA [...]. Quando a invasão norte-americana começou, tentei juntar um grupo de jovens como eu para contra-atacar. Na Guatemala era necessário lutar e quase ninguém lutou. Era necessário resistir e quase ninguém resistiu”, escreveu Guevara.
Durante a invasão, Che foi guarda voluntário durante o blecaute, nos momentos em que a cidade estava sendo bombardeada. Ele também pediu para ir para o front, mas não foi autorizado. As exortações de resistência feitas por Guevara foram suficientes para colocar seu nome na lista negra dos golpistas. Avisado pelo embaixador argentino de que sua vida e de sua esposa estavam em perigo, eles se refugiam na embaixada.
As experiências na Guatemala foram importantes para a construção de sua consciência política. Foi lá que Che se autodefine como revolucionário e se convenceu da necessidade da luta armada, de tomar a iniciativa contra o imperialismo. “Quando estava na Guatemala de Arbenz, comecei a tomar nota e pensar sobre quais seriam as responsabilidades de um médico revolucionário. Então, depois que vi a agressão norte-americana, entendi uma coisa fundamental: para ser um médico revolucionário, você primeiro precisa de uma revolução”, escreveu certa vez.
Guevara iria atrás dela, mas, inicialmente, precisaria sair vivo da Guatemala. Recusou a oferta de um salvo-conduto para voltar para a Argentina. Resolveu ir para o México, porque se tratava de um país mais hospitaleiro para os refugiados políticos. Chegando lá com um amigo guatemalteco, os dois viraram fotógrafos de rua para sobreviver. Depois de algum tempo, Guevara foi trabalhar no setor de alergia do Hospital Geral da Cidade do México, ao mesmo tempo que lecionava na Universidade Autônoma do México. Um dia encontrou no hospital o cubano Nico Lopez, que o levou para conhecer um compatriota recém-chegado à capital mexicana: Raul Castro.
Encontro com Fidel
Hilda Gadea relata em uma carta que Che e Raul se tornaram amigos, passando a se encontrar todos os dias. Ela descreve Raul como “um dedicado revolucionário, que era aberto, seguro de si, muito claro nas exposições de suas idéias”. Em julho de 1955, Raul apresenta a Guevara seu irmão mais velho: Fidel Castro. Foi amizade à primeira vista.
Che escreveu como se deu o primeiro encontro: “Encontrei Fidel em uma dessas noites frias da Cidade do México. Lembro que nossa primeira discussão foi sobre política internacional. Algumas horas mais tarde, bem de madrugada, já tinha me decidido que participaria da expedição do Movimento 26 de Julho, que em breve pretendia iniciar uma revolução em Cuba. Depois de minhas experiências pela América Latina e principalmente na Guatemala, era necessário muito pouco para me convencer a me juntar a qualquer revolução contra a tirania. Fidel causou boa impressão em mim. Ele estava absolutamente certo de que iríamos para Cuba. Uma vez lá, nós lutaríamos e que, lutando, venceríamos. Seu otimismo era contagiante. Tínhamos de agir e lutar para a consolidação de nossa posição. Era necessário parar de hesitar e começar a luta real. Para provar ao povo cubano que podia confiar em sua palavra, disse em um de seus famosos discursos: ‘Em 1956, nós devemos ser homens livres ou mártires.’ Este era o anúncio que, antes do fim do ano, ele desembarcaria em algum lugar de Cuba no comando de uma força expedicionária.”
Treinamento e embarque
Guevara passou a se dedicar inteiramente à causa. Sob a orientação de Alberto Bayo, um veterano da Guerra Civil Espanhola, de 63 anos, cerca de 80 homens começaram um treinamento de combate em uma fazenda perto da Cidade do México. Os exercícios de simulação consistiam em táticas de guerrilha, operações de ataque e manobras para confundir os inimigos em montanhas e na selva. O grupo suportava marchas de 15 horas por terrenos difíceis, subindo morros, cruzando rios e abrindo caminho no mato, aprendendo e aperfeiçoando os procedimentos de emboscada e de retirada rápida. Em pouco tempo, Che – apelido dado pelos cubanos, que significa “irmão”, em guarani – se tornaria o aprendiz mais dedicado de Bayo.
Nesse meio tempo, Fidel levantava fundos para conseguir realizar a insurreição. Em julho de 1956, a fazenda foi descoberta e 20 pessoas, entre elas Fidel, Guevara e Bayo, foram presas. Libertados um mês depois, tiveram de agilizar o embarque, pois temiam a pressão da polícia mexicana. Planejaram começar a revolução em novembro de 1956.
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A foto de Alberto Díaz Gutiérrez, conhecido como Alberto Korda, eternizou o mito.
Com os fundos arrecadados pelo Movimento 26 de Julho, foi possível comprar o barcoGranma – “vovó, em inglês –, que não era dos melhores, armas, munições e suprimentos médicos. Guevara seria o médico da expedição. Em 25 de novembro de 1956, o Granmalevantou âncora do porto de Tuxpan, levando a bordo, em seus 17,5 metros de extensão, 82 homens que mudariam a história de Cuba e do mundo. A viagem foi conturbada. Vários homens marearam durante o percurso e Guevara sofreu forte crise de asma.
O plano de Fidel era desembarcar, em 30 de novembro, perto da cidade de Niquero, na província de Oriente, cerca de 650 quilômetros de Havana. A chegada coincidiria com um levante em Santiago de Cuba, capital da província, comandado pelo líder estudantil Frank País. O objetivo era juntar forças com os rebeldes de Santiago, criando um movimento de duas pontas, rural–urbano, para atrair a população para a causa revolucionária. O levante eclodiu na data marcada, mas foi esmagado antes que Fidel e seus homens chegassem à praia, em 2 de dezembro.
Depois de sete dias no mar, o exército revolucionário desembarcou, mas não no local previsto onde estariam os suprimentos. Estavam a 16 quilômetros ao Sul, nos mangues da praia Colorado. O Granma encalhou na areia e logo foi descoberto pela Guarda Costeira. Os rebeldes precisaram nadar até a praia, perdendo vários equipamentos importantes, e tiveram que andar horas pelo terreno pantanoso até encontrar terra firme.
Guevara descreveu essa passagem em seu diário Reminiscências da guerra revolucionáriada seguinte forma: “Nós encontramos terra firme, nos perdemos como sombras ou fantasmas, marchando em resposta a algum obscuro impulso psíquico. Havíamos enfrentado sete dias de constante fome e enfermidades durante a travessia do mar e nos defrontamos com três dias ainda mais terríveis em terra. Exatamente dez dias depois de nossa partida do México, nas primeiras horas do dia 5 de dezembro, após uma noite de caminhada constantemente interrompida pela fadiga e por períodos de descanso, encontramos a área paradoxalmente conhecida como Alegria de Pío.”
Os rebeldes de Fidel estavam sendo cercados pelo Exército cubano nos canaviais de Alegria de Pío. Os aviões, que circulavam o local, começaram a abrir fogo. Aconteceu uma correria desenfreada em busca de abrigo seguro. Che atendia alguns companheiros que estavam com ferimentos leves, quando um homem, querendo se refugiar, deixou cair seu carregador de munição. Guevara estava com a sacola de medicamentos cheia, seria impossível carregar as duas coisas por causa do peso. Foi aí que ele tomou a decisão de ser um revolucionário: pegou a munição e largou os medicamentos para trás, correndo para o meio do canavial.
Depois de muito andar para não serem capturados pela Guarda Rural de Batista, foram contabilizadas as perdas. Dos 82 homens que desembarcaram do Granma, apenas 17 sobreviveram. Nico Lopez havia morrido e Che teve ferimentos leves no peito e no pescoço.
Destino: Sierra Maestra
Os rebeldes planejaram começar a revolução por Sierra Maestra, uma alta cadeia montanhosa de Cuba. A região era habitada por camponeses pobres e analfabetos, que lavravam pequenas roças para subsistência. As terras pertenciam a latifundiários, que pegavam uma parte de seus lucros. Em 1956, era praticamente impossível que a tropa regular de Batista conseguisse chegar ao local, pois era um lugar selvagem e não havia caminhos pela mata. Os treinamentos no México seriam úteis para os revolucionários nessa hora.
Em janeiro de 1957, Fidel e seu exército, agora com 20 homens, decidiram realizar um ataque para mostrar que o Movimento 26 de Julho estava vivo e ativo. Atacaram um pequeno posto da Guarda Rural na foz do rio La Plata. Conseguem capturar algumas armas e munições. Em fevereiro, Herbert Matthews, repórter do New York Times, foi à Sierra Maestra e fez uma longa entrevista com Fidel. Quando a reportagem saiu no jornal, o movimento ganhou notoriedade internacional, despertou simpatias e, principalmente, legitimidade. O governo de Fulgêncio Batista foi forçado a reconhecer que havia um exército rebelde em atividade dentro de Cuba.
Os revolucionários impressionavam as pessoas por seguirem um novo código de conduta bélica. As tropas regulares de Batista torturavam e executavam seus prisioneiros, além de cometer atrocidades contra civis. Já os rebeldes de Sierra Maestra tinham como norma liberar todos os soldados governamentais e jamais maltratar as pessoas da população local. Ao assumir princípios humanistas, os revolucionários conquistaram a confiança dos camponeses. Eles se mantinham firmes aos ensinamentos de José Martí, o herói nacional.
Ao longo de 1957, aumentava lentamente o número de rebeldes. Nesse mesmo ano, Fidel concede a Che a patente de comandante, posto que até então apenas ele próprio possuía, e o colocou na liderança da Segunda Coluna do Exército Rebelde. Depois de quase um ano em Sierra Maestra, os revolucionários perceberam que a semente estava germinando. Em toda parte de Cuba, surgiam protestos contra o governo. As forças de Fidel, agora com cerca de 300 combatentes, estavam bem organizadas. Ele e Che montaram fábrica de munição, escolas, clínicas, cozinhas coletivas, oficinas de trabalho, um jornal e uma estação de rádio na região (a Rádio Rebelde). Os camponeses receberam terras e se sentiam livres das arbitrariedades cometidas pela Guarda Rural.
Em abril de 1958, as forças anti-Batista no campo e nas cidades convocaram uma greve geral imaginando que o ditador fosse renunciar, mas o movimento fracassou. Em maio, o governo colocou 10 mil homens em Sierra Maestra, apoiados por tanques e aviões. A ofensiva durou quase três meses, porém o exército de Batista, desorganizado e não sabendo lutar nas montanhas, limitou-se a bombardear vilas e povoados, matando dezenas de civis.
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Che e Fidel em Sierra Maetra.
Batalha final
Em agosto, as tropas regulares se retiraram do campo de batalha. Sierra Maestra estava nas mãos dos revolucionários. O comandante-em-chefe agora planejava sua ofensiva final para tomar o controle das grandes cidades. Fidel e Raul marcharam com 200 homens para Santiago de Cuba, onde receberiam o reforço de outros 600 rebeldes para tentar ocupar a cidade. Enquanto isso, Che Guevara, com 148 homens, atravessava a província de Las Villas, em direção às montanhas Escambray e à cidade de Santa Clara. Camilo Cienfuegos comandava uma coluna de 82 homens, movendo-se paralelamente às forças de Che. O alvo dele era Havana.
Em dezembro, Guevara recebeu a missão de tomar toda a província de Las Villas, cortando a ilha em duas partes. Em questão de dias, com brilhantes manobras táticas, ele conquistou toda a província, exceto a capital, Santa Clara. Defendida por 2 mil soldados, a cidade contava com apoio aéreo. Guevara tinha apenas 200 homens. Os arredores de Santa Clara se renderam rapidamente com as tropas governamentais evitando o combate, mas o controle do centro da cidade custou três dias de luta e convencimento dos soldados governistas. Com a tomada de Santa Clara em 31 de dezembro de 1958, não havia mais nenhum obstáculo entre os rebeldes e Havana.
Santiago de Cuba continuava cercada pelas forças de Fidel e Raul. O comandante militar da cidade telefonou para Batista dizendo que não poderia manter a cidade por muito tempo. Sabendo que seu exército estava aniquilado e nada mais poderia fazer, às 3 horas da madrugada do dia 1º de janeiro de 1959, o ditador, juntamente com alguns comparsas, fugiu de avião para a República Dominicana com medo de ser morto. Prudente, Fulgêncio Batista já havia transferido para o exterior uma fortuna estima em US$ 800 milhões, amealhada em anos de saque do Tesouro Nacional.
Quando Fidel soube da fuga de Batista, preparou-se para marchar sobre Santiago. O comandante militar da cidade, no entanto, rendeu-se sem oferecer resistência e Fidel entrou pacificamente na cidade. De Santiago, Fidel irradiou um apelo ao povo de Havana, conclamando-o a evitar violência e manter-se vigilante pela justiça. Prometeu que as forças rebeldes adentrariam as cidades de Cuba para restabelecer a ordem e impedir a contra-revolução. “A ditadura desmoronou”, disse ele, “mas isso não significa que a revolução tenha triunfado. Revolução, sim! Golpe militar, não!”
Fidel pediu que Guevara e Cienfuegos seguissem para Havana. Em 2 de janeiro de 1959, eles entraram na cidade e assumiram o controle das instalações militares para evitar qualquer reação do Exército. No mesmo dia, Fidel começou sua lendária travessia de 800 quilômetros por toda extensão de Cuba, fazendo discursos e entusiasmando a multidão. Ele chegou em Havana em 8 de janeiro. A luta militar havia sido ganha. Agora, os revolucionários tinham pela frente o igualmente espinhoso trabalho de criar uma nova sociedade.
Em suas reflexões sobre a vitória final dos rebeldes, Che escreveu o seguinte: “A ditadura de Batista criara o necessário fermento, com sua política de opressão das massas e manutenção de um regime de privilégios. Privilégios para os servos do regime, para latifundiários parasitas e comerciantes. Privilégios para os monopólios estrangeiros. Um vez que o conflito começou, as medidas repressivas do governo e sua brutalidade, em vez de diminuírem a resistência popular, fortaleceram-na. A desmoralização e a falta de vergonha da casta militar facilitaram a tarefa. A rudeza das montanhas em Oriente e a incapacidade tática do inimigo também fizeram sua parte. A guerra, contudo, foi vencida pelo povo, por meio da ação de sua vanguarda armada (o exército rebelde), cujas armas básicas eram seu moral e sua disciplina.”
Dever cumprido
Depois de seu trabalho como médico e comandante das tropas rebeldes, Che foi proclamado “cidadão cubano de nascimento” e, no governo revolucionário, assumiu o posto principal do Banco Nacional de Cuba. Em seguida, foi para o Ministério da Indústria, onde desenvolveu uma política econômica voltada à diversificação da agricultura e à industrialização a fim de reduzir a dependência externa. Guevara também foi embaixador cubano, tendo visitado vários países, inclusive o Brasil, em 1960, onde foi condecorado pelo presidente Jânio Quadros, ansioso para demonstrar que o País tinha uma política externa independente.
Che ficou no cargo até abril de 1965, quando saiu de Cuba para levar a Revolução para outros países. Além disso, tinha suas dúvidas quanto à excessiva aproximação cubana com os soviéticos, posição que deixou bem clara nos encontros nos quais participou na época. Queria voltar a voar, não se prender a uma revolução. Já tinha dito a Fidel, antes de entrar para o exército rebelde cubano, que “vou retomar minha liberdade de revolucionário depois do triunfo da Revolução Cubana”. Deixou Cuba e uma carta a Fidel, que dizia num trecho o seguinte: “Sinto que cumpri a parte de meu dever que me atava à Revolução Cubana em seu território e me despeço de ti, dos companheiros, de teu povo, que já é meu. Faço formal a renúncia de meus cargos na direção do partido, de meu posto de ministro, de meu posto de comandante, de minha condição de cubano... Outras terras do mundo reclamam o concurso de meus modestos esforços... Até a vitória, sempre. Pátria ou Morte!” Assim foi para o Congo, onde tentou organizar uma guerrilha, que acabou sendo frustrada. Retornou em segredo para Havana e dali partiu, em outubro de 1966, para as selvas bolivianas, levando alguns guerrilheiros cubanos para encontrar outros homens na Bolívia, de onde empreenderiam uma guerrilha similar à que saiu vitoriosa em Cuba.
Mesmo com cerca de 50 homens em território boliviano, as tropas de Che venceram algumas lutas contra os inimigos. Mas, isolados nas montanhas da Bolívia, Che Guevara e seus companheiros foram denunciados ao Exército boliviano. Em 8 de outubro de 1967, eles foram encurralados num despinhadeiro e poucos escaparam. Che, ferido na perna, ficou preso na cidade de La Higuera. O governo boliviano estava diante de um dilema: executar Guevara ou levá-lo a julgamento. Esta última hipótese foi descartada imediatamente por René Barrientos, presidente boliviano na época. O banco dos réus exporia La Paz a uma campanha internacional por sua libertação.
Guevara foi interrogado por agentes da CIA e da inteligência boliviana. Em seguida, foi destacado um oficial para executá-lo. O soldado disparou várias vezes. Che estava morto.
Poucas horas depois, vários repórteres e fotógrafos chegaram em La Higuera e foram levados para uma lavanderia onde o corpo de Guevara fora colocado em exposição. A notícia se espalhou pelo mundo, mas, durante dias, houve uma discussão internacional sobre a veracidade da morte do guerrilheiro. Todas as especulações terminaram em 15 de outubro, quando Fidel Castro anunciou que realmente Guevara tinha sido capturado e executado na Bolívia.
Em seu discurso, profundamente emocionado, Fidel pronunciou o seguinte: “Raramente pode-se dizer de um homem com maior justiça e com maior precisão o que vou falar sobre Che: ele foi um exemplo puro de virtudes revolucionárias; ele foi um ser humano extraordinário; um homem de extraordinária sensibilidade. Che era um homem de total integridade, um homem de supremo senso de honra, de absoluta sinceridade. Um homem de hábitos estóicos e espartanos, cuja conduta nenhuma mácula pode ser encontrada. Ele constituía, dentro de várias virtudes, o que podemos chamar de o verdadeiro modelo revolucionário.”
Os restos mortais de Guevara, depois de ficarem 30 anos enterrados num cemitério clandestino na Bolívia, foram identificados e exumados em julho de 1997. Atualmente, eles se encontram enterrados n Mausoléu Ernesto Che Guevara, na cidade de Santa Clara, em Cuba.
Mesmo se não levarmos em conta seus sucessos e frustrações durante toda sua vida, Ernesto Che Guevara, por si só, serviu como um símbolo da dedicação revolucionária, cujas ações foram sempre consistentes e em harmonia com seus ideais morais. Ele morreu lutando por esses ideais, mas continua vivo nos corações de todos os povos solidários.
Segunda versão sobre sua morteMesmo com cerca de 50 homens em território boliviano, as tropas de Che venceram algumas lutas contra os inimigos. Mas, isolados nas montanhas da Bolívia, Che Guevara e seus companheiros foram denunciados ao Exército boliviano. Em 8 de outubro de 1967, eles foram encurralados num despinhadeiro e poucos escaparam. Segundo Ricardo Rojo, em seu livro Meu amigo Che, Guevara havia recebido vários tiros na luta da cidade de La Higuera. Ela estava sentado no chão com as costas apoiadas na parede, respirando com dificuldade, quando o capitão Gary Prado, chefe da companhia dos Rangers que o capturou, disparou uma rajada de metralhadora de cima para baixo. O tiro de misericórdia foi dado pelo coronel Andrés Selnich, superior hierárquico de Prado, com uma pistola 9mm. A bala atravessou-lhe o coração e o pulmão. Che estava morto.
Assim, segundo relato do jornalista José Alcazar, quando o oficial destacado para execução hesitava em puxar o gatilho, ele olhou fixamente para ele e disse: “Bem, vai em frente, seu filho da puta, me mata!”