quarta-feira, 29 de julho de 2015

Dra. Delação partiu para Miami com marido condenado com pelo menos R$22,5 milhões

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O motivo dado pela advogada Beatriz Catta Preta ao juiz Sérgio Moro para deixar a defesa de três investigados na Lava-Jato esta semana – Júlio Camargo, Pedro Barusco e Augusto Ribeiro de Mendonça – foi sua mudança para Miami, nos Estados Unidos. É onde a criminalista, especialista em delação premiada, já está com o marido, condenado em 2003 por falsificação de dinheiro.
Carlos Eduardo Catta Preta foi flagrado e preso em 2001 em Alphaville, Grande São Paulo, com US$50 mil em notas falsas presas na cintura, segundo reportagem das jornalistas Mariana Barros e Laryssa Borges, de Veja. Agentes do Denarc – departamento de combate ao tráfico de drogas – encontraram em sua casa ainda US$350 mil falsos escondidos no banheiro.
O falsificador de dólares foi atrás de um advogado e, por indicação de um amigo, chegou ao escritório de Pedro Rotta, onde trabalhava Beatriz Lessa da Fonseca, então seu nome de solteira. Foi quando os dois se conheceram. Ela trabalhou em sua defesa e conseguiu que ele respondesse em liberdade. Carlos Eduardo foi condenado a três anos de prestação de serviços comunitários e começou a namorar Beatriz.
Os dois se casaram e tiveram dois filhos. Hoje, o marido é quem cuida das cobranças dos honorários dos clientes de Beatriz, chegando até a estabelecer os valores. A estratégia seria uma forma de evitar o desgaste da relação advogada-delator. Outra nota no site da revista, assinada por Ana Clara Costa, dá conta de que “doutor Carlos”, como é chamado, usa métodos indelicados para fazer as cobranças, mesmo de famílias fragilizadas por conta das prisões dos acusados.
De acordo com relatos, não é incomum presenciar socos na mesa, gritos e xingamentos por parte do marido de Beatriz, que é ex-policial, sem distinção entre clientes. A cobrança conta com a mesma rispidez no caso de casos grandes, que rende quantias vultosas para o escritório, a exemplo da Lava-Jato, ou de casos menores. Segundo amigos, ele exerce grande influência sobre a mulher.
Especula-se, no meio jurídico, que os honorários de Beatriz Catta Preta estejam entre R$2,5 milhões e R$5 milhões por causa. Tendo sido responsável por nove das 17 delações premiadas da Lava-Jato – entre elas a do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que revelou todo o esquema de corrupção – ela deve ter partido para Miami com no mínimo R$22,5 milhões e pode ter amealhado, em toda a investigação da estatal, até R$45 milhões.
Atacada por críticos da delação premiada, a advogada decidiu deixar a defesa de Júlio Camargo duas semanas depois de ele ter revelado o repasse de US$5 milhões em propina ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), que nunca havia sido citado por ele antes. Segundo o lobista, o motivo foi medo de perseguição por parte do deputado. Cunha usa o fato para se defender: considera “estranha” a nova informação no depoimento.
Desde então, Beatriz Catta Preta vem sendo questionada por parlamentares da CPI da Petrobras, na Câmara, sobre a origem de seus honorários. O deputado Celso Pansera (PMDB/RJ) apresentou um requerimento exigindo a convocação da criminalista para que explique se os pagamentos que recebe de seus clientes não são do esquema de corrupção e outro requerimento, para uma juíza do Paraná, solicitando a lista dos clientes da advogada.
A advogada Beatriz Catta Preta está de mudança para Miami, nos EUA, com pelo menos R$22,5 milhões no bolso. Com honorários entre R$2,5 milhões e R$5 milhões por causa, ela pode chegar a R$45 milhões na Lava-Jato, uma vez que fez 9 das 17 delações.
Ela comunicou ao juiz Sérgio Moro que largou as defesas do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco e do ex-executivo da Toyo Setal Augusto de Mendonça.
A magistrada deixou a operação após o lobista Julio Camargo mudar sua versão e dizer ter pago US$5 milhões em propina ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB/RJ).
Desde então, ela começou a ser questionada, em requerimento do integrante da CPI da Petrobras, o deputado Celso Pansera (PMDB/RJ), sobre a origem do dinheiro que recebeu como pagamento dos réus da Lava-Jato. Em outro pedido, dirigido a uma juíza do Paraná, exigiu a lista de todos os clientes de criminalista.
O dinheiro sinaliza que delatores não devolveram tudo que obtiveram no esquema.
Segundo o presidente da CPI, Hugo Motta, ela ainda será convocada para depor: “A renúncia mostra que a CPI da Petrobras não errou em fazer a convocação. Qual o motivo para ela deixar os clientes? Ela continua convocada”.
Leia aqui reportagem de Bela Megale e Graciliano Rocha sobre o assunto.
***
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O mistério da Rainha da Delação não será decifrado pela mídia tradicional. Isto é batata, como dizia Nelson Rodrigues.
Duas manifestações de dois jornalistas de visões diferentes ilustram bem o caso.
Primeiro, Xico Sá, ex-Folha, um livre pensador que é hoje um dos críticos mais lúcidos da miséria moral da imprensa brasileira. Se houvesse imprensa “independente” – a palavra mais correta, para mim, é decente – você veria grandes reportagens sobre esse extraordinário caso. Foi o que disse Xico.
Do outro lado, num comentário na CBN, Merval Pereira, símbolo da imprensa estabelecida, produziu uma sentença a seu modo também reveladora.
Merval disse que o caso é “muito” grave. Nos melhores manuais de estilo, recomenda-se evitar o adjetivo “muito” por ser desnecessário e feio.
Era uma coisa que eu sempre falava aos jovens jornalistas que se iniciavam nas redações sob meu comando. Mas em todo texto de Merval nada é “grave”, como se fosse pouco. Tudo é “muito grave”. Depois de definir daquela forma a súbita desistência da Rainha da Delação, Merval diz que é urgente investigar.
Mas.
Mas ele terceiriza a investigação. A imprensa não tem que apurar a história. É a Polícia Federal que tem.
Não discuto que a PF deve ir atrás do caso. Mas e a imprensa, deve ficar de bunda sentada à espera de que policiais vazem informações?
Quantos repórteres as Organizações Globo, já que falamos de Merval, não possuem? Que eles estão fazendo para trazer luz às sombras do episódio?
Nada.
É o que tem acontecido, na verdade.
A mídia, indolente, se contenta em pegar o telefone para tentar arrancar vazamentos – suspeitíssimos, aliás – da PF.
A falta de ação concreta é bisonhamente compensada por um estardalhaço ridículo.
No Twitter, o editor da Época, Diego Escosteguy, o Kim Karaguiri das redações, fica postando alucinadamente “bombas” que destruirão a República como a conhecemos.
É um comportamento semelhante ao de outro bombeiro serial, Cláudio Tognolli, ghost writer de Lobão. Ele já anunciou uma centena de bombas, ou mais, e nenhuma delas teve o menor efeito.
Mas isso não o impede de continuar a anunciar bombas.
Diego Kataguiri faz o mesmo, como tantos outros jornalistas da mídia em extinção.
Se parte da energia despendida na pirotecnia verbal fosse gasta em investigação real, teríamos uma imprensa bem melhor.
O caso de Beatriz Catta Preta – e o fascínio da história já começa no sobrenome invulgar – é “muito grave”, para emprestar o clichê de Merval.
O que leva uma especialista em delações do calibre dela a abandonar seus clientes, a esta altura, e se bandear para Miami?
Pressões? Que pressões? De quem?
Não há nada, aí, que repórteres competentes não pudessem investigar.
Mas não. As redações estão viciadas em pegar vazamentos selecionados e transmiti-los, bovinamente, para seus leitores.
Quem não se lembra do “eles sabiam” com que a Veja tentou manipular as eleições às vésperas do segundo turno?
Passados seis meses, o que a revista avançou, de fato, sobre aquela declaração bombástica?
Yousseff, o alegado autor da declaração, já apareceu em depoimentos falando muita coisa – mas nada daquilo que a Veja disse que ele disse.
Definitivamente, o mistério de Beatriz Catta Preta não será decifrado pela mídia.

Novo premiê sueco: “Lula é, sem dúvida, uma de minhas maiores inspirações.”

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O funcionário de uma metalúrgica que se torna sindicalista, vira líder de uma das principais centrais trabalhistas, ingressa na política e chega ao poder máximo do Executivo. O episódio aconteceu no Brasil, certo? Errado. Na gelada Suécia, Stefan Löfven, um soldador de 57 anos, passou por todas essas etapas para se tornar no final de setembro o primeiro-ministro do país pelo Partido Social-Democrata – a esquerda local –, pondo fim a um período de preponderância de governos conservadores. Tanta história em comum faz com que Löfven seja normalmente apelidado de “Lula do Norte” na imprensa europeia. Alcunha, aliás, endossada por ele próprio: após várias visitas a São Bernardo do Campo (SP), berço do movimento sindical brasileiro, ele se transformou em admirador do ex-presidente brasileiro.
Os laços entre o Brasil e o país nórdico se estreitaram ainda mais em outubro, com a assinatura de um contrato da Força Aérea Brasileira (FAB) para a compra de 36 jatos de combate Gripen NG, fabricados pela sueca Saab. Com previsão de entrega a partir de 2019, pela bagatela de US$5,4 bilhões – sem contar a possibilidade de novos lotes serem encomendados –, é um dos maiores contratos fechado na área de defesa este ano em todo o mundo. Löfven recebeu um grupo de jornalistas brasileiros de passagem pela capital Estocolmo para conhecer a fábrica da Saab na cidade de Linköping, de onde sairão os novos caças da FAB. Em seu escritório, para onde vai a pé todo dia – sua casa fica a poucas quadras de distância do prédio de onde despacha – o político falou sobre a proximidade com Lula, as negociações envolvendo o Gripen, as relações econômicas entre o Brasil e a Suécia e o reconhecimento histórico feito pelo governo local de que a Palestina é um país.
O senhor ligou para a presidente Dilma logo após a confirmação de que ela havia sido reeleita. Como foi a conversa?Em primeiro lugar a cumprimentei pela vitória, claro. Como eu também fui eleito recentemente, acabei recebendo também os parabéns dela [risos]. Eu nunca conheci Dilma Rousseff, mas me encontrei com o ex-presidente Lula várias vezes. Eu sugeri a ela que tivéssemos um encontro diplomático assim que fosse possível, como uma forma de trabalharmos para manter a boa relação que temos hoje.
Como o senhor viu o acordo entre o Brasil e a Saab para a compra dos caças?Acho que foi um bom negócio para ambos os países. O Brasil tomou sua decisão soberana de nos procurar e dizer que precisava desse avião, que é muito bom, por sinal. Mas o acordo vai muito além das aeronaves. Ele inicia uma cooperação maior entre nossos países em ciência, em tecnologia, em educação e em comércio. Nós estamos nos aproximando desde 2009, quando o presidente Lula esteve aqui na Suécia e assinou uma série de acordos de cooperação conosco, inclusive na área de biocombustíveis. Então nós já temos muito em comum, e a parceria dos caças vai nos aproximar ainda mais.
De que forma o senhor vê um país como o Brasil, com muitos problemas sociais, investindo na compra de armamentos?Em primeiro lugar cabe dizer que o Brasil é um país democrático e que cabe a ele tomar suas próprias decisões sobre em que área ele deve investir. No entanto, de forma geral posso dizer que o ideal seria que não tivéssemos que ter nenhum tipo de forças armadas. Infelizmente a realidade não funciona assim. Nós mesmos estamos aumentando nossos gastos militares nos últimos anos por causa dos desdobramentos políticos que ocorrem Rússia, que é um país próximo ao nosso. Cabe ao Brasil decidir se ele também precisa fazer isso. No nosso acordo específico, vale a pena lembrar que há muito mais envolvido do que apenas a compra dos caças. Temos tecnologia, inovação e comércio que vão gerar novos empregos e novos produtos que irão parar no mercado civil em diferentes áreas. Mas a União Europeia está contestando na Organização Mundial do Comércio alguns tipos de subsídios que o Brasil usa em suas transações. Isso pode interferir no negócio? Não muda nada em nosso acordo. O espírito é diferente nessas duas situações e o que temos aqui é um acordo direto entre os países. As relações entre Brasil e Suécia não serão afetadas em nada por isso.
O acordo implica uma aproximação política entre Brasil e Suécia. Seu governo irá apoiar a reivindicação brasileira por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU?Nós ainda não decidimos formalmente o que fazer sobre esse ponto específico, mas acreditamos que é hora de uma mudança para novas regras mais transparentes na ONU e no Conselho de Segurança. Nós consideramos muito válida a reivindicação de países importantes como o Brasil e somos a favor de ampliar o diálogo sobre essa possibilidade. Vamos ver como isso se desenvolve daqui para a frente.
No Brasil o senhor é conhecido como o Lula do Norte. Como vê essa analogia?Sou um grande admirador do presidente Lula e posso dizer que fico lisonjeado com essa comparação. Nós temos trajetórias parecidas: ambos viemos do movimento sindical e depois entramos para a política. Isso fica claro quando nós nos encontramos. Nós conseguimos nos entender perfeitamente, mesmo sem que eu fale português e com o Lula tendo deixado claro que não queria aprender sueco [risos]. Mas a forma e o estilo de se comunicar é bem parecido, percebemos mesmos através dos intérpretes. Eu lembro que uma vez disse ao Lula quando ele era presidente: “Deve ser um trabalho difícil liderar um dos maiores países do mundo”. Ele me respondeu que “é sim, mas vou fazer isso direito porque ninguém vai poder dizer que um trabalhador não pode fazer isso”. Isso me marcou. Hoje digo para mim mesmo nos dias difíceis que “eu também posso fazer isso”. Lula é sem dúvida uma das minhas maiores inspirações.
Como o senhor analisa o momento atual da economia brasileira? Ele gera algum impacto na economia sueca?De comum acho que ambos os nossos países não conseguiram crescer tanto quanto gostaríamos. O Brasil é um país imenso e com um peso muito grande para a América Latina, mas aqui na Suécia somos mais sensíveis aos resultados da economia dos países europeus, especialmente a Alemanha. Como quase metade do nosso PIB vem de exportações, o que acontece na Europa nos influencia muito. A lentidão da economia europeia é uma das nossas principais preocupações no momento. Mas hoje em dia a economia está tão interconectada que o que acontece na América Latina e na Ásia acaba nos influenciando.
A Suécia recentemente se tornou pioneira ao reconhecer a Palestina como um país. Não é uma decisão arriscada? Quais foram as razões disso?O risco é que tenha sido até tarde demais. O que nós vimos na região no último ano não deixou margem para muita esperança. Nós seguimos a crise hora a hora e vimos que não haveria saída se continuássemos no mesmo caminho. Não havia chance de paz porque não havia conversas, não havia negociações, além de decisões unilaterais sobre ainda mais assentamentos israelenses na região. O que precisa ficar claro é que não estamos apoiando nenhum dos lados. Nós estamos do lado da paz. Nós temos uma atitude amistosa mas firme tanto em relação à Israel quanto à Palestina. O que nós queremos é ganhar momentum para sair desse impasse. Nós tínhamos duas instituições em patamares completamente diferentes e com o reconhecimento temos agora dois Estados. Ainda é pouco, mas é um passo no sentido de nivelar os dois países.
Como foi a reação dentro da Suécia?Dentro do Parlamento foi o esperado: a base governista foi favorável e a oposição foi contra. [Suspiro] Esse conflito é tão antigo e tão profundo que se tornou vital olhar apenas para a frente. Se ficarmos olhando para o passado não iremos a lugar nenhum. Temos que pensar o que podemos fazer para ajudar aquelas crianças que vimos andando no meio das ruínas. Esperamos que a partir de agora vários outros países se mobilizem para também reconhecer a Palestina.

No acordo entre PCC e Alckmin, o Estado de São Paulo se rendeu ao mundo do crime

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O Estadão de hoje [27/7] publica uma bela reportagem de Alexandre Hisayasu sobre o acordo celebrado em 2006, entre o estado de São Paulo e o PCC. Não foi acordo: foi rendição.
A reportagem faz um balanço das vítimas do PCC: 23 PMs, 7 policiais civis, 3 guardas, 8 agentes penitenciários, 4 civis e 107 supostos criminosos. Faltaram mais de 600 inocentes nessa conta.
Descreve os encontros entre os dois secretários do governo paulista – Saulo de Castro Abreu, da Segurança, Nagashi Furukawa, da Administração Penitenciária – com Marcola e como, depois do encontro, cessaram os ataques.
Antes disso, Marcola tinha dois pedidos: autorizar visitas no Dia das Mães e permitir que os detentos pudessem falar com seus advogados. Saulo preferiu partir para o enfrentamento. Terminou rendendo-se aos fatos e aceitando o acordo.
A reportagem para por aí, para não entrar no terreno minado do maior massacre da história de São Paulo, que ocorreria nos dias seguintes por determinação expressa do Secretário Saulo de Castro Abreu.
O então governador Cláudio Lembo certamente irá se lembrar de um encontro que tivemos no Palácio dos Bandeirantes. Ele havia demitido Nagashi e reforçado o poder de Saulo. Fui até o Palácio e alertei que Saulo estava fora de si. O alucinado Saulo invadira a Assembleia Legislativa acompanhado de dezenas de PMs; ameaçara de prisão o dono de um restaurante, meramente por não conseguir estacionar seu carro.
Contei-lhe das conversas que tivera com Nagashi e o Secretário de Justiça Alexandre Morais. Ambos relataram que se reuniam com Alckmin para traçar a política de segurança. E as reuniões foram interrompidas pela radicalização de Saulo, transformando as discussões em questões pessoais. Em vez de enquadrar Saulo, Alckmin optou por interromper as reuniões e, com isso, esfacelou o sistema de segurança do estado. Os criminosos eram presos, ficavam sob a guarda da Secretaria de Administração Penitenciária, mas as investigações tinham que ser conduzidas pela Secretaria de Segurança. E Saulo considerava-se rompido com Nagashi e nada fazia.
Foi em vão. Lembo não estava a par. Disse-me que a informação que recebera era a de que Saulo era eficiente e Nagashi muito mole. Naqueles dias trágicos, Saulo tornou-se seu principal interlocutor.
Foi o período em que PM saiu às ruas das periferias de São Paulo e da Baixada Santista com os rádios desligados para não serem acessados por jornalistas, com a missão de matar qualquer vulto que se movesse. Foram mais de 600 assassinatos em poucos dias. A raiva não foi despejada em membros do PCC, mas – na maioria absoluta dos casos – em jovens inocentes de periferia, estudantes indo para as escolas. Assassinaram a sangue frio até uma jovem cujo parto estava marcado para o dia seguinte.
Foi um espetáculo dantesco, mil vezes pior que o massacre de Carajás. Homens encapuçados, em motos, alvejavam as pessoas. Em seguida, apareciam viaturas da polícia para destruir as provas. Os corpos eram encaminhados ao IML (Instituto Médico Legal) para as provas finais serem destruídas em laudos inconclusivos.
A matança só cessou quando bravos procuradores federais e médicos do Conselho Regional de Medicina correram para o IML para acompanhar os laudos. A experiência com os mortos da ditadura demonstrava que o laudo era a peça central para a abertura de inquéritos. Ao chegarem no IML, os médicos se depararam com dezenas de cadáveres com tiros na nuca, nas costas, em clara comprovação de execução. Assim que assumiram a vigília o número diário de corpos caiu de uma centena para menos de dez.
Aqui, o Blog criado pelas mães de maio para denunciar o massacre. Nada foi apurado pelo Ministério Público Estadual, pela Justiça de São Paulo, pela imprensa paulista. Uma brava procuradora federal levantou o caso enviou para Brasília, para federalizar a apuração. O procurador-geral Rodrigo Janot sentou em cima do caso, que não anda.
Restaram apenas os lamentos e as denúncias das mães de maio.
Alckmin em 2010 com o então candidato a deputado estadual Ney Santos, acusado de ligação com o PCC
O que o PCC ganhou no acordo com o governo paulista em 2006?
Na época, a facção realizou vários ataques, especialmente a postos da Polícia Militar, de maneira coordenada. Eles foram interrompidos após uma reunião no presídio de Presidente Bernardes, no interior do estado.
De acordo com o Estadão, a solução foi encaminhada pela advogada Iracema Vasciaveo, então presidente da ONG Nova Ordem, que defendia os direitos dos presos e representava o PCC.
Iracema esteve com Marcola, o líder. O substituto de Geraldo, Cláudio Lembo, deu aval para o encontro, bem como os secretários da Segurança Pública e da Administração Penitenciária – Saulo de Castro Abreu Filho e Nagashi Furukawa, respectivamente.
A história foi revelada pelo delegado José Luiz Ramos Cavalcanti, que depunha num processo contra advogadas supostamente ligadas ao crime organizado. “Eu apenas autorizei a viagem. O que aconteceu lá dentro, não tenho detalhes”, afirma Lembo.
O diabo está nos detalhes. Em tese, garantiu-se a rendição dos criminosos, desde que se assegurasse a integridade física deles. Os atentados cessaram, subitamente, e o poder do PCC só fez crescer. Geraldo sempre negou qualquer tipo de acordo, mas o fato é que a relação com o Primeiro Comando da Capital só se tornou mais confusa, para usar um eufemismo, com o passar do tempo.
O deputado Conte Lopes, ex-delegado, declarou, certa vez, que “essa facção criminosa é cria do PSDB”. O PCC nasceu em 1993 na Cadeia Pública de Taubaté e sua relação com o governo paulista é recheada de episódios assombrosamente estranhos.
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Em 2010, Alckmin prestigiou evento do candidato Ney Santos.
Em 2010, Alckmin pediu votos para um candidato a deputado estadual do PSC chamado Claudiney Alves dos Santos, conhecido como Ney Santos.
Pouco depois, Santos foi preso, acusado de adulteração de combustível, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e formação de quadrilha. Era também investigado por envolvimento com o PCC. Em seu nome, possuía um patrimônio de R$50 milhões, incluindo uma Ferrari e um Porsche.
Ok. Alckmin muito provavelmente não sabia do passado, do presente e do futuro de Santos. Mas nem sua equipe?
Em 2012, um inquérito sobre o envolvimento de PMs com o PCC foi arquivado. Um ano depois, aconteceu outro episódio de ampla repercussão, em que o governador saiu-se como herói na luta contra os bandidos.
Ele teria sido ameaçado de morte, segundo um recado interceptado. “Os bandidos dizem que as coisas ficaram mais difíceis para eles, pois eu quero dizer que vai ficar muito mais difícil”, disse GA, triunfal, em Mirassol. “Nós não vamos nos intimidar. É nosso dever zelar pelo interesse público.”
Não contavam com a astúcia do ex-secretário Antônio Ferreira Pinto, que revelou que a escuta dos membros do PCC circulava desde 2011.
“Esse fato não tinha credibilidade nenhuma. A informação é importante desde que você analise e veja se ela tem ou não consistência. Essas gravações não tinham. Tanto que o promotor passou ao largo delas”, falou.
“Aí vem o governo e diz: ‘Não vou me intimidar’. Ele está aproveitando para colher dividendos políticos”. De novo: Geraldo, muito possivelmente, não tinha ideia de que as tais ameaças tinham dois anos de idade e nunca foram levadas a sério.
No início de 2014, outro evento inacreditável. Um relatório vazado do Ministério Público dava conta de um esquema para tirar Marcola e outros três chefões da penitenciária de Presidente Venceslau.
O plano estaria sendo arquitetado há oito meses. Os homens já tinham serrado as grades das janelas de suas celas, colocando-as de volta em seguida, devidamente pintadas. Eles sairiam dali para uma área do presídio sem cobertura de cabos de aço, de onde seriam içados por um helicóptero com adesivos da Polícia Militar.
O “vazamento” do documento criou situações surreais. Policiais ficaram de tocaia aguardando os meliantes. Jornalistas correram para lá. No Jornal Nacional, um repórter perguntava, sussurrando, a um franco atirador como funcionava a arma dele. Diante da falta de ação, era o jeito.
Claro que não aconteceu nada. Alckmin, no entanto, estava pronto para faturar. Na Jovem Pan, elogiou “o empenho da polícia de São Paulo, 24 horas, permanentemente, contra qualquer tipo de organização criminosa, tenha a sigla que tiver. São Paulo não retroage, não se intimida”. Para ele, “lamentavelmente, isso acabou vazando”.
Nomeado em janeiro, o secretário de segurança pública Alexandre Moraes é advogado em ao menos 123 processos de uma cooperativa denominada Transcooper, citada em investigações que apuram lavagem de dinheiro do PCC. Em nota, avisou que “renunciou a todos os processos que atuava como um dos sócios do escritório de advocacia”.
O PCC, hoje, controla áreas inteiras da cidade, as cadeias, tem ligação com escolas de samba e mantém bases no Paraguai e na Bolívia. Um fenômeno.
Naquele ano de 2006, Geraldo deu uma entrevista a uma rede de televisão australiana. A jornalista quis saber sobre os “grupos de extermínio” e sobre as ações da facção. Irritado, ele se levantou da cadeira e encerrou o papo.
“Esse é um problema do governo estadual. Você deveria ir falar com eles. Tchau, tchau. Bye, bye”, diz. “Se eu soubesse que era sobre isso, não tinha entrevista. Não faz o menor sentido”. A entrevistadora ainda tentou, inutilmente, um apelo: “Alguém precisa falar sobre isso”.
O que o PCC levou, de fato, no tal acordo permanece uma incógnita. Geraldo Alckmin, ao menos, vem levando excelentes dividendos políticos com um pacto cujo preço é pago por seus eleitores.

A SÍNDROME DAS OVELHINHAS

Então a aldeia de ovelhinhas entrou em pânico. Definitivamente essa situação era  intolerável. De três em três dias, uma ovelhinha era morta por um tigre que atacava à noite, protegido pelas sombras e pelo silêncio.

Houve uma reunião de emergência no centro da aldeia à qual todas as ovelhinhas foram convocadas.

Uma ovelhinha sarada dirigiu os trabalhos, ou tentava, pois os apupos e as discussões  pareciam intermináveis (vocês sabem como são as ovelhinhas... não sabe?).

Foi então, que em meio aos acalorados debates, uma ovelhinha jovem, de lãs alvas e sedosas pediu a palavra e se pronunciou...

“...béééé...minhas irmãs. Esse tigre assassino não pode continuar impune. Devemos nos livrar dele imediatamente. Fiquei sabendo que na colina, próxima da aldeia, mora um jovem leão, forte e poderoso. O que acham, minhas irmãs, de contratá-lo para dar cabo desse tigre?”

Foi uma explosão de aplausos. Muito bem! Muito bem! É isso mesmo, vamos contratar  o leão e acabar com esse tigre sanguinário! Viva!

No meio da multidão, porém, uma ovelha, velhinha, de lãs branquinhas, ergueu sua patinha.

“Meninas, meninas!” Disse com a paciência de quem conhece a impulsividade da juventude: “Esse tigre está velho e decadente. Tanto que já não caça atacando ovelhinhas indefesas como nós. Basta nos organizarmos. Nada de pedir uma ajuda dos céus. Vamos fazer turnos de guarda e sem conseguir encontrar uma só ovelhinha distraída durante a noite, acabará morrendo de fome ou irá embora. Estaremos livres e salvas por nós mesmas”.

Buuuuu...foi a reação da maioria. 

“Cala a boca velha caduca, replicaram a maioria jovem da aldeia.”

E, dessa forma, calou-se a ovelha de alvas lãs, e a idéia de contratar o leão foi adotada.

O leão aceitou o convite. Veio para a aldeia, e à noite, numa emboscada, sem maiores dificuldades, matou o velho e fraco tigre.

Na manhã seguinte as ovelhas entraram em euforia. Cataram, dançaram funk, soltaram fogos. Nomearam o leão "o cara" e por um dia inteiro comemoraram a morte do tigre.

Encerradas as festividades foram pagar a quantia combinada ao leão.

Esse deixando escapar um rugido assustador e diante das ovelhinhas de olhos arregalados exclamou: “Suas tolas. Gostei do lugar e na verdade estou me mudando para essa aldeia. Quanto a sua dívida... não se preocupem, cobrarei em prestações, tipo, uma ovelha por dia.”

Em sua cabana a velha e sábia ovelha sofria enroscada em suas lanzinhas, pois só ela havia percebido que, para se livrar de um problema suas imprudentes companheiras haviam buscado a solução criando um problema muito, muito maior.

Na história dos povos muitas vezes se repete a síndrome das ovelhinhas.

Em 1898, para se livrar do velho e decadente império espanhol, sua última colônia das Américas, Cuba, pediu auxílio para os Estados Unidos, que como pagamento exigiu a edição da Emenda Platt na primeira Constituição do país, e dessa maneira pode estender suas garras e defender seus interesses no coração da jovem nação.

Já, o Brasil, para obter o reconhecimento de sua independência política em relação ao extinto Império português, assumiu compromissos e dívidas com o jovem império britânico.

Talvez fosse interessante que os povos do Oriente Médio ouçam a ovelha velha antes de aceitar a “ajuda” da OTAN para derrubar seus ditadores.

Quem sabe já seja tempo de abandonar soluções em pacotes formatados por mãos estrangeiras e entender que a solução dos problemas está inserida na cultura de cada povo. No talento e na criatividade de seus jovens e na justiça social.

Esse entendimento é que faz, realmente, que os povos assumam a cidadania e deixem de ser ovelhinhas precipitadas.

Agronegócio tem 10 vezes mais verba que a agricultura familiar em SP

RESPONSÁVEL POR 70% DOS ALIMENTOS CONSUMIDOS NO PAÍS, AGRICULTURA FAMILIAR NÃO TEM ORÇAMENTO NEM POLÍTICAS PÚBLICAS DO GOVERNO ESTADUAL PAULISTA.


A agricultura familiar é a maior responsável pela segurança alimentar dos brasileiros, produzindo 70% dos alimentos saudáveis que chegam à mesa da população e emprego a 12,3 milhões de pessoas, segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).
Entretanto, no estado mais rico do Brasil, a verba da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo representa apenas 0,5% do orçamento estadual para 2015 – ou R$ 1,129 bilhão do total de R$ 204,8 bilhões – índice que tem se repetido há anos, marcando a falta de investimentos no setor pelo governo paulista do PSDB. 

Outra questão é que 70% desses recursos - R$ 807,4 milhões – são para o agronegócio, em projetos destinados à geração e transferência de conhecimento e tecnologias, à infraestrutura e logística, à modernização e gestão de qualidade.

Arte/infografia: Maria Dias

Nos programas estaduais de agricultura voltados aos mais vulneráveis, a verba é 10 vezes menor (R$ 88,8 milhões em 2015) para fomento ao desenvolvimento regional, fortalecimento da competividade, abastecimento e segurança alimentar (confira o infográfico).
“O governo paulista fez opção clara pelo agronegócio e hoje esse modelo está em xeque porque há um descaso com o planejamento de longo prazo, especialmente no caso da água porque falta investimento na captação e armazenamento desse recurso”, alerta Marco Antônio Pimentel, presidente da Federação da Agricultura Familiar do Estado de São Paulo (FAF-CUT/SP).

Para estimular a produção e garantir a comercialização, em 2011 o governo estadual criou o Programa Paulista da Agricultura de Interesse Social (PPAIS), que determina que no mínimo 30% dos alimentos comprados por órgãos estaduais sejam da agricultura familiar.

As compras são feitas diretamente pelo governo estadual, com limite de compra de até R$ 22 mil anuais por família, e os alimentos do PPAIS são utilizados no preparo de refeições em escolas estaduais, presídios e hospitais, entre outros.

Arte/infografia: Maria Dias

Mas desde que o programa foi efetivado, em 2012, foram assinados somente 2,5 mil contratos com 800 agricultores familiares, gerando uma movimentação financeira de R$ 6 milhões – o que resulta em apenas R$ 2.400 por contrato ou R$ 7.500 por família, na média, em todo o período.

Na avaliação do presidente da FAF-CUT/SP, o PPAIS surgiu para o governo estadual mostrar que tinha um programa de aquisição de alimentos parecido com o do governo federal, mas a proposta já nasceu errada, com a lógica na produção individual das famílias e problemas de logística

“Hoje os principais clientes são as penitenciárias, mas poucos agricultores têm acesso ao PPAIS. Foi um programa feito de cima para baixo, sem ouvir os trabalhadores rurais e sem resolver os problemas de transporte. Há erros em todos esses programas, seja estadual ou federal, mas com o controle social é possível fazer a política ir sendo adequada, o que não ocorre em São Paulo”, afirma o dirigente.

A Veja é um partido político disfarçado de revista

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A atuação partidária da Veja não é novidade. Para a revista, ter status de “empresa de comunicação” serve de fachada para o crime.
O lixo semanal da revista Veja traz na capa um close do rosto desfigurado do Lula com uma chamada ameaçadora: “A vez dele”. No subtítulo, faz alusão a supostas revelações do empreiteiro da OAS, que incriminariam Lula. De sobremesa, a revista oferece uma chanchada: “como o filho Lulinha ficou milionário”.
A Veja não surpreende; iludidos são aqueles seres humanos de boa-fé que ainda se surpreendem com a vilania daquela revista. A Veja apenas ensina que a patifaria, o ódio e o desprezo de classe não têm limites.
Empregando linguagem asquerosa, a revista investe contra Lula com um desrespeito inaceitável a um ex-presidente. Em qualquer democracia, ensejaria à prisão pelo crime de ofensa à honra: “Léo [Léo Pinheiro, da OAS] e Lula são bons amigos. Mais do que por amizade, eles se uniram por interesses comuns. Léo era operador da empreiteira OAS em Brasília. Lula era presidente do Brasil e operado pela OAS. Na linguagem dos arranjos de poder baseados na troca de favores, operar significa, em bom português, comprar. Agora operador e operado enfrentam circunstâncias amargas”.
O empreiteiro desmentiu a revista, que ainda assim manteve a circulação.
A atuação partidária da Veja não é novidade. Para a revista, ter status de “empresa de comunicação” serve de fachada para o crime”. A quatro dias da eleição de outubro de 2014, Veja antecipou em dois dias seu lixo semanal trazendo na capa Dilma e Lula em close e a chamada “Eles sabiam de tudo” [sic], com um subtítulo espalhafatoso baseado em suposto depoimento do doleiro-criminoso Youssef.
Tanto antes como agora, a revista não baseia suas infâmias em fatos concretos, mas simplesmente em mentiras e elucubrações que satisfazem a obsessão patológica de desmoralizar Lula, Dilma e o PT.
Não é só a Veja que usa a “liberdade de expressão” como álibi para a prática criminosa. Este é o método da mídia oposicionista e seus servos ideológicos. Merval Pereira, do jornal O Globo, é um praticante contumaz dessa técnica. Na coluna de sábado, dia 25/7 [“O diálogo inviável”], Merval perpetrou um repertório de acusações que decerto lhe foi servido pelo seu colega FHC no chá da tarde na Academia Brasileira de Letras:
“[...] o PT revelou-se um partido que adota meios corruptos para fazer política, e usa o Estado para financiar seus esquemas, com o objetivo de dominar a máquina pública pelo maior tempo possível;
o PT [...] é, até que se prove o contrário, o único [partido] que sequestrou o Estado brasileiro para montar um esquema de domínio político na tentativa de se perpetuar no poder; [...] o PT inaugurou uma nova fase da corrupção brasileira, muito mais danosa à democracia por que se alimenta da própria máquina do Estado para continuar dominando-a indefinidamente; [...] para, através do desvio de recursos do Estado brasileiro, controlar a vida partidária nacional e desvirtuar o sistema de coalizão partidária através de distribuição de verbas ao Legislativo, envenena o nosso sistema democrático, desmonta a convivência harmônica entre os poderes da República, quebra o sistema de pesos e contrapesos próprio da democracia representativa;
Como partido organizado e bem comandado, o PT transformou a roubalheira generalizada em instrumento de controle político. O que mudou nos anos petistas é que a roubalheira nas principais áreas do governo foi monopolizada pelo esquema político que almeja a hegemonia. Sem mudar essa postura diante da democracia, não há razão para a busca de um diálogo”.
O presidente Lula nomeou diretamente dois presidentes da Petrobras – José Eduardo Dutra e Sérgio Gabrielli. A presidente Dilma nomeou Maria das Graças Foster e Aldemir Bendine. Durante os 16 meses de frenético espetáculo jurídico-midiático da Operação Lava-Jato que começou em março de 2014, nenhuma autoridade da Petrobras designada diretamente por Lula e Dilma estão indiciadas ou são suspeitas.
As pessoas da própria Petrobras implicadas na corrupção, como se sabe, são cinco ou seis funcionários de carreira de uma empresa que tem no seu quadro funcional quase 250 mil empregados.
Entre os outros mais de sessenta envolvidos no escândalo que foram arrolados até o momento pelo Judiciário, apenas um deles é do PT, o ex-tesoureiro. Os demais são empresários, lobistas, consultores, doleiros, além de agentes políticos que pertencem ao PMDB, PP, PSB, PSDB e que representam a maioria dos políticos implicados.
Apesar disso, o espetáculo jurídico-midiático promove intencionalmente uma narrativa desequilibrada e desproporcional para desmoralizar o PT.
Merval precisa comprovar a materialidade das imputações feitas ao Partido. Elas são de tal gravidade que, se verdadeiras, implicariam na proscrição de qualquer organização com as características por ele arroladas. Caso o colunista da Globo não comprove suas palavras levianas, não resta outro caminho que não um processo judicial pela ofensa desferida a quase um milhão e seiscentos mil pessoas filiadas ao PT.
Para a revista Veja, o caminho é o mesmo, e deve começar pela apuração do crime cometido na véspera do segundo turno eleitoral de 2014, até hoje sem resultados conhecidos.
Nunca antes na história do Brasil o ambiente esteve tão intoxicado pelo reacionarismo e por práticas fascistas que difundem ódio e intolerância. É essencial agir-se urgentemente contra essa realidade usando os remédios da democracia, das leis e da Constituição.

Cuba pede fim do bloqueio e devolução de Guantânamo nas celebrações do Dia da Rebeldia

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Festividades ocorreram Santiago de Cuba, cidade situada a quase 900 quilômetros de Havana e no extremo oriente da Ilha.
Data marca o 62º aniversário do assalto ao Quartel Moncada, quando militantes liderados por Fidel Castro realizaram a primeira ação armada da Revolução
Via Opera Mundi em 26/7/2015
Durante as celebrações do 62º aniversário do assalto ao Quartel Moncada, Cuba pediu neste domingo (26/07) que os EUA coloquem fim ao bloqueio econômico e que devolvam a base naval de Guantânamo. As exigências nesta data – que marca o início da Revolução Cubana e também é conhecida como “Dia da Rebeldia” – ocorrem quase uma semana após a Ilha oficializar o restabelecimento de relações diplomáticas com os EUA.
O ato comemorativo ocorreu no antigo quartel de Moncada, situado em Santiago de Cuba e convertido em uma escola, onde em 26 de julho de 1953 os militantes liderados por Fidel Castro realizaram o que é considerada a primeira ação armada da Revolução.
No evento, o discurso central ficou a cargo do vice-presidente de Cuba, José Ramón Machado Ventura. “Começa agora um longo e complexo caminho rumo à normalização das relações, que inclui o fim do bloqueio e a devolução da base naval de Guantânamo”, exigiu.
Segundo o número 2 do Executivo, a reabertura das embaixadas na última segunda-feira (20/07) marca “o término da primeira fase do processo iniciado em 17 de dezembro”, quando o chefe de Estado cubano, Raul Castro, e seu homólogo norte-americano, Barack Obama, anunciaram uma reaproximação bilateral.
“Saio daqui com a fiel esperança de que Santiago sempre seguirá sendo Santiago!”, limitou-se a declarar Raul, aludindo ao tradicional espírito revolucionário dos habitantes da província situada na porção oriental da Ilha e tida como “o berço da Revolução” de Fidel.
As festividades contaram com diversos shows e reuniram cerca de 10 mil pessoas, entre a quais, “Los Cinco”, agentes cubanos considerados terroristas pelos EUA e heróis para a Ilha, que ficaram encarcerados durante anos em prisões norte-americanas.
Em 26 de julho de 1953, o Quartel Moncada foi alvo da primeira, e fracassada, ação armada de Fidel Castro contra o ditador Fulgêncio Bastista. Esse levante, que incluiu o quartel Carlos Manuel de Céspedes, na cidade de Bayamo, é uma das datas emblemáticas do calendário político cubano ao lado do triunfo revolucionário de 1º de janeiro de 1959.
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Raul Castro fez rápida declaração. O orador do evento foi seu vice, Machado Ventura.
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No dia 26 de julho de 1953 acontecia o assalto ao Quartel Moncada, que dava início à Revolução Cubana. Tendo Fidel Castro como líder, o acontecimento é considerado a última etapa da libertação do povo cubano.

FHC está no lado errado da História

Fernando Henrique Cardoso perdeu estatura política ao demonstrar desinteresse – antes mesmo de receber um convite formal – por um encontro com Dilma Rousseff.
“O momento não é para a busca de aproximações com o governo, mas sim com o povo”, escreveu FHC em sua página no Facebook. “Qualquer conversa não pública com o governo pareceria conchavo na tentativa de salvar o que não deve ser salvo”.
Ao sugerir que seria possível lhe atribuir a missão de salvar o governo Dilma, o ex-presidente não conseguiu evitar a lamentável manifestação de uma arrogância irrefreável em vários de nossos homens públicos – inclusive do PT – quando se torna evidente que os adversários atravessam uma hora difícil.
O país inteiro – e o Planalto em primeiro lugar – sabem muito bem que o governo Dilma será salvo pelo governo Dilma. Não se deve cultivar ilusões a esse respeito.
Cabe à presidente e aos ministros corrigir o que deve ser corrigido e esclarecer o que precisa ser explicado. Também têm o dever de controlar a incrível capacidade de errar sem necessidade, dar consistência a suas ações políticas e recuperar a confiança do eleitorado. Se há novas alianças a serem feitas, lhe cabe propor. Se há alianças que atrapalham, devem ser desfeitas.
Não há como renunciar a esta responsabilidade, única e intransferível.
Mas cabe a um ex-presidente, que nunca foi aliado do governo – e ninguém imagina que tenha sido cogitado a desempenhar este papel – reconhecer a legitimidade do mandato que Dilma recebeu nas urnas de outubro de 2014, quando 53,5 milhões de brasileiros garantiram seu mandato até 2018. Todos ganham com isso, inclusive FHC.
Numa hora em que todos definem seus lugares, como se viu até no histórico diálogo entre Faustão e Marieta Severo e também na postura que separa Jô Soares e Lobão, todo mundo tem o direito de resolver como quer aparecer na foto. Não é possível afagar, pelo silêncio, Jair Bolsonaro e seus amigos, adversários da democracia antes que ela fosse conquistada luta contra a ditadura. Não é possível fingir que não há uma tentativa de ruptura em curso, ainda que ela possa vir fantasiada de arroubos juvenis.
Não é aceitável que se tente utilizar um processo judicial contra a corrupção, luta legítima e necessária, como instrumento para se atingir um governo eleito, promovendo-se um macabro terceiro turno.
Os brasileiros que lutaram pela democracia já acumularam muitos cabelos brancos, tiveram muitas perdas e ganhos. Reuniram decepções demais para deixar de reconhecer que não sobraram mocinhos nem bandidos em nossos duelos políticos, mas seres humanos de carne e osso, que atuam sob condições dadas, que todos conhecem muito bem e poderão aprimorar quando houver maioria política para isso.
Certos gestos são muito importantes mesmo quando parecem só isso. Uma foto e uma pequena legenda explicativa ajudaram, muitas vezes, a escrever a história de um país que chegou até aqui. Foi assim que se guardaram imagens da campanha de 1978, quando Fernando Henrique Cardoso foi atrás do voto popular pela primeira vez na vida, e o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva abriu as portas das fábricas e dos bairros populares de São Paulo, contribuindo para uma votação que nem os aliados mais otimistas de FHC podiam imaginar.
O mesmo se repetiu na transição de 2002-2003, que exibiu uma elegância jamais vista, produto da decisão de Lula de mandar o passivo de oito de FHC para o arquivo morto, fazendo cumprir com a energia necessária toda tentativa de olhar para trás em busca de escândalos possíveis e já identificados. (Vários membros do governo se arrependeriam dessa cortesia que jamais foi retribuída, como se veria na AP 470, mas aí estamos em outra etapa da história, que ajuda a explicar boa parte da raiva e do ressentimento que vieram depois).
Em 2011, no início de seu primeiro mandato, emissários do PSDB fizeram chegar ao Planalto a sugestão de que, macambúzio após uma terceira derrota consecutiva de sua turma naquela altura da vida, seria um belo gesto homenagear Fernando Henrique nos 80 anos. Seria um reconhecimento. E uma forma da presidente colocar-se acima das disputas menores da política e colocar-se na História. Negociado palavra após palavra, por mãos autorizadas de um lado e de outro, chegou-se a um texto que dizia assim:
Em seus 80 anos há muitas características do senhor Fernando Henrique Cardoso a homenagear. O acadêmico inovador, o político habilidoso, o ministro-arquiteto de um plano duradouro de saída da hiperinflação e o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica. Mas quero aqui destacar também o democrata. O espírito do jovem que lutou pelos seus ideais, que perduram até os dias de hoje. Esse espírito, no homem público, traduziu-se na crença do diálogo como força motriz da política e foi essencial para a consolidação da democracia brasileira em seus oito anos de mandato.
Em 2015, não se trata obviamente de salvar um governo nem de pedir a retribuição de uma gentileza, mesmo que gestos desse tipo projetem força de caráter. A questão é mostrar apreço pelas regras da democracia, numa hora em que adversários históricos têm sido estimulados a jogar o país em aventuras que todos sabem como começam e, pela experiência, podem adivinhar aonde pretendem chegar.
A realidade é que não há caminho legal para afastar Dilma de seu posto. Não há fitas gravadas e comprometedoras, que forçaram Richard Nixon a renunciar depois do Watergate. Se você acha que um Fiat Elba é pouco para derrubar um presidente, ou apenas a pontinha de um iceberg, cabe reconhecer: não há um Fiat Elba, como aquele que se tornou a “prova material” contra Fernando Collor.
Não se pode cogitar sequer o impeachment paraguaio, que afastou Fernando Lugo do cargo a partir de uma tentativa tosca de incriminar o presidente pela morte de 17 pessoas num conflito por terra – uma operação tão grotesca como teria sido, em 1996, acusar Fernando Henrique Cardoso e o governador tucano Almir Gabriel, no Senado, pela morte de 17 agricultores no massacre de Eldorado de Carajás. Tampouco a presidente pode ser acusada de atentar contra a Constituição, cláusula previsa no artigo 86 da Carta de 1988. Foi a partir de uma interpretação interesseira da legislação local que se afastou – por ação militar – o presidente Manoel Zelaya da presidência de Honduras.
Em março de 2015, não existem condições para se pedir um afastamento da presidente a partir da legislação em vigor. Não se trata de tentar “salvar o que não deve ser salvo”. Trata-se de reconhecer não há nada que “não deve ser salvo”.
Após examinar meticulosamente as menções a Dilma nas delações da Lava-Jato, o PGR Rodrigo Janot informou aos interessados que não há caminhos legais para que Dilma seja enquadrada em crime de responsabilidade, que precisa ser cometido durante o mandato presidencial. Janot assinalou que as referências a Dilma falam de seu período como ministra-chefe da Casa Civil e das Minas e Energia, envolvendo fatos que, se por acaso forem dignos de serem apurados, deverão aguardar pelo fim do mandato, em 1º de janeiro de 2019, como determina o artigo 86 da Constituição, conforme entendimento de vários ministros do Supremo.
Isso ocorre porque, num gesto de sabedoria produzido pela memória do país, os constituintes trataram de evitar que em busca de atalhos para esquentar disputas do presente, adversários de um governo eleito fossem desencavar denúncias do passado, transformando a luta política numa guerra civil de fantasmas e assombrações.
Fernando Henrique Cardoso teve um papel dirigente na Constituinte. Foi relator do regimento interno, que definiu como os trabalhos seriam organizados. Também foi líder do PMDB no Senado, quando o partido tinha a maior bancada. Como relator-adjunto da Comissão de Sistematização, cumpriu funções de titular e teve um papel decisivo na elaboração do texto final da Carta de Leis.
É nesta história que ele considera que não há “nada a ser salvo?”