sábado, 5 de março de 2016

A micropolítica da Agricultura Urbana e as grandes transformações coletivas

Vivemos uma era de transformação, onde podemos encontrar ações e visões completamente opostas em espaços comuns: competição e cooperação, criação de hortas comunitárias e demandas por mais concreto na cidade, meditações coletivas e aumento do consumo de antidepressivos, explosão da culinária natural e dos fast foods. Nosso velho sistema econômico está na UTI e levou junto com ele os recursos naturais de nosso planeta Terra. Mas, afinal, quais são as resistências para transformar os nossos modos de vida que não deram certo?

É interessante observar que as dinâmicas da micropolítica têm muito a nos dizer sobre as lógicas dos níveis meso e macro do nosso sistema econômico, político e social. Um exemplo são os conflitos que ocorreram no espaço É Hora da Horta, no bairro da Casa Verde (zona norte), na cidade de São Paulo – espaço de trabalho com o cultivo de alimentos orgânicos em um terreno da Eletropaulo desde agosto de 2014.

A horta é cuidada diariamente por três agricultores e há mais de 50 espécies comestíveis, entre frutas, legumes, verduras, ervas medicinais e Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Além do cuidado com o cultivo de alimentos, há uma fiscalização constante para que não haja água parada com o objetivo de evitar a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, do zika e da chikungunya.

Frequentada por pessoas do bairro e de outras regiões de São Paulo, há sete casas ao redor da horta e as atividades de agricultura passaram a incomodar alguns vizinhos. No final do ano passado, alguns deles fizeram uma denúncia contra a horta alegando que há falta de limpeza e risco de proliferação do mosquito transmissor da dengue. A Subprefeitura da Casa Verde, por sua vez, traduziu essa denúncia em uma multa de R$ 15 mil e enviou um fiscal no local pedindo para que uma das agricultoras retirasse todas as PANC.

Tendo em vista o ocorrido, nos perguntamos: quais são os sentidos envolvidos na ideia de falta de limpeza e risco de contaminação de dengue para os vizinhos e para os fiscais e técnicos da subprefeitura? Espinafre silvestre, ora pro nobis, beldroega, batata doce, trapoeraba, rúcula silvestre, feijão orelha de frade, vinagreira, amaranthus, bertalha, salsinha silvestre. Todas essas espécies são plantas alimentícias que se desenvolvem espontaneamente e se estabelecem no imaginário de algumas pessoas como ideias relacionadas à sujeira e doença.

Curiosamente, o próprio município assegura (e deveria promover) a Agricultura Urbana e Periurbana Agroecológica, conforme estabelecido na Lei no 13.727/04, regulamentada por meio do Decreto 51.801/10. Com base nessas regulamentações é papel da prefeitura promover o cultivo da diversidade das espécies, considerando que os fundamentos das práticas agrícolas de base ecológica são, entre outras, a agrobiodiversidade.

Depois do ocorrido, ao acionar a Coordenadoria de Segurança Alimentar e Nutricional do município, a coordenação do programa entrou em contato com a subprefeitura para esclarecer que não havia irregularidade nas atividades da horta. Ainda assim, esse fato demonstra que há despreparo para lidar com o Programa de Agricultura Urbana e Periurbana (PROAURP) no nível local.

O que há de errado nisso?

Por que chegamos ao ponto de plantas alimentícias serem consideradas perigosas e daninhas? Qual seria o sentido envolvido entre os vizinhos que se satisfazem em fazer denúncias e buscar culpados? E fiscais do poder público que se sentem úteis em prescrever multas e punir cidadãos? Por que não conseguimos sedimentar transformações no nosso sistema político, social e econômico?

A rápida e excessiva urbanização pela qual passamos no Brasil, especialmente em São Paulo, nos fez desaprender sobre os ciclos da natureza e nos colocou em uma situação de estranhamento a ela, como se não fizéssemos mais parte de um sistema integrado. Passamos a ter certa aversão do contato direto com a terra e considerar este envolvimento sinônimo de sujeira e promotor de possíveis doenças. Além de ser uma visão equivocada, este comportamento pode impossibilitar o tratamento dos problemas urbanos com iniciativas mais criativas e menos dependentes de produtos industriais que comprometem em larga escala não só o meio ambiente, mas a saúde humana.

O desafio de controlar o mosquito Aedes aegypti está diretamente associado à nossa péssima relação com as águas urbanas. O aterramento de rios e córregos da cidade de São Paulo transformou-se em dutos subterrâneos coletores e transportadores de esgoto. Além da falta de saneamento básico, que tornou os principais rios metropolitanos absurdamente poluídos e contaminados – hoje, o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí são rios “mortos” na cidade de São Paulo. Essas são as causas reais da insalubridade do meio urbano e da propagação de doenças em escala tão alarmante.

Há um distanciamento e rechaço das pessoas em relação à natureza e esse posicionamento é refletido e reforçado pelas ações públicas.

Sucessivas gestões governamentais de diversos níveis federativos continuam sendo permissivas para a não preservação de áreas verdes e de mananciais, como é o caso da liberação de construção no Parque dos Búfalos, localizado em área particular. Nesse caso, tanto o governo federal, quanto o estadual e o municipal flexibilizam essas construções através de ações conjuntas.

A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), órgão estadual, concede licenciamento para construção nessa área de preservação e o município de São Paulo segue mantendo a lógica de leis antigas sob nova roupagem, restringindo construção em áreas de preservação apenas para propriedades públicas e não para propriedades particulares.

Assim, embora a atitude dos vizinhos denunciarem uma horta alegando que o plantio de alimentos significa falta de limpeza não pareça ter alguma relação com a diminuição dos espaços verdes da nossa cidade, há uma forte relação entre as mesmas. É o distanciamento cada vez maior das pessoas e da natureza que gera doença, depressão, falta de sentido na vida, competição e consumo como fuga de um grande vazio. O vazio do distanciamento da essência de cada um de nós que está assassinando os recursos naturais do nosso planeta.

Nesse contexto, as hortas comunitárias se apresentam como solução a nível micro para despertarem a consciência ambiental e resgatarem o contato das pessoas com a natureza, que pode ter efeitos progressivos. As hortas urbanas não apenas nos indicam outro caminho para melhor gerir e cuidar das nossas cidades de maneira mais participativa, democrática e ambientalmente sustentável, como nos ensinam a controlar doenças na vida cotidiana.


O cultivo consciente de PANC (verdadeiros “matos de comer”) e o manejo responsável da água, que vêm sendo realizado nas hortas comunitárias de São Paulo, são exemplos desta ampliação de consciência cidadã. Por meio de uma nova forma de se relacionar com as pessoas e com a natureza, podemos transformar nossos hábitos, nossas cidades e nosso planeta.

Lei Para Todos? E os sonegadores do escândalo HSBC?

João Santana foi preso por causa de uma conta no exterior. Mas e os 8,7 mil brasileiros citados na lista do suiçalão, por que nem estão sendo investigados?



Desdobramento da Lava Jato, a Operação Acarajé varreu da pauta as suspeitas levantadas pela jornalista Miriam Dutra (confiram o editorial de Saul Leblon), relacionando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o Grupo Brasif. Tão ágil quanto a Justiça, o PIG mostrou serviço, incensando ao longo da semana a prisão de João Santana, marqueteiro das campanhas do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff.

Presos “preventivamente” desde a última terça-feira (23.02), Santana e sua mulher, Márcia Moura, respondem pela acusação de terem recebido US$ 7,5 milhões em contas no exterior, segundo os promotores, de forma ilegal. A questão da sonegação fiscal e evasão de divisas vieram à tona. Diante do furor da imprensa e da agilidade da Justiça, a questão se impõe:

Como andam as investigações sobre os 8,7 mil clientes brasileiros nomeados na lista do HSBC, no escândalo do Suiçalão? O que explica a cortina de silêncio, sete anos após o vazamento da lista por Hervé Falcini, sobre os sonegadores?

Considerado um dos maiores escândalos financeiros da atualidade, o Suiçalão se constituiu em grande esquema de evasão de divisas e lavagem de dinheiro do banco britânico. O requinte das operações incluía a criação de empresas offshore e de fundações para driblar o controle dos governos sobre movimentações financeiras ilegais.

O esquema veio à tona em 2009, quando Falciani, especialista em informática do HSBC, vazou para autoridades francesas uma lista com 130 mil clientes que mantinham contas secretas na sede suíça do HSBC. Entre elas, 8,7 mil contas secretas estavam em nome de brasileiros que movimentaram, em apenas dois anos (2006 e 2007), US$ 7 bilhões (R$ 20 bilhões).

Até agora, sete anos após o escândalo, só foram divulgados os nomes de sonegadores envolvidos na Operação Lava Jato, além de três magistrados do Tribunal de Justiça de São Paulo que negaram ter contas na Suíça. Como explica Luis Nassif, no site GGN, o ICIJ (Consórcio Internacional dos Jornalistas Investigativos) disponibilizou a lista para um grupo restrito de jornalistas. No Brasil, apenas Fernando Rodrigues (UOL) tem acesso aos dados.

Instalada em 2015, com pouca cobertura da mídia e apesar da resistência dos tucanos, como demonstrava reportagem da jornalista Najla Passos, aqui na Carta Maior, a CPI do HSBC quase foi encerrada por conta das dificuldades em se obter a documentação necessária para o andamento das investigações.

No começo do ano, a agência Senado informava que a Justiça francesa havia autorizado a liberação desses dados. Á época, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), afirmava ao Último Segundo (IG): “A CPI pode revelar o maior caso de evasão fiscal da história do país. Cabe a nós trazer isso à luz, esclarecer o conjunto, como se deu. A CPI só não avança agora se não quiser. É a chance de ressurreição da CPI”, disse.

A farra nos paraísos fiscais

Aos que ainda duvidam do tamanho da corrupção perpetrada pelas elites financeiras deste país, recomendamos a leitura do especial da Carta Maior, intitulado Paraísos Fiscais: a sonegação dos ricos é a maior corrupção global.

Publicado em fevereiro do ano passado, o especial traz dados que dimensionam o prejuízo: até 2010, apontava a The Price of Offshore Revisited, os brasileiros mais ricos mantinham cerca de US$ 520 bilhões em paraísos fiscais (leiam mais).

Em artigo, avaliando o rombo do Suiçalão aos cofres brasileiros, o cientista político Antônio Lassance destacava que os “barões ladrões brasileiros” estavam na “nona colocação” entre os que mais surrupiaram dinheiro, com a ajuda do HSBC suíco. “Daria para pagar um bom pedaço dos juros da dívida pública com o dinheiro dos ricos, ou melhor, o dinheiro dos pobres que os ricos preferem sonegar”, concluia.

Já o economista Ladislau Dowbor explicava, em Os descaminhos do dinheiro (07.11.2012), como o dinheiro proveniente da corrupção vem girando em torno dos “grandes beneficiários empresariais ou donos de fortunas pessoais”, das “instituições financeiras que fazem as transferências”, dos políticos “que criam o seu contexto institucional” e, também, do Judiciário, “que não é de maneira alguma estranho ao processo, por dar suporte legal, por conivência ou por omissão”.


Cortina de silêncio

O fato é que a mesma cortina de silêncio em torno do Suiçalão, vem blindando uma série de suspeitas envolvendo grãos tucanos no país. É patente a forma como esses escândalos surgem e desaparecem na mídia. Mais patente ainda a seletividade de setores do Judiciário na escolha de quem será investigado ou não.

Na última semana, em artigo publicado na Folha (FSP, 25.02.2016), o jornalista Jânio de Freitas manifestou indignação com a prisão, às pressas, de Santana e sua mulher. “A falta até de mínima sustentação das exposições de Sergio Moro, no próprio decreto de prisão de Santana e Mônica, como nas falas dos procuradores e policiais é nada menos do que escandalosa. Ou deveria sê-lo”, apontou.

E complementou: “o risco de fuga era zero, já estando ambos no exterior. Mas o problemático assunto das remessas e contas externas de Fernando Henrique foi sufocado com mais facilidade”.

A mesma cortina de silêncio foi cerrada em torno das denúncias de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras, no começo do ano. Em delação premiada à Lava-Jato, ele mencionava um suposto recebimento de propina pelo “Governo FHC” no valor de US$ 100 milhões, pela venda da empresa argentina Pérez Companc (OESP, 11.01.2016). FHC negou, a pauta sumiu do noticiário.

Na última semana, Luiz Nassif rememorou outros episódios ao questionar: “O MPF se tornou um partido político?”, citando casos em que o nome do senador Aécio Neves (PSDB) surgiu nas delações da Lava-Jato. O primeiro, quando o doleiro Alberto Yousseff detalhou as propinas de Furnas (Exame, 25.08.2015); o segundo, quando das menções de Aécio pelo diretor da UTC, Carlos Alexandre de Souza, o Ceará (OESP, 30.12.2015).

Nassif também recuperou o inquérito sobre lavagem de dinheiro em uma conta em Liechtenstein em nome de uma offshore com sede nas Bahamas (GGN, 02.01.2015). Os dois primeiros casos, aponta o jornalista, foram arquivados pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot. O último permanece na gaveta da Procuradoria Geral da República. Aécio também negou, a pauta sumiu do noticiário. 

Enquanto isso...

Vale destacar que, na última semana, a mesma Folha que deu espaço às denúncias de Mirian Dutra, incensou um verdadeiro carnaval em torno da prisão de Santana, com direito à destaque de falas raivosas de leitores, passando por uma quase colisão entre aeronaves, chegando até à uma reportagem muito instrutiva sobre a presença de acarajé no cardápio do governo. Um bombardeio de notícias para manter na pauta a prisão do marqueteiro.

Sobre as denúncias contra FHC? Uma notícia sobre o inquérito solicitado pelas bancadas do PT e do PC do B à PF para investigar as relações entre FHC e a Brasif. Aliás, a notícia foi divulgada no mesmo dia em que o PSDB solicitou ao TSE a incorporação do processo contra Santana àquele que investiga a reeleição da presidenta Dilma. As manobras da oposição no TSE são tema, inclusive, de extensa reportagem da Carta Capital à venda nas bancas.

Enquanto isso, na TV Folha, jornalistas avaliavam que o “impeachment” havia voltado à pauta. Aliás, ocalendário dos protestos vem sendo bem divulgado, agora, ancorado pelos índices da pesquisa Datafolha, divulgada no último sábado (27.02): “64% dos brasileiros reprovam o Governo Dilma”.

A pesquisa, é sempre bom lembrar, foi realizada entre os dias 24 e 25 da última semana, em pleno furor da imprensa com a prisão de Santana.

terça-feira, 1 de março de 2016

Em resposta a mais um ataque da Veja, Lula mira na Globo: “Não tenho casa em Paraty, nem uso empresa fantasma.”

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Lula e os irmãos Marinho: quem tem casa em Paraty? Quem tem imóvel registrado por empresa fantasma?
Na semana em que se revelou – com 25 anos de atraso – o escândalo envolvendo FHC, a ex-amante e a rede de proteção midiática que blindou o PSDB, as três revistas semanais de maior circulação no país ignoraram a denúncia contra o ex-presidente tucano.
Para a mídia velha, pouco importa que FHC tenha usado a Brasif (uma empresa que ganhou espaços dos aeroportos para operar free shops, durante o governo do PSDB) para mandar dinheiro à ex-amante – como revelou Mirian Dutra, uma ex-jornalista da Globo que foi amante de Fernando Henrique.
Pouco importa que a Brasif tenha doado recursos à campanha de FHC. Pouco importa que a Globo (também concessionária de serviço público) tenha participado da trama para esconder a jornalista na Europa – a fim de evitar o escândalo de um filho do presidente fora do casamento.
Nada disso virou capa das revistas. Era de se esperar.
O jornalismo brasileiro não se importa em saber: por que, afinal, a Brasif funciona no mesmo endereço, em Belo Horizonte, onde fica a sede da empresa em nome da qual está registrada a mansão construída pelos irmãos Marinho numa área de proteção ambiental em Paraty?
171: esse é o número do imóvel em BH que une a empresa (de fachada?) usada pela família Marinho e a Brasif (como você pode ler aqui).
Em vez de dedicar uma edição ao escândalo do tucanato, depois de 287 edições contra Lula, a revista da marginal nova capa com ataques ao petista.
O que fez Lula? Respondeu, com uma nota irônica, em que mostra disposição de travar uma luta frontal contra aqueles que pretendem destruí-lo.
Lula negou mais uma vez que seja o dono do sítio de Atibaia e do apartamento no Guarujá. E numa nota endereçada à TV Record (que solicitara explicações, diante do ataque de Veja), Lula reafirmou que “não é e nunca foi dono de imóveis em Guarujá, Atibaia, Paraty ou outros lugares aprazíveis. Nunca registrou propriedade pessoal em nome de empresas fantasmas ou em paraísos fiscais.”
O recado está dado. E certamente deve preocupar a família Marinho.
Lula segue em situação delicada, sob ataque cerrado. Mas a Globo e os Civita que se preparem para uma guerra total: se o petista se recuperar (o que não é impossível) e ganhar a Presidência em 2018, as relações com o cartel midiático que pensa mandar no Brasil jamais voltarão a ser amistosas.
A guerra está declarada.
Abaixo, a nota divulgada no sábado, dia 20/2, pelo Instituto Lula.
NOTA ENVIADA À REDE RECORD SOBRE A CAPA DA REVISTA VEJAO ex-presidente Lula já comprovou com documentos – inclusive sua declaração de Imposto de Renda – que jamais ocultou patrimônio.
Lula não é e nunca foi dono de imóveis em Guarujá, Atibaia, Paraty ou outros lugares aprazíveis. Nunca registrou propriedade pessoal em nome de empresas fantasmas ou em paraísos fiscais.
A repetição de teses caluniosas sobre Guarujá e Atibaia tem o objetivo de ligar o ex-presidente a processos em que ele não é investigado e sequer citado. Lula reside em São Bernardo, no mesmo apartamento em que morava antes de ser presidente da República. Nunca desrespeitou a lei, antes, durante ou depois de governar o pais.
É ilegal e vergonhosa a invasão de privacidade a que Lula e sua família vêm sendo submetidos por determinados agentes do estado e veículos da imprensa.

O que deu errado no crime quase perfeito da dupla FHC e Globo

FHC e a Globo cometeram um crime quase perfeito. Tiraram Mirian Dutra de cena numa operação ganha-ganha. FHC ganhou a Presidência. A Globo ganhou o controle sobre um presidente que reinou oito anos.
Alguém pode imaginar o que significa esse controle? Num país cujas verbas publicitárias federais são brutalmente altas, é a garantia de dinheiro fácil e farto para uma emissora.
E o acesso ao dinheiro do BNDES? Um presidente nas mãos da Globo abriria os cofres do BNDES. Mirian tocou nisso em sua entrevista ao DCM. É repulsiva a foto na qual FHC e Roberto Marinho estão abraçados na inauguração de uma supergráfica do Globo financiada pelo BNDES, no final dos anos 90.
A descarada confraternização mostrava que as duas partes estavam certas de que o crime era perfeito.
E foi – até aparecer uma coisa chamada internet.
A internet rompeu o monopólio da mídia nas informações que chegam aos brasileiros.
Não fosse isso, Mirian não teria como publicar sua história. Bater na Folha? Esqueça. NaVeja? Conte outra piada. No Estadão? Hahaha.
Mas a barreira do silêncio não vigora na internet. E uma modesta revista digital, aBrazilcomZ, se incumbiu de dar voz a Mirian.
Era tão forte o que ela tinha a dizer que a mídia foi obrigada a correr atrás – com vergonhoso atraso.
O pretexto usado por mais de vinte anos para não tocar no assunto era o triunfo da hipocrisia: era uma “questão privada”.
Ora, era privada apenas porque ninguém investigou o assunto.
Quem acredita que um pacto entre um presidente e a Globo é questão privada acredita em tudo, para usar a celebrada frase de Wellington.
A Globo protegeria FHC por simpatia e amizade?
Ora, ora, ora.
A Globo vendeu caro seu apoio aos militares em plena ditadura. Num livro com os documentos de Geisel, Roberto Marinho surge a certa altura cobrando novas concessões da ditadura com o argumento de que era seu “melhor amigo” na imprensa.
No livro o que se vê é um Roberto Marinho paranoico, para o qual uma empresa que não cresce logo declina.
Se com os generais foi assim, como terá sido com um presidente fraco?
FHC viveu o bastante – 83 anos agora – para ver a lama enfim emergir e lhe roubar a possibilidade de continuar a posar como um moralista perante brasileiros ingênuos e desinformados.
Quanto à Globo, o caso mostra quanto é ruim para uma empresa ser mimada com privilégios e vantagens infames.
A Globo jamais teve que ser competente. Caiu tudo para ela no colo.
Fosse competente, continuaria a pagar o mensalão de Mirian Dutra até o final de sua vida.
É monstruoso o preço da economia de custo que algum burocrata da Globo vislumbrou com a supressão do salário de Mirian.
A Globo é uma história de muita esperteza e pouca inteligência.
Mas, como diz o provérbio, a esperteza quando é demais come o dono.
Neste caso, comeu não só a Globo como FHC.

A direita terá o poder sem controlar a informação?

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A direita brasileira, capitaneada pelo PSDB, tem um problema a superar até 2018, caso queira, de fato, retomar as rédeas do poder federal. Trata-se não apenas de superar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, caso ele seja confirmado o candidato do PT, mas, sobretudo, de aprender a lidar com um universo de comunicação muito mais democrático do que quando ela reinou soberana.
Na primeira eleição presidencial após a redemocratização, em 1989, a direita, associada aos principais grupos de comunicação do País daquela época, conseguiu emplacar a vitória de seu candidato: o caçador de marajás, Fernando Collor. Na trama, tiveram papel decisivo tanto a revista Veja como a Globo, por meio do então diretor Alberico Souza Cruz.
Agora, com a revelação do escândalo FHC-Mirian Dutra, sabe-se que as duas eleições seguintes, de 1994 e 1998, também foram, de certa forma, vencidas pela mídia. Abril e Globo foram decisivas na montagem do projeto FHC, que envolveu o escamoteamento de sua relação extraconjugal com uma ex-jornalista global. A que preço? Não se sabe ainda.
Desde então, foram quatro derrotas consecutivas: duas para Lula, em 2002 e 2006, e duas para Dilma Rousseff, em 2010 e 2014. Em 2018, com o desgaste do PT e da imagem do ex-presidente Lula, a direita, aparentemente, está bem posicionada. Nas pesquisas mais recentes, o senador Aécio Neves (PSDB/MG) apareceu em primeiro lugar, mas o quadro poderá ser alterado, caso haja uma implosão do PSDB, com o surgimento de novas candidaturas, como do governador Geraldo Alckmin e do senador José Serra (PSDB/SP).
A grande dificuldade do PSDB, no entanto, será navegar num mundo não mais controlado por quatro ou cinco famílias oligárquicas, donas dos veículos tradicionais de comunicação, com quem os tucanos sempre tiveram mais facilidade para negociar do que seus adversários.
Hoje, na era da internet e das redes sociais, há muito mais vozes e acordos de cocheira nem sempre funcionam. Por mais que Veja e Época, neste fim de semana, tenham blindado FHC (leia aqui e aqui), com requentadas denúncias contra o ex-presidente Lula, o escândalo tucano se tornou o tema mais comentado da semana, graças à democratização da mídia produzida pela internet.
Perseguido pela imprensa tradicional, o ex-presidente Lula passou a dialogar, de forma mais constante e eficiente, com os meios digitais, do que seus adversários. Em 2018, com a tendência declinante da circulação e da influência dos meios tradicionais, será crucial navegar num mundo ainda mais polifônico e democrático.

A elite midiática e os 50 milhões de votos de Aécio Neves

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Aécio Neves teve 50 milhões de votos.
O PSDB não tem quadros além do senador mineiro; nem para se candidatar a prefeito de São Paulo com uma candidatura competitiva, capital do Estado que governam há mais de 25 anos.
A discussão que cabe sobre o Ministério Público Federal e o arquivamento das investigações de mais uma denúncia contra o senador Aécio Neves é a discussão de que Aécio Neves, jamais poderá ser descartado do grupo dos apoiadores da elite midiática, que hoje se arrola dona do Brasil, porque ele teve 50 milhões de votos nas eleições passadas.
O MPF, o Judiciário brasileiro como um todo, o grande empresariado nacional e patriota e a sociedade estão reféns da velha mídia capitaneada pela Rede Globo de Televisão.
Velha mídia tem Poder de decidir tantas coisas no Brasil, dentre elas o comportamento supostamente parcial do procurador-geral da República. Até a decisão de destruir o Brasil em prol dos interesses do mercado global e do Império do Norte, à qual a velha mídia está ligada e conta para dar-lhe a sobrevida financeira, que não é apenas garantida pelo oligopólio midiático.
Em vencendo o candidato da velha mídia se faz o dever de casa. Privatizamos tudo que resta, teremos aliança plena entre governo e interesses da Rede Globo, e as demais garras do PIG se refestelarão com as assinaturas de jornais e revistas agora em plano federal. E nesta barafunda toda, todos molham os bolsos de grana, muita grana saída da dilapidação do patrimônio público brasileiro, do surrupio de nossas riquezas naturais pelos gringos e do bolso do contribuinte via impostos.
Se esta elite midiática pensa em vencer em 2018 é com Aécio Neves. E o cálculo que faço que seja ele é pensado nos seus pares dentro do PSDB: o partido da velha mídia com votos e preposto dela no poder político.
Imaginemos Geraldo Alckmin em São Paulo e Beto Richa no Paraná que desastres suas administrações. Não estão com pinta de ter grandes possibilidades de galgar à Presidência do Brasil.
Nenhum governador, nenhum chefe do Executivo do PSDB está em condições de se candidatar em 2018, pela pouca representatividade de suas administrações, marcadas por estados em beira de falência. O administrador recente perde votos neste embate do governo/Estado pintado, diariamente, como ineficiente pela velha mídia e que pegou no seio da sociedade a alcunha: Estado ineficiente e corrupto.
O PSDB não tem quadros além do senador mineiro; nem para se candidatar a prefeito de São Paulo com uma candidatura competitiva, capital do Estado que governam há mais de 25 anos.
Só sobrou Aécio Neves à elite midiática pelo recall da eleição passada e seus 50 milhões de votos. O senador Aécio Neves, tem um diferencial hoje, ele não governa Estado nenhum, se me entendem, este é um fato positivo para ele. Não vai ser atacado por má-administração de seu estado natal e nem está na memória do eleitor paulista, maior eleitorado do país, e a falta d’água e a corrupção do trensalão, da merenda escolar, estas coisas; afora os embates com os estudantes secundaristas e a ideia de fechar escolas.
Ele é apenas um senador, e no embate, cada dia mais acirrado, entre o partido velha mídia e a blogosfera progressista, é preciso de um atual outsider com ficha limpa, mesmo que seja por vias tortas.
Somente se Aécio Neves fizer uma besteira do tamanho de um bonde ele não será o candidato da elite midiática em 2018.
José Serra não ganha nem para prefeito, é um antipático, e não sabe se conter. Foi bater de frente com o Carnaval de Rua e a Avenida Paulista fechada aos domingos. E os paulistanos curtiram estas duas ações da administração Haddad.
Alckmin perdeu a mão, se misturar com um “janotinha” e sem noção das opiniões que dá como é o João Dória Jr. é um erro político primário.
Num embate futuro, candidatura midiática e candidatura progressista, quanto menos estiver ligado aos governos estaduais, quanto mais estiver distante de cargos no Executivo melhor. Executivo, como disse, associado à incompetência e à corrupção, diariamente, nos noticiários da velha mídia. Se a economia piorar até 2018, como sonha a elite midiática, Aécio Neves surgirá com o discurso do “eu falei, eu avisei” e será o candidato Salvador da Pátria.
A velha mídia (elite midiática) está na campanha do anti faz tempo. Um sujeito neutro é tudo o que ela quer, pois, vai jogar todos os erros administrativos no adversário/ coligação (se o adversário não teve cargo no Executivo recentemente), assassinar a reputação do adversário de Aécio Neves e blindar o senador mineiro.
50 milhões de votos não é nada desprezível. Em uma Eleição plebiscitária e personalista, como sempre é, a velha mídia pode eleger Aécio Neves, conquistando mais 2% ou 3% do eleitorado, na base do anti tudo que está aí.
Uma última colocação.
O juiz Sérgio Moro não será candidato, porque daria muito na cara. Prende os adversários ou os tira da jogada e sai candidato? O povo desconfiaria na hora dos interesses nada republicanos da sua candidatura.

Samarco vai ter de explicar ao MPF propaganda estimada em R$3 milhões na Globo

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O Ministério Público Federal de Minas Gerais pediu à mineradora Samarco explicações sobre as propagandas veiculadas em horário nobre na tevê aberta.
De acordo com o G1, o MPF não entende como a empresa pode alegar dificuldade financeira e ter recursos para pagar uma campanha publicitária.
No mês passado, a Vale, uma das donas da Samarco junto com a BHP, alegou que a mineradora não tinha dinheiro para pagar a multa de R$2 bilhões.
De acordo com uma publicação que circula no Facebook, cada 30 segundos no intervalo do Fantástico custam mais de R$500 mil. Pelos cálculos da página, a mineradora pagou pelo menos R$3 milhões à Rede Globo.
Além dos procuradores, a campanha também causou estranheza a alguns telespectadores. Desconfiados das informações do comercial, mais de 50 pessoas fizeram queixas ao Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar).
As denúncias sobre a veracidade das informações contidas nos comerciais estão sendo investigadas. Caso o conteúdo das inserções sejam reprovados, elas terão que sair do ar.
Em nota ao HuffPost Brasil, a Samarco afirmou que “não recebeu qualquer ofício do Ministério Público Federal sobre esse assunto”. A mineradora, porém, não confirmou os valores gastos com a publicidade.
DesastreA barragem de Mariana rompeu no último dia 5 de novembro, gerando um tsunami de lama que destruiu o distrito, a fauna e a flora da região.
A tragédia causou pelo menos 19 mortos e mais de 600 desabrigados. O desastre deixou cidades sem água e, recentemente, a lama chegou ao litoral baiano, depois de passar pelo Espírito Santo.
***
A falsa percepção da sociedade brasileira de que a iniciativa privada é blindada contra erros e corrupção é um dos nossos maiores pecados. Mesmo depois do desastre em Mariana, parece que não aprendemos absolutamente nada com isso: preferimos bater panelas durante o discurso de Dilma sobre o zika, e ignoramos completamente o absurdo comercial da Samarco na tevê.
Em um país onde planos de saúde cobram valores absurdos, escolas e faculdades privadas preferem visar o lucro do que a qualidade de ensino e construtoras estão diretamente envolvidas em casos de corrupção, ainda me espanta a noção que parte da população tem de que “se privatizar, é melhor” – como se os empresários que financiam campanhas políticas e são a base da corrupção fossem mais dignos do que burocratas de estatais.
Pois bem. A Samarco, empresa privada e principal responsável pelo desastre ocorrido em Mariana no ano passado, lançou recentemente uma propaganda de cerca de um minuto para a televisão. Sua primeira exibição foi estratégica: justamente durante o comercial do programa Fantástico. Trata-se do programa com maior audiência no domingo, no canal de televisão mais popular do País. Provavelmente milhões de pessoas assistiram. Mas não se ouviu nenhum panelaço.
Sobre a peça de propaganda da Samarco, é importante destacar o que uma colega no Facebook havia dito: interessante o fato da empresa colocar seus funcionários, trabalhadores que não são responsáveis pelo desastre, como centro do comercial.
“Todo mundo vestiu a camisa e tá fazendo o possível para minimizar os danos que a gente causou”, diz a funcionária Luísa Nunes durante a propaganda. Não Luísa, não foram vocês que causaram o maior desastre ambiental das últimas décadas no Brasil, e sim os CEOs e chefões da Vale e da Samarco. Pra você ver: até quando algo é causado pela ganância e prepotência das grandes empresas privadas, quem paga o pato são os funcionários, que colocam sua cara a bater em rede nacional defendendo uma causa perdida.
“Mas as empresas privadas são mais transparentes e menos corruptas do que estatais, como a Petrobras”, diz o senso comum.
ErradoA corrupção no sistema político vigente tem como um dos seus fatores o financiamento privado de campanha, onde grandes empresas privadas fazem doações de valores exorbitantes para deputados, senadores, governadores e prefeitos. Tudo com o objetivo de manter acordos em benefício da própria empresa. Por exemplo, as mineradoras, principais responsáveis por crimes ambientais no Brasil, ocupam a 4º posição no ranking de setores que contribuíram para a eleição de deputados, perdendo apenas para alimentação, bancos e construção.
Somente a Vale, que tem participação na Samarco, doou cerca de R$22,6 milhões, segundo levantamento do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração. Posteriormente, talvez como “troca” pelo dinheiro dado na campanha, deputados que receberam doações da Vale-Samarco acabaram integrando a comissão na Assembleia Legislativa encarregada de fiscalizar a tragédia em Mariana. Os financiados pela Samarco no grupo de acompanhamento são: Guerino Zanon (PMDB), Luzia Toledo (PMDB), Janete de Sá (PMN), Bruno Lamas (PSB), José Carlos Nunes (PT), Gildevan Fernandes (PV) e Rodrigo Coelho (PT).
O que torna os nossos políticos reféns da corrupção como algo natural são os interesses privados. A própria operação Lava-Jato mostra como funciona: são construtoras privadas que, interessadas em monopolizar os negócios, fazem acordos “fora da lei” com políticos e funcionários de estatais. O resultado é o que vemos hoje todos os dias nos jornais.
Talvez a parte mais cômica e lamentável disso tudo seja a nossa oposição, encabeçada por tucanos e conservadores. Enquanto prometem combater a corrupção do governo petista, acabam mantendo a mesma política de financiamento de campanhas, com os mesmos aliados de multinacionais e corporações privadas. Enquanto isso, movimentos pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff preferem ignorar a participação de gigantes do setor privado em diversos casos de corrupção e desastres ambientais, colocando a iniciativa privada em um pedestal que se fosse por eles, seria inatingível, como propõe o próprio Movimento Brasil Livre, do nosso colega Kim Kataguiri.
Movimentos pelo impeachment que adoram organizar panelaços durante pronunciamento da presidenta ou propagandas do Partido dos Trabalhadores, mas ironicamente resolveram se calar diante do comercial da Samarco.
Me parece que os interesses pessoais e projetos políticos acabam se tornando mais importante do que a vida humana no Brasil.

Mirian Dutra, FHC e o DNA de uma farsa

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No burburinho da Assembleia Nacional Constituinte dois fatos chamavam a atenção: a proverbial resistência física do velho e inesquecível Ulysses Guimarães, que comandava sessões que varavam a madrugada sem perder o humor e sem sequer ir ao banheiro, e o tórrido romance vivido pelo senador tucano Fernando Henrique Cardoso e a jornalista Mirian Dutra, estrela dos noticiários da Rede Globo. Mirian, profissional dedicada e discreta, era uma mulher desimpedida. FHC, o “príncipe dos sociólogos”, ao contrário, era casado desde os anos 50 com a respeitada antropóloga Ruth Cardoso, com quem teve três filhos e um casamento que se julgava sólido até então.
Nos restaurantes e bares de Brasília um Fernando Henrique fora do eixo, com surpreendente comportamento juvenil, trocava olhares lânguidos, roçava pernas e pés, desfilava de mãos dadas e se afogava em beijos que faziam a alegria de quem presenciava o inusitado de uma paixão arrebatadora. Uma dupla quase sempre lhes fazia companhia, em situação semelhante: a linda deputada Rita Camata (PMDB/ES), casada, e o poderoso Alberico Souza Cruz, o diretor do telejornalismo global e chefe de Mirian.
O resultado desse amor que não podia ser assumido se materializou num teste de gravidez. Positivo. Tomas Schmidt Dutra estava a caminho. Seria registrado pela avó num cartório de Brasília, após seu nascimento, em 26 de setembro de 1991.
Mirian teve Tomas apoiada por amigos próximos. Não lhe faltou nada, exceto a presença do pai, que meses antes a expulsou aos gritos de seu gabinete no Senado ao ser comunicado da gravidez. O frio, sarcástico, irônico, cínico, racional FHC, descontrolou-se como nunca, indicando-lhe a porta de saída aos berros de “rameira”, chutando um circulador de ar da sala de espera, sendo contido por assessores, enquanto uma humilhada Mirian Dutra, chorando, era acolhida nos braços de um passante. Para desgraça do agressor, tratava-se de um dos jornalistas mais respeitados do país, Rubem Azevedo Lima, decano dos profissionais de imprensa no Congresso Nacional com passagens peloCorreio da Manhã, Folha de S.Paulo e Correio Braziliense, por exemplo.
Retirada do cenário do barraco, Mirian seria procurada por Sérgio Motta, sócio de FHC, e José Serra. A paz seria celebrada com promessas que lhe foram feitas e cumpridas. Imediatamente ela mudou de casa. Foi para um apartamento maior e melhor que o seu, na SQS 211, em Brasília. Sua mudança foi feita pela equipe que a acompanhava nas reportagens da Rede Globo: o motorista, o cinegrafista e o iluminador, o popular “pau de luz”, um tipo brincalhão que protagonizou um episódio que ficou célebre no diz-que-diz das noites do Piantella: ao desembarcar a cama de casal de um caminhão alugado para a mudança, bateu as mãos no colchão e sentenciou, solene: “Esse é o do senador!”.
Ao ir para Lisboa, numa tevê associada à Globo, a SIC, do ex-primeiro-ministro Pinto Balsemão, Mirian Dutra tornou-se a última exilada brasileira. E, também, a primeira beneficiária da maior bolsa família já paga com dinheiro público.
Logo após sua partida, o cunhado e lobista Fernando Lemos, casado com a ex-trotskista Margrit Schmidt Dutra (hoje uma militante furiosa da extrema-direita nas redes sociais), iniciou um curioso e repulsivo processo de efetuar gorda coleta da mesada para a cunhada e “o filho do presidente”. Agnelo Pacheco, o publicitário que abiscoitou a descomunal conta da Caixa Econômica Federal e trocou sua imagem corporativa numa ação milionária combinada com o embaixador Sérgio Amaral (negociata de milhões, centenas de milhões), puxou a fila dos mecenas. Wagner Canhedo, o dono da Vasp, marcou presença. A White Martins e o Banco Icatu, idem. Nunca uma pensão alimentícia movimentou tanto o filé do capitalismo tupiniquim. Era uma “bolsa pimpolho” operada por lobistas e megaempresários. Era um escândalo. Tomas e Mirian, certamente, ficaram com a menor fatia do botim.
Tratava-se de um mensalão doméstico, igual ao que a Construtora Mendes Júnior e Renan Calheiros teriam feito no caso de uma filha do senador alagoano com uma modelo – e hoje o caso está nas altas instâncias judiciais dando dor de cabeça intensa ao presidente do Senado. Mas, como sempre, FHC estava acima da lei.
De Lisboa a família sem pai se muda para Barcelona. Lá vamos encontrá-la num bairro elegante, em bom edifício, levando uma vida sem sobressaltos. Mirian estava fora do vídeo, mas ainda na folha de pagamentos da família Marinho. O padrinho de batismo de Tomas havia sido muito prestativo com o pai do menino e ajudou-a muito. Era o conhecido e poderoso diretor de jornalismo global Alberico Souza Cruz, o Alburrico.
Em fevereiro de 2000, na revista Caros Amigos, por uma decisão editorial tomada pelo Sérgio Souza, seu editor, se decide desvendar o mais bem guardado segredo da República: o porquê a grande imprensa esconde o filho de 8 anos de FHC com uma repórter da Rede Globo. Na verdade, era um segredo de polichinelo.
A preocupação jornalística veio casada com a salvaguarda ética: não publicar a foto do menino, oferecida por um colunista de Santa Catarina; não adentrar os limites da intimidade da família; ouvir e publicar tudo o que Mirian e FHC se dispusessem a dizer; procurar e ouvir os editores de todos os grandes veículos da mídia nacional.
Assim foi feito.
Em abril de 2000, com enorme repercussão, Caros Amigos lancetou o tumor. O então presidente da República foi procurado e não quis se pronunciar. Os editores dos principais jornais, revistas e telejornais deram suas versões, todas publicadas. Mário Sérgio Conti, chefão da Veja, atendeu meu telefonema com frieza que foi substituída por um ataque de ira e impropérios publicados na íntegra.
Mirian, procurada pelo repórter João Rocha, em Barcelona, foi cortês. Pelo telefone conversaram longamente. Mirian demonstrou querer falar, mas não falou. Já era uma mulher amargurada, quando disse uma frase reveladora ao ser perguntada pela paternidade de Tomas: “pergunte para a pessoa pública”. Estava indicada a paternidade de Tomas, é óbvio.
Na entrevista concedida por Mirian à revista digital BrazilcomZ, há algo que emerge com força e nos surpreende: ela lança dúvidas sobre o exame de DNA realizado por FHC. Acredita que houve fraude. Desmente que FHC tenha prestado assistência ao suposto filho, que o tenha visitado em Madri, que mantenha boas relações com Tomas. E traça um perfil humano devastador, nada a ver com aquele que a mídia tenta projetar. Mirian Dutra falou muito menos do que sabe.
Como velho repórter, noto uma situação interessante: Mirian esperou quase três décadas para fazer o que qualquer mulher faria. Mas o faz apenas agora, dias após FHC formalizar sua união com a bela e jovem Patrícia Kundrat, a quem presenteou com um imenso apartamento na Avenida Angélica, no aristocrático bairro de Higienópolis, a poucos metros de sua casa. Valor do mimo: R$1 milhão.
Tenho a absoluta convicção que Mirian, como mulher ofendida na sua dignidade e como mãe, no mínimo exigirá a realização transparente de um exame de DNA em três laboratórios, ao mesmo tempo. Todos eles sob a supervisão da Justiça, da Ordem dos Advogados do Brasil e dos advogados de ambas as partes.
Estão em jogo três coisas muito importantes. O futuro de Tomas, a vida de Mirian, e – não podemos ser hipócritas – a imensa e inexplicável fortuna de Fernando Henrique Cardoso.

Brasil passa outras nações e já é um dos 10 países mais importantes do FMI

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Discretamente, com exceção da blogosfera – o maior jornal econômico do país deu a notícia em uma página interna do terceiro caderno, com uma nota de canto de rodapé de uma coluna por menos de 8 centímetros de altura – o Brasil está aumentando suas quotas – logo, o seu poder – no Fundo Monetário Internacional, segundo informou, na semana passada, a instituição, que finalmente concluiu uma reforma destinada a dar a cada país uma posição um pouco mais congruente com o seu peso na economia mundial.
Para tristeza dos saudosistas do tempo em que as missões do FMI eram frequentes, seus técnicos mandavam e desmandavam no governo e eram recebidos aqui como vice-reis – devíamos no final do governo FHC US$40 bilhões ao Fundo – faremos parte, a partir deste ano, do clube que reúne as 10 maiores economias do Fundo Monetário Internacional.
Nós e a China, a Rússia e a Índia, nossos parceiros no Banco dos Brics, além dos EUA, da Alemanha, do Reino Unido, da França, da Itália e do Japão.
Enquanto isso, nunca é demais lembrar, apesar da conversa fiada no espaço de comentários da internet e na primeira página da maioria dos jornais e revistas, nosso país continua a ser, também, o terceiro maior credor individual externo dos EUA, com US$264 bilhões – mais de R$1 trilhão – emprestados ao Tio Sam, como se pode ver na última edição da página oficial do Tesouro dos Estados Unidos (clique aqui).