segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Gilmar Mendes, o retrato de um Judiciário arrogante

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A trajetória do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes é uma alegoria do Judiciário brasileiro.
Privilégios. Mordomias. Salários nababescos. Negócios com o poder econômico. Na trajetória do ministro Gilmar Mendes, sinais de uma instituição marcada por elitismo e horror ao povo
Gilmar Ferreira Mendes nasceu na cidade de Diamantino, MT, em 30 de dezembro de 1955, filho de Nilde Alves Mendes e de Francisco Ferreira Mendes, prefeito de Diamantino pela Arena durante o período militar. Gilmar se formou bacharel em direito pela Universidade de Brasília em 1978. Fez o mestrado com o tema Direito e Estado na mesma universidade, obtendo o certificado de conclusão em 1987.
Exerceu na administração pública os cargos de procurador da República com atuação em processos do Supremo Tribunal Federal (outubro de 1985 a março de 1988). Foi adjunto da subsecretaria-geral da Presidência da República (1990 e 1991) e consultor jurídico da Secretaria Geral da Presidência da República (1991 e 1992). Desempenhou a função de assessor técnico na Relatoria da Revisão Constitucional na Câmara dos Deputados (dezembro de 1993 a junho de 1994). Foi assessor técnico no ministério da Justiça, na gestão do Ministro Nelson Jobim (1995 e 1996), período no qual colaborou na coordenação e na elaboração de projetos de reforma constitucional e legislativa. Foi subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil, de 1996 a janeiro de 2000, e Advogado-Geral da União, de janeiro de 2000 a junho de 2002. Foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal por FHC em 2002.
Vem de uma família de fazendeiros e juízes do Mato Grosso, onde são influentes. O patriarca, desembargador Joaquim Pereira Ferreira Mendes, foi por quase dez anos presidente do Tribunal de Justiça do Estado (1908-1913, 1916-1917 e 1918-1920), sendo o único a presidi-lo por mais de duas vezes. O neto Milton Ferreira Mendes seguiu os passos do avô e exerceu o cargo de juiz, e depois foi promovido a desembargador em Mato Grosso por oito anos. A família conseguiu emplacar ao menos dez sucessores de prestígio na carreira jurídica, entre eles os desembargadores Mário Ferreira Mendes, Joazil Mendes Gardés e o juiz Élcio Sabo Mendes. Juiz membro do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), Yale Sabo Mendes é reconhecido nacionalmente pela atuação no Juizado Especial do Planalto, em processos relacionados ao Direito do Consumidor. Ele é irmão do desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF), Ítalo Fioravanti Sabo Mendes. Dois deles já trabalham em Brasília: o ministro Gilmar e Ítalo Ferreira Mendes.
O último membro da família Mendes a despontar é Djalma Sabo Mendes, nomeado defensor público-geral do Estado. Foi uma escolha pessoal do governador Blairo Maggi, amigo pessoal do ministro Mendes. Os Mendes ainda contam com o juiz Élcio Sabo Mendes Júnior, que atua em Rio Branco (AC). Ele é filho do juiz aposentado Élcio Sabo Mendes, tio do ministro Gilmar. Além disso, a família conta com o procurador do Estado aposentado Djalma Mendes, pai do defensor-geral Djalma Sabo Mendes.
A família tem representantes em várias esferas de poder, seja por meio da magistratura ou na política. O sucesso da família na magistratura, além da herança política, certamente contribuiu para que o irmão caçula do presidente do STF, Francisco Ferreira Mendes Júnior, o Chico Mendes (PR/MT), chegasse ao posto de prefeito de Diamantino, inclusive por dois mandatos (1).
Em 2015, Gilmar Mendes foi à Justiça contra o líder do MTST Guilherme Boulos por conta de coluna publicada na Folha de S.Paulo em que é chamado de “bravateiro de notória ousadia”. O ministro do STF decidiu processar Guilherme Boulos por danos morais e pede indenização de R$100 mil. A ação corre na Justiça do Distrito Federal. No texto, intitulado “Gilmar Mendes e o Bolivarianismo” publicado em 13 de novembro de 2014, Boulos comenta uma declaração de Mendes, dada no início daquele mês, alertando para o risco de que o STF “se converta numa corte bolivariana”, com a possibilidade de “governos do PT terem nomeado dez de seus onze membros a partir de 2016″. O líder do MTST relembrou algumas de suas decisões que “favoreceram o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda e o ex-senador de Goiás Demóstenes Torres – ambos do DEM e abatidos em escândalos de corrupção – e o banqueiro Daniel Dantas, preso pela PF e libertado por ordem de Mendes”. Será que Gilmar Mendes ficou furioso com o líder sem-teto porque sua família é vista, por muitos, como uma das grandes invasoras de terras indígenas no Mato Grosso do Sul? (2)
É evidente que a conduta ética de Mendes está longe de ser consenso. Segundo levantamento da revista CartaCapital em 2009, a contratação de cursos da empresa de Mendes – o Instituto Brasiliense de Direito Público – por diversos órgãos federais teria rendido ao menos R$3 milhões.
Outro episódio controverso deu-se quando Mendes ainda era o chefe da Advocacia Geral da União (AGU), durante o governo FHC, antes de ser nomeado para o STF. Segundo reportagem da revista Época em 2002, a AGU pagou R$32.400,00 ao instituto de Mendes no período em que era comandada por ele.
Vale lembrar também que Mendes concedeu duas vezes habeas corpus para que fosse solto o banqueiro Daniel Dantas, que havia sido preso na Operação Satiagraha sob suspeita de desvio de verbas públicas, crimes financeiros e tentativa de suborno para barrar a investigação da Polícia Federal. A decisão foi mantida depois pelo plenário do STF. O grupo Opportunity, de Daniel Dantas, adquiriu participações em várias empresas privatizadas no governo FHC, em especial no setor de telecomunicações. E pasmem: a jornalista Monica Bergamo (Folha de S.Paulo) anunciou que, após 32 anos de serviço público, Guiomar Feitosa Mendes, mulher de Gilmar Mendes, está se aposentando, depois de ter trabalhado mais de 23 anos no STF. Ela será agora gestora da área jurídica do escritório do advogado Sérgio Bermudes, do Rio. Ou seja, a mulher do ministro Gilmar vai trabalhar com o advogado de Daniel Dantas!”
Gilmar Mendes é casado com Guiomar Feitosa de Albuquerque Lima. A família Feitosa é uma importante família política do Ceará, grande empresária de transportes urbanos, grandes proprietários rurais e tem ocupado vários cargos parlamentares no estado. Em julho de 2013 um filho do casal, Francisco Feitosa Filho, casou com Beatriz Barata, neta do maior empresário de ônibus do Rio de Janeiro, Jacob Barata. Gilmar e Guiomar foram padrinhos do casamento.
Apesar da família rica, a esposa de Gilmar custa caro aos cofres públicos: “Dos 608 mil reais gastos com as mulheres dos ministros do STF, 437 mil custearam viagens de Guiomar Feitosa de Albuquerque Ferreira Mendes, esposa do ministro Gilmar Mendes. Entre 2009 e 2011, ela acompanhou o marido 20 vezes ao exterior, gasto médio de quase 22 mil reais por viagem – em 2012, não há registro de viagens dela. O ato interno citado pelo STF como fundamento legal para o gasto com as passagens também respalda que elas sejam de primeira classe.” (3)
Gilmar Mendes, maestro de sofismas, desfigura a ideia de Estado social e democrático. Entretanto, Mendes é apenas um notório exemplo de magistrado que transforma o Judiciário num tribunal político de baixo nível, o que reafirma o que Boulos disse em seu artigo: “O Judiciário é o único poder da República que, no Brasil, não tem nenhum controle social. Regula a si próprio e estabelece seus próprios privilégios. Mas questionar isso, dizem, é questionar a democracia. É bolivarianismo”. Contudo, podemos encontrar outros exemplos nas cortes federais e estaduais. Estudos recentes sobre o Judiciário indicam que elites jurídicas provêm das mesmas trajetórias, famílias, universidades e classe social (4).
No escritório de advocacia Sérgio Bermudes, onde trabalha a esposa de Gilmar Mendes, também encontramos outros vínculos com as famílias dos ministros do STF: Elena Landau, Gabriel de Orleans e Bragança e Marianna Fux, esta última sócia desde 2003. Marianna Fux, a filha do ministro do STF Luiz Fux, tentou virar desembargadora no Rio de Janeiro e esbarrou nos requisitos mínimos para o preenchimento do cargo. Mais “sorte” teve a advogada Letícia Mello, que foi nomeada para o cargo de desembargadora do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, que abrange o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. Letícia tem 37 anos e é filha do ministro do STF e presidente do TSE Marco Aurélio Mello e da desembargadora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. A família Mello é uma das mais importantes famílias políticas de Alagoas. Letícia é neta do advogado Plínio Affonso de Farias Mello e de D. Eunice Mendes de Farias Mello. Plínio Affonso, que era irmão de Arnon Affonso de Mello, governador de Alagoas e senador da República, pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello. O ministro Marco Aurélio Mello foi indicado para o STF pelo seu primo Fernando Collor de Mello.
Gilmar Mendes não é uma exceção. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, 16% dos integrantes do Judiciário no estado do Rio são parentes de outros membros desse poder.(5) Esta situação seguramente se reproduz em maior ou menor grau nos outros estados.
Recentemente uma reportagem da revista Época(6) mostrou que juízes estaduais e promotores dos Ministérios Públicos dos estados criam todo tipo de subterfúgio para ganhar mais do que determina a Constituição. Hoje o teto é de R$33.763,00, mas os juízes e promotores engordam seus contracheques com ao menos 32 tipos de auxílios, gratificações, indenizações, verbas, ajudas de custo. Na teoria, os salários – chamados de subsídios básicos – das duas categorias variam de R$22 mil a R$30 mil. Os salários reais deles, no entanto, avançam o teto pela soma de gratificações, remunerações temporárias, verbas retroativas, vantagens, abonos de permanência e benefícios concedidos pelos próprios órgãos. É uma longa série de benefícios, alguns que se enquadram facilmente como regalias.
Conforme o levantamento, a média de rendimentos de juízes e desembargadores nos estados é de R$41.802 mensais; a de promotores e procuradores de justiça, R$40.853,00. Os presidentes dos Tribunais de Justiça apresentam média ainda maior: quase R$60 mil (R$59.992,00). Os procuradores-gerais de justiça, chefes dos MPs, recebem também, em média, R$53.971,00. Fura-se o teto em 50 dos 54 órgãos pesquisados. Eles abrigam os funcionários públicos mais bem pagos do Brasil. Há salários reais que ultrapassam R$100 mil. O maior é de R$126 mil.
A institucionalização de famílias dentro do Estado representa uma afronta a qualquer pretensão de organização da sociedade de maneira democrática. No sistema judicial há grande ênfase em muitas das dimensões familiares(7). Nos grandes escritórios jurídicos, as relações familiares também são importantes. O familismo e o nepotismo do Judiciário produzem e reproduzem diversas formas de desigualdade social. Estas relações formam grandes redes de interesse e de nepotismo dentro do Estado junto aos poderes executivo, legislativo, judiciário, os tribunais de contas, o ministério público, os cartórios, as mídias e alguns setores empresariais.
É inacreditável que estes distintos operadores da classe dominante creiam que estariam a nos “civilizar pelo rigor das leis”. O desejo de justiça e democracia é bloqueado pelo Judiciário que favorece privilégios. É a mordomia de toga, marca do autoritarismo que resta na sociedade brasileira. Nessas condições, não pode haver ilusões quanto a qualquer auto-reforma do Judiciário. A pressão de diversos juízes e desembargadores para esvaziar as funções do CNJ demonstra que o Judiciário brasileiro é corporativista, defensor de privilégios e tem ojeriza à plebe. E para piorar é protegido contra o povo e não submetido a eleições.
NOTAS
(1)
 “A grande família de Gilmar Mendes” (clique aqui).
(2) Ler, dentre outros textos, “Suplicy: Gilmar Mendes e família os grandes ocupadores de terras indígenas.” (clique aqui).
(3) “Mulher do ministro Gilmar vai trabalhar com o advogado de Daniel Dantas” (clique aqui).
(4) “Esposas a tiracolo” (clique aqui).
(5) Um dos estudos é o de Frederico Normanha Ribeiro de Almeida em sua tese de doutorado (USP): “A nobreza togada: as elites jurídicas e a política da Justiça no Brasil” (clique aqui).
(6) “Magistrados emplacam parentes no TJ/RJ” (clique aqui).
(7) “Juízes estaduais e promotores: eles ganham 23 vezes mais do que você” (clique aqui).
(8) Ver estudo de Ricardo Costa de Oliveira sobre o nepotismo no Poder Judiciário (clique aqui).

Delcídio é um elo da corrupção histórica na Petrobras

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A mídia recortou os minutos convenientes da gravação e desprezou os trechos nos quais a quadrilha relembra a roubalheira deles no governo FHC.
“Matar mulher é feminicídio; matar presidente é magnicídio;
matar criança é infanticídio; matar de vergonha é Delcídio”.

Postagem no Twitter
As gravações das conversas entre o Senador Delcídio do Amaral, Bernardo Cerveró [filho do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró] e Edson Ribeiro [advogado do ex-diretor], são reveladoras do quão entranhável é a corrupção no estamento da política e dos negócios.
Se aquelas conversas fossem divulgadas sem a identificação dos interlocutores, ninguém hesitaria em reconhecer se tratar de um bando de bandidos reunidos para arquitetar crimes. Este fato é, em si mesmo, estarrecedor e escandaloso. A cassação do mandato de senador e a expulsão de Delcídio do PT serão os desdobramentos naturais.
Tão escabroso quanto este fato, entretanto, é a seletividade do condomínio policial-jurídico-midiático de oposição, que recortou os minutos convenientes da 1 hora e 35 minutos da gravação e desprezou os trechos nos quais a quadrilha relembra a podridão e a roubalheira deles na Petrobras ainda no governo FHC.
Eles fizeram menção, por exemplo, à dinheirama depositada em bancos suíços originada de propina que receberam da empresa Alstom em 2001 e 2002, quando Delcídio era diretor da Petrobras e Cerveró seu gerente. E também revelaram o nome do personagem que a décadas usa o lobista Fernando Baiano como preposto: o espanhol Gregório Preciado, que é casado com uma prima do senador tucano José Serra.
Qual o procedimento policial e judicial instalado para investigar estes dois aspectos reveladores da gênese da corrupção na Petrobras? Resposta: “Nenhum!”
Houve cobertura midiática demonstrando jornalisticamente as conexões e os tentáculos tucanos na corrupção na Petrobras? Resposta: “Nenhuma!”
A seletividade do condomínio policial-jurídico-midiático de oposição tem sido uma norma de conduta. Os responsáveis pela Lava-Jato na Polícia Federal, no Ministério Público e no Judiciário simplesmente desconsideram testemunhos, indícios e provas que implicam políticos ligados ao PSDB e, além de não investigarem, arquivam as denúncias. E a mídia oposicionista completa o serviço, acobertando a verdade inteira.
Foi assim com Pedro Barusco, o ex-gerente que confessou ter começado sua prática delituosa na Petrobras na década de 1990, durante o governo FHC. Diante da confissão deste funcionário corrupto que devolveu US$100 milhões roubados em 20 anos, qual a apuração da Lava-Jato sobre o período FHC? Resposta: “Nenhuma!”
Por uma estranha discricionariedade, o inquérito contra o senador tucano Anastasia foi arquivado, e a investigação sobre os R$10 milhões transferidos pelas empresas implicadas na Lava-Jato ao PSDB na gestão do ex-presidente do Partido, Sérgio Guerra [já falecido], nunca prosperou. Qual a reação midiática a isso? Resposta: “Nenhuma!”
O chamado “mensalão” foi implacavelmente julgado para justiçar o período dos governos do PT. Entretanto, como está a investigação do “mensalão” mineiro, inventado pelo tucanato muitos anos antes? Resposta: – paralisada, podendo prescrever, e os envolvidos estão “todos soltos”.
A realidade não permite ilusões ou fanatismos alienantes: o Brasil está enfrentando uma das maiores crises morais e políticas da sua história. A corrupção é um fator desencadeante da corrosão moral que aflige o país. O mais importante, porém, é que pela primeira vez tudo está sendo investigado sem interferências do governo.
Esta conquista civilizatória do Brasil, de identificar e castigar a corrupção, poderá ser anulada por manobras maniqueístas do condomínio policial-jurídico-midiático de oposição, que recorta e seleciona a narrativa a ser construída, que visa preservar o PSDB e aniquilar o PT. Isso é contraproducente, porque dos mais de 100 indiciados na Lava-Jato até agora, apenas 4 são identificados com o PT, e a imensa maioria pertence a outros partidos políticos.
Delcídio é um elo da corrupção histórica na Petrobras; ele é o elo entre o presente e o passado; o elo corrupto entre o período FHC e o período Lula. Se, em razão disso, a Lava-Jato não averiguar a raiz da corrupção na empresa, será uma agressão à justiça e à democracia.
Mais além da Lava-Jato, é necessário um esforço de recomposição ética no Brasil, porque a corrupção está disseminada inclusive em práticas “legais”, ainda que imorais, em várias esferas da atividade pública nos três Poderes.
Só moralismo não resolve. Menos ainda o falso e seletivo moralismo. É necessário encarar esta crise de frente. O Brasil está num “mandrake político”, porque nenhuma força política se mostra crível como alternativa na crise. O país está à beira do abismo político e moral que ameaça produzir um forte estrago à economia nacional.
Este momento de impasse é, também, um momento de rediscussão de um novo ordenamento jurídico-institucional. A atual lógica, em especial quanto ao sistema político, é uma das causas da transição inconclusa da ditadura para um Estado de bem-estar social. O PMDB, Partido individualmente minoritário, domina a ciência de navegar neste sistema obsoleto e fisiológico, é um dos principais fatores do atraso e do retrocesso.
É urgente, por isso, se buscar o apoio da sociedade brasileira para a convocação de uma Assembleia Constituinte autônoma e específica, que discuta um novo ordenamento jurídico-institucional, começando pela reforma política e pela democratização profunda do Estado.

Tudo é lindo na política externa norte-americana (sqn)

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A grande mídia corporativa dos EUA apoia a política externa do governo apresentando um mundo distorcido ao público norte-americano.
Dave Lindorff, lido na Carta Maior em 27/11/2015
Seria a mídia corporativa norte-americana notadamente composta por órgãos de propaganda ou agências de notícias?
Aqui estão alguns pontos a se considerar e, então, o leitor pode decidir. Confira algumas perguntas abaixo e verifique como a mídia corporativa dos EUA geralmente produz suas respostas:
1) Se o Estado Islâmico ou a Al Qaeda deliberadamente atacam civis, como no recente episódio em Paris, indiscriminadamente matando dezenas de pessoas, seria isso terrorismo?Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Sim
2) Se os EUA deliberadamente atacam civis, como no caso do hospital dos Médicos Sem Fronteiras em Kunduz, Afeganistão, matando indiscriminadamente dezenas de pessoas, seria isso terrorismo?Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Não
3) Se o governo chinês assume o controle de uma ilha minúscula, reivindicada por outra nação, e ali instala uma base militar, seria esse um exemplo de agressão, uma violação do direito internacional e uma provocação?Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Sim
4) Se o governo dos EUA assume o controle e, em seguida, se recusa a renunciar uma porção de uma minúscula ilha, propriedade de outro país, neste caso Cuba, e ali instala uma base militar (como tem feito já por décadas, no caso da Baía de Guantânamo) seria esse um exemplo de agressão, uma violação do direito internacional e uma provocação?
Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Não
5) Se a líder de um partido que ganha a eleição nacional, mas anuncia que, na verdade, é ela que tomara todas as decisões importantes para o governo recém-eleito, como Suu Ky anunciou que fará em Mianmar, seria esse um exemplo de comportamento antidemocrático ou de caudilhismo?
Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Não
6) Se um país estrangeiro coloca mísseis apontados para outra nação no território de um país adjacente ao país-destino, como fez a URSS em Cuba, seria essa uma ameaça para o país de destino, no caso os EUA?
Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Sim
7) Se os EUA colocam mísseis na Polônia apontados pra Rússia, como fizeram, ou colocam armamento nuclear na Alemanha, também tendo a Rússia como alvo, o que foi feito, seriam essas ameaças para a Rússia?
Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Não
8) Se o Irã proporciona assistência militar aos rebeldes de um país vizinho como Iêmen e tal grupo, os Houthis, com sucesso derrubam um autocrata do poder, seria isso subversão?
Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Sim
9) Se os EUA financiam organizações dentro de outro país que organizam protestos, marchas e atentados sangrentos que, finalmente, derrubam o governo eleito, como os EUA fizeram na Ucrânia, seria isso subversão?
Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Não
10) Se o Irã, signatário do Tratado de não Proliferação Nuclear, pretende desenvolver capacidade de refino do urânio-235, o que um dia poderia ser usado para fabricar armamento nuclear, mas concorda com inspeções e supervisão internacional, seria essa uma grave ameaça à estabilidade regional no Oriente Médio e à paz mundial?
Resposta objetiva: Não, já que existe outra poderosa nação com armamento nuclear no Oriente Médio, com a capacidade de obliterar totalmente o Irã – ou seja, Israel.
Resposta da mídia: Sim
11) Se Israel, que nunca assinou o Tratado de não Proliferação, se recusa a permitir inspeções em suas instalações nucleares, é conhecido por ter centenas de armas nucleares, bem como os aviões e mísseis para enviá-los a qualquer lugar, seria essa uma grave ameaça à estabilidade regional no Oriente Médio e à paz mundial?
Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Não
12) Se uma pessoa revela, por dinheiro, a uma potência estrangeira, o funcionamento interno do sistema de interceptação de sinais da Agência de Segurança Nacional (NSA), bem como as identidades de centenas de agentes da inteligência secreta dos EUA, como fez o espião israelense Jonathan Pollard, seria ele um inimigo dos Estados Unidos?
Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Não
13) Se uma pessoa revela, em ato de princípio e enquanto denunciante, sem compensação financeira, a espionagem ilegal e inconstitucional contra cidadãos norte-americanos da NSA, como fez Edward Snowden, agora exilado, seria ele um inimigo dos Estados Unidos que deve, portanto, ser castigado?
Resposta objetiva: Não
Resposta da mídia dos EUA: Sim
14) Se terroristas pró-Estado Islâmico em Paris disparam contra feridos, vítimas de seus atentados de terror, seria esse um exemplo da barbárie e um crime digno da condenação de todo o mundo?
Resposta objetiva: Sim
Resposta da mídia dos EUA: Sim
15) Se vídeos mostram as forças de defesa israelenses atirando na cabeça de um palestino, ferido e deitado na rua, seria esse é um exemplo de barbárie e um crime de guerra digno da condenação de todo o mundo?
Resposta objetiva: Sim
Resposta de mídia dos EUA: Não (não foi sequer noticiado).
Evidentemente que essa lista poderia continuar, mas as evidências tornam óbvio e incontestável que a grande mídia corporativa dos EUA trabalha em sintonia, essencialmente apoiando a política externa dos EUA e apresentando um determinado mundo para público norte-americano, de forma muito distorcida e pró-governo.
Porque isso acontece, uma vez que essas agências de notícias são, majoritariamente, não diretamente financiadas ou controladas pelo governo, como são em países onde se espera que a mídia seja arma de propaganda, é uma história complicada, que vem há muito tempo sendo explicada claramente por especialistas como Noam Chomsky e Edward Herman.
Independente da lermos sobre o assunto, a realidade é clara para qualquer um que preste a mínima atenção: a mídia dos EUA, particularmente quando trata de assuntos externos, mas também quando trata de assuntos como a inteligência e a espionagem doméstica, não pode ter nossa confiança por apresentar a verdade, nem algo que minimamente se aproxime da verdade.
Gostaria de salientar aqui que evidências sólidas em torno desse desrespeito intencional a verdade por parte da mídia corporativa podem ser encontradas aqui em nossa própria e humilde organização de pequenas notícias, ThisCantBeHappening!. Nos últimos quatro anos, nós denunciamos:
  • papel da CIA em orquestrar o caos sectário e terrorista no Paquistão.
  • papel central da justiça e da inteligência norte-americanas na coordenação do esmagamento brutal do movimento Occupy nas cidades por todo os EUA.
  • O conhecimento prévio e total falta de preocupação ou ação do FBI sobre os planos bem documentados em Houston que tratavam dos grupos conhecidos e não identificados que conspiravam para assassinar líderes do movimento Occupy por meio de “rifles de longo alcance”. (O FBI enviou memorandos sobre esta trama para escritórios regionais do FBI e para o quartel-general, mas nunca agiu para impedi-la e nunca prendeu qualquer um dos envolvidos na trama).
  • A administração Obama deliberadamente escondendo provas forenses dos médicos legistas turcos que mostravam que membros da força de defesa de Israel executaram brutalmente Furkan Dogan, um garoto norte-americano de 19 anos a bordo da embarcação humanitária em Gaza, Mavi Marmara, e não fizeram nada para punir os assassinos.
  • O assassinato, pelas mãos de um agente do FBI, de um jovem imigrante checheno, Ibragim Todashev, na Flórida, que havia sido interrogado por tal agente e por um policial de Boston em seu próprio apartamento (Todashev pode ter tido provas de que o FBI tinha trabalhado com os irmãos Tsarnaev antes da explosão da maratona de Boston). Série em três partes: perguntas obscuras 1perguntas obscuras 2 e perguntas obscuras 3.
Essas e outras histórias, que foram relatadas e publicadas, e que foram amplamente cobertas pelos meios de comunicação alternativos, não foram nem ao menos mencionadas pela mídia corporativa dos EUA. Assim como a maioria dos importantes comunicados são ignorados sem qualquer aviso pela imprensa corporativa. Tais informações, portanto, não chegam a grande parte da população norte-americana que obtém suas informações inteiramente através das fontes corporativas tradicionais.
Tradução: Allan Brum.

A privatização da Sabesp gerou a crise hídrica em São Paulo

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Em debate organizado pelo Fórum 21, especialistas mostram porque a mercantilização da empresa surrupiou o direito à água da população.
Uma crise anunciada, que resulta da privatização da Sabesp, uma empresa de economia mista controlada pelo governo de São Paulo, com a atribuição de assegurar o abastecimento de água do estado, mas que se mercantilizou a tal ponto nos últimos anos que acabou por abandonar sua função pública de garantir o direito da população à água. Este foi o veredito dos debatedores que participaram dos “Seminários para o Avanço Social”, promovido pelo Fórum 21, para a crise da água em São Paulo.
O geólogo Delmar Mattes, ex-secretário de Vias Públicas e de Obras da Prefeitura na administração de Luiza Erundina e membro do Coletivo de Luta pela Água, afirma que São Paulo já vivenciava uma grave situação de insegurança hídrica muito antes das variações climáticas resultarem em falta de chuvas na região, devidamente identificada e denunciada por diversos técnicos. “Esta é uma crise anunciada. Nós já vivíamos na iminência de uma crise hídrica”, atesta.
Além disso, ele ressalta que a falta d´água este é apenas um aspecto desta crise. E nem mesmo o mais grave deles. “Hoje, cerca de 40% da população de São Paulo está sofrendo cortes de abastecimento. Mas a crise é também da qualidade desta água. Aliás, a crise é muito maior em relação à qualidade, não querendo desprezar a falta de água”, alerta. Conforme o geólogo, a má qualidade já afeta todas as formas de captação, da rede pública até às cisternas usadas por muitos condomínios.
Para ele, isso ocorre porque a qualidade da água não é prioridade para a Sabesp, uma empresa mista que tem colocado o lucro acima de tudo. “Em 10 anos, a Sabesp distribuiu R$4,2 bilhões em dividendos, dinheiro este que poderia ter sido aplicado em saneamento básico”, aponta. O geólogo aponta também o excesso de terceirizações como sintoma dessa busca desenfreada pelo lucro, que já afeta a maior parte dos serviços da empresa e prejudica a qualidade do serviço ofertado.
Mattes alega que a água é um bem público que jamais poderia ser submetido à lógica de exploração privada. Segundo ele, é essa lógica que permite, por exemplo, que os clientes com consumo igual ou superior a 500 mil metros cúbicos – ou seja, as grandes empresas – paguem tarifa reduzida e tenham seu abastecimento priorizado, em detrimento dos pequenos consumidores das regiões periféricas.
Dentre os desafios colocados, ele ressalta a importância da aprovação do projeto de lei de autoria do PT que propõe a reestatização da Sabesp, mais participação popular nas decisões sobre a política hídrica do estado, recuperação dos mananciais mais próximos ao centro urbano, dentre outros.
A engenheira sanitarista Érika Martins, que também é do Coletivo de Luta pela Água, acrescenta que a causa da crise hídrica está também no conflito permanente entre os setores de abastecimento e enérgico, com o último tomando sempre vantagens. “As políticas públicas em São Paulo não priorizam o abastecimento”, afirma.
Segundo ela, o processo de privatização fragilizou a Sabesp e permitiu que a empresa fosse sequestrada pelos interesses do capital, situação esta muito agravada pela falta de transparência na gestão e de abertura para a participação popular. “Os comitês estão esvaziados e as relações entre os representantes de empresas de consultoria, empreiteiras e gestores públicos são bastante promíscuas”, denuncia.
Ex-funcionária da Sabesp, ela explica que a lógica da empresa hoje é gastar o mínimo necessário para manter o sistema, não investindo sequer em reparação. “É uma lógica totalmente mercantilista: pra que distribuir um pouco mais da água produzida para pobres que não vão consumir muito mesmo? Melhor enviar logo para os centros de consumo”, ironizou.
A militante também criticou a dificuldade das organizações que conseguirem espaço na mídia para apresentar uma narrativa sobre a crise diferenciada daquela sustentada pelas gordas verbas publicitárias do governo de São Paulo. “As organizações não conseguem dialogar com a população e as pessoas vão se acostumando a um nível ruim de serviço, que começam a achar que é assim mesmo, que não são merecedores de um tratamento melhor”, lamentou.

Dilma sairá maior desta guerra

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Via Brasil 247 em 6/12/2015
O escritor Fernando Morais, um dos maiores intelectuais brasileiros, aponta que a abertura de processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff por Eduardo Cunha, com o apoio de políticos oportunistas da oposição, foi o ato mais infame na história do Congresso Nacional.
“E veremos quem se alia ao oportunismo, ao gangsterismo, ao vale-tudo pelo poder. Não tenho dúvidas: a presidente Dilma sairá maior dessa guerra, mais uma entre tantas que enfrentou, sem jamais ter se ajoelhado diante de seus algozes”, diz ele. Confira abaixo:
O DIA DA INFÂMIA
Fernando Morais
Minha geração testemunhou o que eu acreditava ter sido o episódio mais infame da história do Congresso. Na madrugada de 2 de abril de 1964, o senador Auro de Moura Andrade declarou vaga a Presidência da República, sob o falso pretexto de que João Goulart teria deixado o país, consumando o golpe que nos levou a 21 anos de ditadura.
Indignado, o polido deputado Tancredo Neves surpreendeu o plenário aos gritos de “canalha! canalha!”.
No crepúsculo deste 2 de dezembro, um patético descendente dos golpistas de 64 deu início ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.
A natureza do golpe é a mesma, embora os interesses, no caso os do deputado Eduardo Cunha, sejam ainda mais torpes. E no mesmo plenário onde antes o avô enfrentara o usurpador, o senador Aécio Neves celebrou com os golpistas este segundo Dia da Infâmia.
Jamais imaginei que pudéssemos chegar à lama em que o gangsterismo de uns e o oportunismo de outros mergulharam o país. O Brasil passou um ano emparedado entre a chantagem de Eduardo Cunha – que abusa do cargo para escapar ao julgamento de seus delitos – e a hipocrisia da oposição, que vem namorando o golpe desde que perdeu as eleições presidenciais para o PT, pela quarta vez consecutiva.
Pediram uma ridícula recontagem de votos; entraram com ações para anular a eleição; ocuparam os meios de comunicação para divulgar delações inexistentes; compraram pareceres no balcão de juristas de ocasião e, escondidos atrás de siglas desconhecidas, botaram seus exércitos nas ruas, sempre magnificados nas contas da imprensa.
Nada conseguiram, a não ser tumultuar a vida política e agravar irresponsavelmente a situação da economia, sabotando o país com suas pautas-bomba.
Nada conseguiram por duas singelas razões: Dilma é uma mulher honesta e o povo sabe que, mesmo com todos os problemas, a oposição foi incapaz de apresentar um projeto de país alternativo aos avanços dos governos Lula e Dilma.
Aos inconformados com as urnas restou o comparsa que eles plantaram na presidência da Câmara – como se sabe, o PSDB, o DEM e o PPS votaram em Eduardo Cunha contra o candidato do PT, Arlindo Chinaglia. Dono de “capivara” policial mais extensa que a biografia, Cunha disparou a arma colocada em suas mãos por Hélio Bicudo.
O triste de tudo isso é saber que o ódio de Bicudo ao PT não vem de divergências políticas e ideológicas, mas por ter-lhe escapado das mãos uma sinecura – ou, como ele declarou aos jornais, “um alto cargo, provavelmente fora do país”.
Dilma não será processada por ter roubado, desviado, mentido, acobertado ou ameaçado. Será processada porque tomou decisões para manter em dia pagamentos de compromissos sociais, como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida.
O TCU viu crimes nessas decisões, embora não os visse em atos semelhantes de outros governos. Mas é o relator das contas do governo, o ministro Augusto Nardes, e não Dilma, que é investigado na Operação Zelotes, junto com o sobrinho. E é o presidente do TCU, Aroldo Cedraz, e não Dilma, que é citado na Lava-Jato, junto com o filho. Todos suspeitos de tráfico de influência. Provoca náusea, mas não surpreende.
Claras las cosas, oscuro el chocolate”, dizem os portenhos. Agora a linha divisória está clara. Vamos ver quem está do lado da lei, do Estado democrático de Direito, da democracia e do respeito ao voto do povo.
E veremos quem se alia ao oportunismo, ao gangsterismo, ao vale-tudo pelo poder. Não tenho dúvidas: a presidente Dilma sairá maior dessa guerra, mais uma entre tantas que enfrentou, sem jamais ter se ajoelhado diante de seus algozes.

Ocupações nas escolas: Quando o povo é cão de guarda da opressão

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Deve ser um tanto quanto desesperador para alguém que acredita no discurso que é só obedecer às regras e às autoridades para a vida dar certo ver a insatisfação e a mobilização obterem resultados. Afinal de contas, essa pessoa fez sempre tudo o que lhe mandaram fazer: não reclamar, não atrapalhar, não questionar leis, regras e tradições, não sair da linha. E a vida não melhorou, pelo contrário.
Daí aparece uma molecada maluca que resolve dizer “não” para o que foi decidido em nome deles – fechamento de escolas e realocação forçada de alunos – e ocupam unidades de ensino e fecham vias públicas até o governo estadual resolver voltar atrás. Chantagem da grossa, dizem uns. Democracia, retruca a História.
A quantidade de comentários, textos e opiniões que ouvi nas últimas semanas girando em torno da máxima “quem eles pensam que são?” poderia completar um livro. Talvez do tamanho da bíblia.
E por falar nas sagradas palavras do cristianismo, houve até respeitável instituição que parafraseou Êxodo 20:12, praticamente usando um “honra teu pai e tua mãe” para pedir que os alunos abandonassem aquela esbórnia e que os pais tomassem as rédeas da situação. Se Deus existir, deve ter passado vergonha alheia com essa.
Esse pessoal representa o melhor da filosofia “para o buraco, eu não vou sozinho”, muito conhecida desde que o primeiro hominídeo andou de pé e um outro, com inveja da conquista do esforço do primeiro, lhe deu uma bordoada para que voltasse a andar de quatro.
O “quem esses moleques pensam que são?” possui variações como “se tive de trabalhar desde cedo e, hoje, sou uma pessoa com bom caráter, também acho que criança deveria trabalhar para não cair na vagabundagem”. Ou “trabalhei a vida inteira e nunca tive uma casa própria; agora, vem um bando de desocupados e invade um terreno para chamar de seu? A polícia tem de descer o cacete nesse povo para aprender que patrimônio só surge do suor e do trabalho”.
Nem as pessoas que usam crianças para ganhar dinheiro ou os donos de terrenos improdutivos seriam tão virulentos assim. Nada como uma sociedade doutrinada para servir de cão de guarda.
Mas estamos entre amigos aqui, então posso ir direto ao significado dessas frases: “Se fui covarde e não tive coragem de lutar pelo que acredito ser uma vida digna, permanecendo na ignorância – que é um lugar quentinho – e preferindo ruminar silenciosamente entre os dentes a minha infelicidade, quero que o mundo faça o mesmo”.
Resgato o que já havia dito aqui antes. Quem pensa assim não entende, nem desenhando, que educação, moradia, alimentação, saúde são direitos fundamentais. Ou seja, você tem direito a eles simplesmente por comungar da mesma dignidade garantida ao nascimento a raça humana. E brada: “E esses vagabundos pagam os impostos para poder ter direitos fundamentais?”
Esses mesmos repetem bobagens como “a pessoa é pobre porque não estudou ou trabalhou”. Pois acham que basta trabalhar e estudar para ter uma boa vida e que um emprego decente e uma educação de qualidade é alcançável a todos e todas desde o berço. Acham que todas as leis foram criadas para garantir Justiça e que só temos um problema de aplicação. Não se perguntam quem fez as leis, o porquê de terem sido feitas ou questiona quem as aplica.
Quando vejo milhares de jovens ocuparem uma escola pelo direito de estudar, eles estão cumprindo o que se espera de um cidadão. Por isso, é difícil concordar com quem pediu para que a polícia fizesse o que fosse preciso para acabar com essa loucura, fazendo o papel de soldado não-remunerado de gestores públicos.
“Por que se acham melhores do que eu que não faço baderna e cumpro tudo o que me dizem para fazer?” Não é uma questão de melhor ou pior. E sim de aceitar bovinamente um destino em uma sociedade que, apenas teoricamente, não é de castas. Ou lutar para sair dessa condição.
Valores passados cuidadosamente e ao longo do tempo vão colando em nossos ossos e nos transformando em guerreiros da causa alheia. Não ganhamos nada com isso, pelo contrário, perdemos, porque aprendemos a lutar contra a nossa própria dignidade ao comprar o discurso empacotado de grupos no poder.
A polícia, que desceu o cacete de forma criminosa nos estudantes em São Paulo, não é a única responsável por manter a ordem do povo. O povo, devidamente treinado por instituições como escolas, igrejas, trabalho, governos e a própria mídia, garante seu próprio controle e o monitoramento no dia a dia. Quem sai da linha do que é visto como o padrão e o normal, leva na cabeça. Quem resolve se insurgir contra injustiças e foge do comportamento aceitável vira um pária. Sem essa vigilância invisível feita pelos próprios controlados, é impossível grupos se manterem no poder (em âmbito federal ou estadual) por tanto tempo e de forma aparentemente pacífica.
Adoraria discordar de Oscar Wilde, como podem imaginar. Mas, nesse caso, uma citação dele que gosto de repetir por aqui cai como uma luva: “Há três tipos de déspotas. Aquele que tiraniza o corpo, aquele que tiraniza a alma e o que tiraniza, ao mesmo tempo, o corpo e a alma. O primeiro é chamado de príncipe, o segundo de papa e o terceiro de povo”.
De verdade, não sei de quem tenho mais medo. Da polícia ou desse povo. Porque sabemos o que a polícia faz. Mas não imaginamos até onde esse povo pode ir.

Michel Temer terá de decidir como pretende entrar para a história


Por um desses caprichos do destino, na sessão em que Eduardo Cunha acatou um dos pedidos de impeachment de Dilma, houve o episódio que desequilibrou o jogo em favor da presidente: o destravamento da pauta fiscal.
O maior fator estimulador do impeachment era o travamento da economia, a sensação alimentada por seus defensores de que nada seria pior do que a continuidade do governo Dilma. Para tanto, contribuiu em muito a irresponsabilidade institucional da oposição e da mídia, fazendo o jogo do quanto pior, melhor.
O destravamento da pauta mudou o jogo. Mostrou que o governo conseguiu sensibilizar o bom senso dos parlamentares e reduzir o espaço dos incendiários. Pode começar a governar. O que poderia levar a um novo travamento seria justamente a tese do impeachment.
Ou seja, a perspectiva de caos saiu do colo de Dilma para o colo dos impichadores. Quem se oferece para recolher a bomba e pagar a conta?
É aí que entra o fator Michel Temer.
O papel de TemerTemer não é um jovem irresponsável. Tem idade, senioridade, envergadura intelectual para disputar um lugar na história. É isso que o move, não a ambição de uma carreira política inviável pela própria idade.
Mesmo tendo papel relevante na Constituição de 1988, sua carreira política não foi marcante. Pelo contrário, enquanto secretário de governo em São Paulo e deputado, pavimentou-a com o pragmatismo comum ao meio. Como vice-presidente, pouco lhe foi dado fazer.
Nesses momentos de neblina e cerração, cresce a relevância das figuras referenciais. Temer pretende ser uma delas, aglutinando a nação em torno dele. Seu sonho seria uma nação unida a favor do impeachment recorrendo a ele. Com sua senioridade, pairando acima das paixões, ele receberia o fardo do poder, destravaria a economia, montaria uma nova frente hegemônica e em 2018 entregaria a Presidência de um país pacificado ao novo eleito. E correria para o abraço da história.
Lamento informar o douto constitucionalista, mas a cena acima é inviável por vários motivos.
Com o destravamento da pauta fiscal, o jogo inverteu: a aposta na ingovernabilidade pulou para as mãos dos defensores do impeachment. A alternativa agora é entre três anos de um governo medíocre, ou um salto no escuro, com todos os componentes de uma radicalização política.
Em vários setores da opinião pública já se firmou a convicção de que o impeachment é golpe. As manifestações dos últimos dias, da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), sindicatos, movimentos sociais e juristas da turma de Temer mostram que haverá reação pesada se o impeachment se firmar.
Haja Força NacionalAlém disso, o projeto econômico brandido pela frente de apoio a Temer prevê o desmonte da rede social criada pela Constituição que Temer ajudou a construir.
Haja Força Nacional e polícias militares para conterem a reação geral. A piora na economia se dará em um quadro de profunda conturbação social.
Temer terá estrutura emocional para atropelar sua biografia e tornar-se um Arthur Bernardes do século 21, com três anos de estado de sítio e sem a legitimidade do voto popular, ainda que da República Velha? Será alvo de ódio de metade do país, sem se tornar ídolo da outra. Os primeiros tiros contra ele, disparados por Ciro Gomes, são um pequeno ensaio do que o espera se prosseguir avalizando o golpismo.
Não apenas isso.
A frente que pretende sustentar Temer é formada por dois partidos – PMDB e PSDB – divididos em várias ilhas de poder, sem um comando unificado e com uma enorme quantidade de candidatos a fichas sujas.
Na fase mais crítica da sua impopularidade, Dilma tem a blindagem de uma vida pessoal impoluta. Temer terá a seu lado Paulinho da Força, Aécio Neves, os despojos de Eduardo Cunha e os fantasmas da Lava-Jato.
Se prosperar a tese do impeachment, o que se terá serão três anos de estado de sítio virtual, seguido da eleição de um anti-Temer.

Geraldo Alckmin: Um Datafolha que veio a calhar

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O Datafolha de sexta-feira, dia 4/12, veio a calhar. Não adiantava a pressão das ruas para que Alckmin percebesse que seu projeto de reorganização das escolas estaduais, além de controverso, não levou em conta um detalhe fundamental: o diálogo com a sociedade. Parece que teve que vir um alerta de alguém do campo conservador, no caso a referida empresa, para que o governador mudasse de estratégia e recuasse, ainda que taticamente, como acaba de fazer.
Como diz o velho ditado, de tanto uso o cachimbo entorta a boca. Os tucanos governam SP desde 1994. Ou, se quisermos recuar no tempo, desde 1982, quando ainda militavam no PMDB e chegaram ao Palácio dos Bandeirantes com Franco Montoro.
Nesses anos todos quase sempre tiveram maioria no Legislativo, aprovaram os projetos que quiseram e não tiveram o dissabor de lidar com CPIs incômodas. Foram pouco questionados pelo Judiciário e pela imprensa, com quem mantiveram ótimas relações nesse tempo todo. Nadaram de braçada em eleições recentes, onde passaram com tranquilidade pelos adversários, seja no 1º ou no 2º turnos.
Mas o que os tucanos parecem não ter entendido, e isso não é uma exclusividade deles, pois é visível em políticos de vários outros partidos, é que o Brasil está passando por uma sucessão geracional tremenda. Sim, é verdade que estamos nos tornando um país com maior expectativa de vida e que a cada década o número de idosos cresce na nossa sociedade.
Mas também é verdade que a garotada que está chegando agora na vida pública é bastante diferente daquela que lutou pela Anistia no fim dos anos 1970, pelas Diretas Já nos anos 1980, pelo impeachment de Collor no início dos anos 1990 ou que ajudou a levar Lula ao poder no início dos anos 2000.
Claro que não dá para generalizar o que seja a “juventude brasileira”. Nos protestos anti-Dilma se viu muita gente jovem empunhando bandeiras bastante conservadoras. Mas há uma parcela da garotada na qual vale prestar mais atenção. É gente que começa a ler o mundo e o espaço público de um jeito menos esquemático que as gerações anteriores, que não se pauta pelo ódio, que desconfia da imprensa e também dos partidos políticos tradicionais. É gente acostumada à horizontalidade dos grupos de discussão das redes sociais e que estranha a verticalidade bruta e tecnocrática do poder estatal.
É uma garotada, e isso é inédito, que tem acesso a uma gama muito maior de informações que seus pais e avós. E que por isso tem legitimidade dentro de casa para opinar sobre assuntos cuja decisão antes era restrita aos adultos. Uma geração, portanto, que clama por diálogo, respeito e democracia dentro de casa, no âmbito privado, e que obviamente vai demandar por tudo isso e muito mais na esfera pública.
Claro que as ocupações têm como motivo primeiro e fundamental o projeto de reorganização promovido pela Secretaria de Educação. Mas a questão de fundo, e isso será mortal para qualquer político ou gestor público que não entendê-la ou desprezá-la daqui pra frente é a demanda por diálogo.
Vivemos a democracia há 30 anos, e a essa altura do campeonato não dá mais para um gestor público achar que pode montar ou desmontar uma política pública a quatro paredes, isolado em seu gabinete, sem conversar com as ruas.
Por isso esse Datafolha foi fundamental para Alckmin: a continuar a repressão em cima de crianças e adolescentes que querem uma escola pública de qualidade e que querem sobretudo diálogo, Alckmin corre o risco de ver sua popularidade derreter, como derreteu a de seu colega de PSDB, Beto Richa. O governador do Paraná é hoje um político extremamente desgastado após ter mandado sua polícia baixar o pau em professores e demais servidores públicos.
Se não abrisse diálogo e continuasse com a mesma estratégia, Alckmin correria o risco de ver suas pretensões políticas virarem pó e ele passar para a História no mesmo patamar de popularidade que outros governadores paulistas, como Paulo Maluf, Orestes Quércia e Luís Antônio Fleury Filho. A sociedade brasileira está mudando. Até São Paulo, por muita gente tido como a fortaleza conservadora deste país, está. Como diria a velha canção de Elis, não adianta amar o passado. O novo sempre vem.

“Podemos tirar, se achar melhor”: Folha some com vídeo de ocupações após visita de Alckmin

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Funcionários do jornal confirmaram à Fórum que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) visitou a redação na terça-feira, dia 2/12, acompanhado da assessora de imprensa do governo e, poucas horas depois, uma reportagem em vídeo sobre ocupações de estudantes contra a “reorganização escolar” foi tirada do ar.
O jornal Folha de S.Paulo, que até semana passada chamava de “reorganização escolar” o fechamento de mais de 90 escolas imposto pelo governo do estado de São Paulo, adotou, agora, uma nomenclatura ainda mais sutil: “reforma de ciclos”. A adoção de um termo ou de outro, no entanto, passa longe de uma decisão que aparenta ser, senão uma blindagem, pelo menos uma flexibilidade em mudar seu direcionamento editorial de acordo com a ocasião.
Poucas horas depois de uma visita do governador Geraldo Alckmin (PSDB) à redação do jornal, um vídeo sobre o dia a dia de algumas ocupações de estudantes que são contra a proposta do governo foi retirado do ar.
De acordo com o próprio Painel do jornal, Alckmin foi recebido, na terça-feira, dia 2/12, em um almoço na empresa da família Frias. Ele estava acompanhado de Marcio Aith, subsecretário de comunicação do governo, e Isabel Salgueiro, assessora de imprensa. A presença de um subsecretário de comunicação e de uma assessora de imprensa sugere que o assunto do encontro foi a imagem do governo no veículo, já que, em menos de duas horas depois da visita de Alckmin, o vídeo publicado sobre os estudantes na manhã do mesmo dia, que mostrava as péssimas condições das escolas estaduais e o cotidiano das ocupações, já não estava mais disponível.
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Reprodução: Coluna Painel do jornal Folha de S.Paulo.
A informação de que, de fato, houve a visita e de que o vídeo foi retirado do ar pouco depois foi confirmada à Fórum por funcionários do jornal, que preferiram não se identificar.
Internautas, no entanto, conseguiram salvar a reportagem antes que ela fosse excluída do site (clique aqui).
Procurada pela Fórum, a Folha de S.Paulo ainda não se manifestou sobre o ocorrido.