sábado, 23 de janeiro de 2016

A Polícia Federal de FHC a Dilma Rousseff


A ação da equipe do delegado Onézimo Sousa foi saudada pelos jornais do Rio, com O Globo de 12 de setembro de 1995. Clique na imagem para ampliá-la.
Na primeira metade dos anos 1990, a Polícia Federal do Rio foi comandada por delegados bastantes problemáticos. Que o digam os procuradores da República que ingressaram na instituição naquele período. Passavam um dobrado, por não confiarem em muitos dos policiais lotados na Superintendência Regional (SR/DPF/RJ).
Um destes ex-superintendentes, Eleutério Parracho, foi expulso da Polícia Federal junto com outros agentes após extorquirem US$2 milhões – o pedido inicial era de US$10 milhões – da direção latino-americana do Israel Discount Bank. Outro, Edson Antônio de Oliveira, envolveu-se também em concussão e no recebimento de mesadas dos bicheiros do Rio. Sua expulsão foi proposta em um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Injunções políticas levaram o então ministro da Justiça, Nelson Jobim, a rejeitar a demissão. Ele só saiu do DPF, por força de sentença judicial transitada em julgado, depois de ser preso, em 2012, 25 anos após o crime contra dois comissários da antiga Varig; 15 anos após a primeira sentença. Morreu brigando na Justiça pela sua reintegração.
Um terceiro ex-superintendente foi acusado pelo Ministério Público Federal de usar o carro apreendido com um traficante, tal como o juiz Flávio Roberto de Souza, pego dirigindo o Porsche de Eike Batista que ele mandara apreender. O detalhe importante é que o ex-superintendente tinha carro oficial e motorista. Ainda assim, durante seu expediente de trabalho, o carro do qual tornou-se fiel depositário era multado por excesso de velocidade na Linha Vermelha. Recebi as multas do próprio traficante, um advogado recolhido à prisão especial de Benfica. Até hoje ignora-se quem dirigia o carro enquanto o superintendente trabalhava. Assim era a Polícia Federal dos anos 1990.
Em 1995, fações do tráfico disputavam, com armas importadas, o domínio das comunidades da cidade. Isso fez o coordenador do Viva Rio, Rubem César Fernandes, mobilizar a sociedade em busca da paz. Com o apoio integral dos representantes dos três principais jornais da cidade – João Roberto Marinho (O Globo), Kiko Nascimento Brito (JB) e Walter Mattos (então em O Dia) – foram ao presidente Fernando Henrique Cardoso pedir maior atuação da Polícia Federal no estado, a começar pela sua Superintendência, um órgão sob suspeita.
FHC ordenou e o diretor-geral do DPF, Vicente Chelotti, mandou uma equipe investigar como as armas e drogas entravam no Rio. O encarregado do trabalho foi o hoje delegado aposentado Onézimo Sousa, que desembarcou na cidade com sua própria equipe.
Em poucos meses e após muitos percalços – um carro que achavam que ele usava foi baleado, seu quarto de hotel foi invadido e revirado – Onézimo voltou à Brasília com provas de policiais federais envolvidos na criminalidade. Reivindicou a prorrogação de sua estada no Rio para aprofundar o trabalho.
Reuniu-se com Chelotti e com diretor de Inteligência Policial (DIP), o hoje ex-deputado federal pelo PMDB e candidato a deputado derrotado pelo PSDB, delegado aposentado Marcelo Itagiba. Ele é um dos que aparecem no Youtube acusando o governo de Dilma Rousseff de querer esvaziar financeiramente a Polícia Federal.
Na época, o pedido de Onésimo girava em torno de um valor irrisório para diárias do hotel e alimentação, algo em torno de R$20 mil. Não se falava em corte de orçamento, antes pelo contrário, o presidente FHC, como noticiou O Globo na reportagem acima, instruiu Chelotti a não poupar recursos nem pessoal naquela missão. Onézimo, porém, como recordou na quarta-feira, dia 20/1, ouviu um sonoro não da direção do DPF. “Alegaram falta de recurso, mas os motivos eram outros”, desabafou.
Ou seja, não era verba, mas falta de vontade política da direção do DPF. Impediram a continuação do trabalho que o presidente da República prometera ao Viva Rio. Mais ainda, anos depois, não sabiam onde estava o material entregue por Onézimo com as gravações das escutas de telefonemas de traficantes investigados.
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Revista Art. 5º, edição 43, março/abril de 2015.
Em 2003, não foi mera coincidência, mas um sinal de mudança de rumo. Ao assumir a direção do DPF, com total apoio do ministro Márcio Thomaz Bastos e, ainda, do presidente Lula, o delegado Paulo Lacerda deu início às operações policiais que hoje viraram rotina, cortando na própria carne, para dar exemplo. Foi a Operação Sucuri, em Foz de Iguaçu, que prendeu policiais federais e auditores da Receita Federal envolvidos com o contrabando e o descaminho de mercadorias. Entre eles estava o agente Newton Ishi, hoje mais conhecido como “japonês bonzinho”.
Tudo isso me veio à memória ao cair nas minhas mãos um número atrasado da Revista Art. 5º, edição nº 43, dos meses de março/abri de 2015. Trata-se de uma revista da Associação Artigo 5º – Delegados e Delegadas da PF para a República e a Democracia. A associação, cujo nome é uma referência ao artigo da Constituição com Direitos e Garantias Fundamentais, tem por objetivo algo inusitado no meio policial: defender os Direitos Humanos (DH), motivo pelo qual, segundo alguns policiais, não tem muitos sócios: “DH é tema ainda espinhoso na instituição, em que pese a PF ter uma diretoria voltada para os Direitos Humanos”.
Já na capa há uma chamada que despertou interesse: “Aos 71 anos, mais do que crimes, a PF revela o cinismo da sociedade”, E continua questionando:
“Se a corrupção “passou dos limites”, qual o limite anterior? O dos governos passados? O dos escândalos não apurados ou arquivados? Quem figura nas centenas de inquéritos que tramitam em sigilo na PF distante da grande mídia?”
O principal artigo – Da Satiagraha à Operação Lava-Jato – é assinado pelo delegado federal aposentado Armando Rodrigues Coelho Neto. A ele, injustamente, relacionei uma postagem sobre o salário de Paula Rousseff Araújo, filha da presidente Dilma, na matériaBriga por verba reflete a briga contra Dilma na PF.
Também da autoria dele, o Jornal GGN, de Luis Nassif, postou, na quarta-feira, dia 20/1, outro artigo interessantíssimo, que recomendo a leitura: Para não dizer que não falei do Moro,
Na reportagem que escreveu na Revista Art. 5º ele, que vivenciou muitos anos de Polícia Federal, história como a instituição chegou ao que é hoje – inclusive com um plano de marketing para retirá-la do atoleiro em que estava e um financiamento pedido no governo de FHC junto à França. Mas, mostra também os riscos que se corre hoje. Um artigo que, pelo que apuramos, provocou ira e revolta em muitos delegados, como mais uma demonstração do racha que existe na categoria. Por achá-lo atual e interessantíssimo, trouxe para o blog:
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Armando, contra o impeachment, crítico à Operação Lava-Jato e discordando do encaminhamento da campanha salarial que seus colegas fazem.
DA SATIAGRAHA À OPERAÇÃO LAVA-JATO
Excessos de otimismo à parte, a Polícia Federal já foi atacada de todas as formas, conforme a conveniência do opositor. Já foi rotulada de Polícia da Ditadura, Polícia do Fernando Collor de Mello, Polícia do Fernando Henrique Cardoso ou Polícia do Lula (Luiz Inácio Lula da Silva). Todas as expressões foram empregadas com sentido pejorativo. E, como dito, ao sabor do opositor, pois durante a Operação Satiagraha, ação policial voltada contra o desvio de verbas públicas, a corrupção e a lavagem de dinheiro (quando vários banqueiros foram presos) a dinâmica deu margem a expressão “Estado Policial”. Uma velada alusão ao estado policialesco.
O resultado concreto da Satiagraha foi a anulação de peças e até de inquéritos. O banqueiro Daniel Dantas foi preso e libertado duas vezes e um dos habeas corpus teria sido despachado na calada da noite, assinado pelo juiz Gilmar Mendes, o mesmo que criticou a “escandalização das prisões” da PF e que hoje, controvertidamente, aplaude os escândalos protagonizados durante a Operação Lava-Jato.
No inventário da Satiagraha, o juiz Fausto De Sanctis (o Sérgio Moro de então) foi processado administrativamente. Já o delegado federal Protógenes Queiroz, acuado pela imprensa e pela própria instituição, exilou-se numa candidatura. Apesar dos quase 200 mil votos, precisou ser arrastado pelo palhaço Tiririca (também candidato e campeão de votos) para eleger-se deputado federal. Protógenes ficou imune temporariamente, mas ao não se reeleger, voltou à PF e foi demitido. Hoje, administra uma polêmica tentativa de volta à instituição.
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Delegado federal José Francisco Mallmann.
Todo esse barulhaço, porém, teve origem num trabalho de marketing que começou, não necessariamente com esse objetivo, no final do governo Fernando Henrique Cardoso – uma fase obscura da Polícia Federal. Naquela época, tempos em que a França ainda dispunha de algum dinheiro, aquele país emprestou ao Brasil considerável verba destinada à aplicação na área de segurança, beneficiando particularmente a Polícia Federal. O dinheiro, entretanto, estava vinculado a um planejamento operacional. Sem planejamento para a aplicação da verba, o dinheiro não seria liberado, embora já creditado na conta do Brasil.
Tempos angustiantes para o eficiente delegado federal José Francisco Mallmann, integrante da cúpula da PF, em Brasília/DF, um dedicado servidor que gerenciava crises policiais do governante da época.
Em uma delas, para atender reclamos da sociedade, criou-se o Fundo para Aparelhamento e Operacionalização das Atividades-fim da Polícia Federal (Funapol), voltado para o custeio e manutenção das atividades da Polícia Federal (PF).
O fundo, que seria uma melhoria de caixa da PF, muito cedo veio a cair na vala comum do orçamento da União e nada, praticamente nada, passou a retornar à instituição.
Pois bem, Mallmann vivia em busca de alternativas e aliou-se a uma legião de servidores da instituição. Dessa união resultou um grupo para criar um planejamento quinquenal para o uso da tal verba da França, um empréstimo, aliás, sobre a qual o Brasil já pagava juros mesmo sem usar, e não o usava, pasmem (!) por falta de planejamento.
Um ano de trabalho transcorreu, no qual delegados, peritos, agentes, escrivães e servidores administrativos, alojados na Academia Nacional de Polícia (Sobradinho/DF) empenharam-se e criaram um planejamento plurianual para aplicação da verba em cinco anos.
O ovo da galinha e a escandalização – Teve início a elaboração de um Plano Quinquenal que descia a detalhes, inclusive o de dar visibilidade à Polícia Federal. E um dos motivos ocultos pode ser revelado agora: uma briga que sobrevive até hoje com o Ministério Público Federal, já que as queixas internas eram e são frequentes. “Nós trabalhamos e os que aparecem são os procuradores da República”. Um publicitário que participou dos trabalhos disse então, durante uma sessão de atividades, que “o ovo da galinha faz mais sucesso do que o da pata porque ela faz mais barulho quando o põe”…
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Operação Satiagraha. Foto de Fenapef.
Nessa trilha da PF em ação, concretizado o plano, o barulho do ovo da galinha veio através de diligências pirotécnicas e controvertidas com nomes esquisitos (grotescos ou pitorescos) que caíram no gosto popular. Servem de exemplo as operações Gasparzinho, Alegoria da Caverna, Carniça, Pintando o Sette, Trem Fantasma e a atualíssima Lava-Jato, entre tantas.
Uma mão na roda para o governo Lula, que foi içado à Presidência da República lastreado por um discurso popular. O Planejamento Quinquenal da PF não foi um parto tranquilo, pois de início, sofreu forte influência de um ex-graduado militar egresso da Marinha que pôs em prática um tal Método Grumbach de Gestão Estratégica, que através de uma suposta metodologia de computador geraria um processamento de análises prospectivas. Leia-se, projeção lógica do que poderia acontecer.
Dessa metodologia surgiu como prioridade algumas “ameaças”, tais como a suposta criação de “Estado Indígena” na região do Amazonas, um ataque ao Brasil por fronteiras, entre outras conclusões “científicas”. Pelo método, várias autoridades de diversos segmentos sociais respondiam questionários e do cruzamento das respostas sairia o veredito. Aliás, um dos questionários recebeu uma irônica resposta do polêmico comentarista da Globo News, Diogo Mainardi. Com nítidos contornos de ideologia militar, originariamente, a conclusão do plano foi recebida com restrições pelos participantes. O cheiro de caserna foi espantado a muito custo (leia-se debates acalorados). Finalmente, o resultado “científico”, sob pressão, atribuiu ao combate à corrupção a prioridade máxima.
“Nós só temos um problema no Brasil, que é a corrupção. Os outros são consequências, derivações dela”, comentou à época Armando Rodrigues Coelho Neto, integrante do grupo e hoje editor da Revista Artigo 5º.
E assim, com pompa e circunstâncias, com cerimônia de entrega e tudo, dentro da Academia Nacional de Polícia, o delegado federal José Francisco Mallmman, ladeado pelo então diretor-geral da instituição, Agílio Monteiro Filho, deu-se a entrega do primeiro Planejamento Quinquenal da Polícia Federal. Um trabalho a ser repassado ao vencedor do pleito eleitoral de 2002. Na prática, um conjunto de enunciados de prioridades consubstanciadas sob o princípio do “Não importa quem vença as eleições; se José Serra (PSDB) ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O plano é republicano”. Venceu Lula, que ao receber cópia do documento, e, ao conhecer seu conteúdo, disse:
“Esse é o plano de meu governo para a Polícia Federal”.
HSBC Gate e Operação Zelote – Aos poucos, a PF mostrou sua nova face, ainda que tropeçando na apelidada “testosterona policial”, numa alusão a ousadia dos novos delegados da PF, “acima do bem e do mal”, como ironizou uma juíza federal de Pernambuco. As interceptações telefônicas, ainda que autorizadas pela Justiça, pareciam ter saído do controle, dando margem até ao folclórico “grampo” do então presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, cujo áudio nunca foi ouvido e nunca se provou que tenha existido.
A denominada “grande mídia” encarregou-se de propalar a onda do grampo, alardeando o tal “Estado Policial”. Desse modo, palavra como “busca” passou a ser tratada editorialmente por “devassa” ou “invasão” e reverberou à exaustão a apologia da privacidade, pouco importando o que estavam a revelar as interceptações telefônicas.
Em nome do princípio da legalidade, hoje aparentemente tão negligenciado, juristas e jornalistas de todos os expoentes teceram loas a esse mesmo princípio – valores nobres inseridos na Constituição Federal. Mas, logo passaram a negar, embalados pelo partidarismo eleitoral. Hoje, a grande mídia, em plena lua de mel com a Polícia Federal, já não prioriza mais aqueles princípios.
Cinismo e hipocrisia – Pelas novas regras, valem o interesse público, os vazamentos seletivos, enquanto os institutos da ampla defesa, presunção de inocência só são lembrados em cantos de páginas de jornal.
Por força da ação da PF, antes mesmo de revelar crimes, involuntariamente, a instituição deixou à mostra os pilares da esquálida democracia no Brasil, para logo a seguir revelar o cinismo e a hipocrisia. Era como se a massa crítica nacional acreditasse em capitalismo samaritano e que as doações de campanha não tinham e nunca tiveram retorno para os doadores.
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Parte do dinheiro envolvido na Operação Zelotes, que pode ser maior que a Lava-Jato.
Será que a sociedade nunca soube ou presumiu que havia corrupção? Sem arriscar resposta, melhor lembrar que recentemente, 8 mil contas de brasileiros apareceram no escândalo do banco britânico HSBC. Nesse “HSBC Gate”, o Brasil figura entre os quatro países com o maior número de clientes. Dinheiro honesto à parte, existem valores frutos de evasão de divisas, sonegação fiscal, tráfico de droga, contrabando, corrupção. Sobre isso, paira o silêncio da grande mídia e nem se tem notícia de vazamentos seletivos ou interesse público.
Esquecido o “HSBC gate”, logo após, veio Operação Zelote da PF, que trouxe à tona sonegação fiscal que atinge R$580 bilhões, com envolvimento de grandes empresas, inclusive multinacionais.
Artigo 5º dedicou a edição nº 37 (março-abril/2014) ao tema corrupção e uma das denúncias ali contidas foi:
Até 1999, a Alemanha permitia que a propina paga em países como o Brasil fossem deduzidas do imposto de rendas das matrizes das empresas naquele pais, segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Quem eram os governantes de então? Que fatos da dimensão ora apontadas fujam do conhecimento ou compreensão da grande massa de analfabetos ou semi é compreensível. Mas que escapem às análises dos expoentes jurídicos, econômicos e da grande mídia parece improvável. Soa, portanto, como falsa a perplexidade e ou surpresa da massa crítica nacional, diante do que a Polícia Federal vem revelando.
“É claro que a circunstância dos fatos estarem a mostra agora não absolve culpados atuais e passados, mas deixa evidente a hipocrisia e o desinteresse dos “grandes debatedores”, que não aprofundam o tema. Pelo contrário, fulanizam e partidarizam-no. O fazem a tal ponto de arranhar a credibilidade não apenas de investigantes, mas do Ministério Público e Justiça Federal, com descarado apoio da dita “grande mídia”.
A PF está mais forte não apenas por ter posto em prática um Plano Quinquenal de ações – já prorrogado por mais quinze anos. Mas também porque, paradoxalmente, só no governo da presidenta Dilma Rousseff foram sancionadas 13 leis e/ou normas que a fortaleceram. A regulamentação da lei de colaboração premiada está entre essas normas. E, de longe, a PF recebeu nos 12 últimos anos mais e melhores recursos materiais e humanos do que em quaisquer outros.
Sobrevivem, no entanto, insatisfações internas entre integrantes da categoria, atualmente agravado pelo contingenciamento de verbas aplicado em todas as áreas, mas que muitos insistem em tratar como “desmonte” da PF, como se caso único fosse. Na prática, um forte apelo popular em nome da Operação Lava-Jato, que vem apimentando uma justa campanha salarial, ainda que viciada pelo tenso clima político”.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Cuba, o ebola e o compromisso cubano com a África

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Entramos em 2016 e a epidemia de ebola na África se aproxima do final, graças a um esforço global liderado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) no qual Cuba teve um papel importante, assim como em outras batalhas vitoriosas nesse continente.
Mais de dois anos depois do surto de febre hemorrágica ter começado, em Guiné, as redes de transmissão do vírus foram interrompidas e a Libéria e Serra Leoa vão pelo mesmo caminho, segundo a OMS. A notícia foi recebida com alegria e esperança nesses três países, os mais afetados pela doença, que só ali contagiou 29 mil pessoas e provocou a morte de 11.300.
Este vírus foi detectado pela primeira vez em 1976 na África Central e seu nome se deve a sua descoberta em uma aldeia da República Democrática do Congo situada perto do rio Ébola.
Trata-se de uma doença grave, frequentemente mortal, que provoca febres elevadas, dores musculares, de cabeça e garganta, disfunção renal e hepática e hemorragias internas e externas.
O mais recente surto que começou em Guiné no final de 2013 é o pior registrado até agora, com uma taxa de mortalidade entre 50 e 90%.
A epidemia não teve repercussões negativas só na saúde, mas também alterou a vida econômica e social do povo e afetou todos os setores, entre eles a educação, o comércio, o turismo e o transporte.
Em momentos em que muitos temiam que o vírus acabasse vencendo a humanidade, a OMS e a ONU lançaram um chamado a todos os países a comprometer seus esforços no combate ao ebola.
Durante uma reunião realizada em setembro de 2014 em Genebra, Cuba foi o primeiro país a dar uma resposta à emergência, com o anúncio do envio a Serra Leoa de 165 colaboradores.
O contingente estava integrado por 62 médicos e 103 enfermeiros com mais de 15 anos de experiência profissional e que já tinham trabalhado em países abalados por desastres naturais e de saúde.
“Para uma nação tão pequena, a quantidade de médicos e enfermeiras que estão enviando e a rapidez com que responderam, é realmente maravilhoso”, disse naquela ocasião à Prensa Latina a diretora geral da OMS, Margaret Chan.
A diretora agradeceu a generosidade do governo e dos profissionais cubanos e destacou que se tratava da maior resposta recebida até esse momento por um Estado no combate à emergência. Ainda que sejam necessários todo tipo de esforço em todo o mundo, desde laboratórios móveis até salas de isolamento, o primeiro são os recursos humanos.
“O mais importante são as pessoas; pessoas que sentem compaixão, médicos e enfermeiras que saibam como reconfortar os pacientes e também saibam como se manter a si mesmos a salvo”, disse Chan.
Ao todo, Cuba enviou à África 256 colaboradores do contingente Henry Reeve que conseguiram salvar centenas de vidas e trabalharam não só na atenção direta aos pacientes, mas também na prevenção.
Para ajudar a combater o problema, as autoridades cubanas expressaram, inclusive, a disposição dos especialistas da Ilha a trabalhar lado a lado com profissionais da área médica dos Estados Unidos, um país com o qual estavam interrompidas as relações diplomáticas há mais de meio século.
“Eu sabia que Cuba não nos deixaria sozinhos. Vocês são fiéis a sua oringem, a suas raízes africanas, isso é o que Fidel lhes ensinou”, disse o presidente de Serra Leoa, Ernest Bai Koroma.
O altruísmo dos médicos cubanos não é um fato isolado, mas faz parte da solidariedade mantida pela Revolução para o continente africano quase desde o triunfo de 1959.
Em 1963, a maior das Antilhas enviou a primeira brigada à Argélia e no último meio século mais de 76.700 colaboradores em saúde cooperaram com 39 países africanos.
A ajuda não se limita ao campo da saúde, mas abarca também outras esferas como educação, esportes, cultura e as ciências.
Menção aparte merece a valiosa contribuição internacionalista de Cuba à libertação de Angola, à independência da Namíbia e ao fim do vergonhoso regime de apartheid na África do Sul.
Recentemente, cumpriram-se 40 anos da proclamação da independência angolana, ocasião na qual vários líderes políticos desse país destacaram o apoio solidário da Revolução Cubana que permitiu mudar o mapa político no sul da África.
O fato foi lembrado também durante o 6º Período de Sessões da Assembleia Nacional do Poder Popular, realizado em dezembro, onde o presidente cubano Raul Castro reiterou que seu país continuará cumprindo seus compromissos de cooperação com as nações africanas.

Riqueza dos 1% mais ricos supera a de 99% no mundo

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A riqueza acumulada por 1% da população mundial, os mais ricos, superou a dos 99% restantes em 2015, um ano mais cedo do que se previa, informou na segunda-feira, dia 18/1, a organização não governamental (ONG) Oxfam, a dois dias do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça.
“O fosso entre a parcela dos mais ricos e o resto da população aumentou de forma dramática nos últimos 12 meses”, diz relatório da ONG britânica intitulado Uma economia a serviço de 1%.
“No ano passado, a Oxfam estimava que isso fosse ocorrer em 2016. No entanto, aconteceu em 2015, um ano antes”, destaca no texto.
Para mostrar o agravamento da desigualdade nos últimos anos, a organização estima que “62 pessoas têm tanto capital como a metade mais pobre da população mundial”, quando, há cinco anos, era a riqueza de 388 pessoas que estava equiparada a essa metade.
A dois dias do Fórum Econômico Mundial de Davos, onde vão se encontrar os líderes políticos e representantes das empresas mais influentes do mundo, a Oxfam pede a ação dos países em relação a essa realidade.
“Não podemos continuar a deixar que milhões de pessoas tenham fome, quando os recursos para ajuda estão concentrados, no mais alto nível, em tão poucas pessoas”, afirma Manon Aubry, diretora dos Assuntos de Justiça Fiscal e Desigualdades da Oxfam na França, citada pela agência de notícias France Presse (AFP).
Segundo a ONG, “desde o início do século 21 a metade mais pobre da humanidade se beneficia de menos de 1% do aumento total da riqueza mundial, enquanto a parcela de 1% dos mais ricos partilharam metade do mesmo aumento”.
Para combater o crescimento dessas desigualdades, a Oxfam pede o fim da “era dos paraísos fiscais”, acrescentando que nove em dez empresas que figuram entre “os sócios estratégicos” do Fórum Econômico Mundial de Davos “estão presentes em pelo menos um paraíso fiscal”.
“Devemos abordar os governos, as empresas e as elites econômicas presentes em Davos para que se empenhem a fim de acabar com esta era de paraísos fiscais, que alimenta as desigualdades globais”, diz Winnie Byanyima, diretor-geral da Oxfam International, que estará em Davos.
No ano passado, vários economistas contestaram a metodologia utilizada pela Oxfam. A ONG defendeu o método utilizado no estudo de forma simples: o cálculo do patrimônio líquido, ou seja, os ativos menos a dívida.
A pequena localidade suíça de Davos vai acolher, a partir de quarta-feira, dia 20/1, líderes políticos e empresários para debater a 4ª Revolução Industrial.
Esta 46ª edição do fórum, que termina em 23 de janeiro, ocorre no momento em que o medo da ameaça terrorista e a falta de respostas coerentes para a crise de refugiados na Europa se juntam às dificuldades que a economia mundial encontra para voltar a crescer e à forte desaceleração das economias emergentes.
Segundo o presidente do fórum, Klaus Schwab, a “4ª revolução industrial refere-se à fusão das tecnologias”, principalmente no mundo digital, que “tem efeitos muito importantes nos sistemas político, econômico e social”.

De capacho da ditadura a racista da Globo

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Ao contrário do que rosna Alexandre Garcia, estudos comprovam que os alunos cotistas têm desempenho acadêmico superior ao dos não-cotistas.
O jornalista global Alexandre Garcia parece que anda bastante incomodado com as cotas nas universidades e com a ascensão social de setores antes totalmente excluídos da sociedade. Será que o veterano, famoso por seu elitismo, teme a concorrência? Nesta semana, no noticiário local da TV Globo do Distrito Federal, ele voltou a esbanjar preconceito, racismo... e ignorância! “Temos de pensar na qualidade do ensino. Aqui no Brasil ele é todo assim por pistolão, empurrãozinho e ajuda. A tradução disso é a cota. Aí põe um monte de gente [na faculdade]... Só 67%, você viu, passaram por mérito”, esbravejou, ao comentar o resultado dos exames para ingresso na Universidade de Brasília (UnB).
O comentário asqueroso gerou imediata reação nas redes sociais de estudantes, professores e movimentos que lutam contra o racismo. Alguns internautas lembraram que, ao contrário do que rosna o âncora global, estudos do Ministério da Educação comprovam que os alunos cotistas têm desempenho acadêmico superior ao dos não-cotistas. Professores da rede estadual manifestaram a sua satisfação com o ingresso de jovens das escolas públicas na UnB. Para o presidente da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Edson França, as declarações de Alexandre Garcia revelam o racismo presente na mídia brasileira. “A Rede Globo foi protagonista na resistência às cotas. A emissora usou de todos os meios para combater esse sistema. Ela não vai mudar o seu pensamento, que, aliás, é um pensamento que vem sendo derrotado e não é de hoje”.
Esta não é primeira vez que o jornalista global explícita sua visão racista, elitista e manipuladora. Em outubro do ano passado, no telejornal “Bom Dia Brasil”, o sujeito tacanho chegou a afirmar que “o país não era racista até criarem as cotas”. O rico apresentador estava irritado com a criação do cadastro do “Simples Doméstico”, o programa do governo Dilma que garante direitos trabalhistas para os empregados domésticos. Em outras ocasiões, o subserviente Alexandre Garcia já havia demonstrado total concordância com o poderoso carrasco da emissora, Ali Kamel, o diretor de jornalismo da Rede Globo que obrou o clássico Não somos racistas.
Com suas pérolas racistas, Alexandre Garcia até vai conseguindo ofuscar o seu vexaminoso passado, quando foi porta-voz do general João Batista Figueiredo, último carrasco do regime militar – sendo exonerado por ter posado seminu numa foto para uma revista masculina. De capacho da ditadura, com suas torturas e assassinatos, para apologista do ódio e do preconceito racista. Baita biografia!

Alemanha à beira de um ataque de nervos

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A polarização da sociedade alemã está chegando aos píncaros e aos nervos. Depois do arrastão da noite de Ano-Novo em Colônia, os desdobramentos se sucederam. No fim de semana houve três manifestações na cidade: uma das mulheres contra a violência; outra do movimento Pegida, de extrema-direita, contra os refugiados; e uma terceira, de esquerda, contra o Pegida. Até aí tudo bem, embora este “bem” não fosse nada bem.
Mas no domingo, dia 10/1, à noite, o caldo engrossou: bandos de extrema-direita saíram pela cidade atacando estrangeiros a esmo. Dois paquistaneses e um sírio, que nada tinham a ver com o arrastão, foram hospitalizados em estado grave. Na segunda-feira, dia 11/1, houve manifestações de direita e esquerda em Leipzig. Os Legida – grupo local da Pegida – saíram pela cidade em direção a bairros “de esquerda”, depredando lojas, apedrejando casas etc.
A polícia acorreu, fazendo 211 prisões. Em Potsdam também houve manifestações de direita e de esquerda. Um ônibus cheio de manifestantes de direita foi surpreendido pelos manifestantes contrários e apedrejado. A polícia interveio, foi apedrejada pelos de esquerda. Resultado: aplicaram o método Alckmin e baixaram o pau.
Ao mesmo tempo houve informações de que o arrastão do Ano Novo, contra mulheres, não foi coisa apenas de embriagados ou “espontânea”. Houve convocação pelas redes sociais, e um grande número dos mil jovens que se reuniram em frente à Estação Central da cidade vieram de fora. Até o momento, ninguém sabe o que fazer com toda esta carga pesada.
E ontem, nova bomba: desta vez literalmente. No ataque suicida de Istambul, dez turistas foram mortos, além do atacante. Primeiro, disseram que eram 8 alemães. Depois, nove. Na quarta-feira, dia 13/1, o ministro da Defesa alemão, Thomas de Maizière, disse que os dez eram alemães. Apesar de ele dizer que não havia indícios, o próprio ataque sugere que foi uma retaliação do Estado Islâmico contra a entrada da Alemanha na coalizão que luta contra ele na Síria e no Iraque.
Há 15 feridos, entre eles mais seis alemães, uma peruana e um norueguês, que não correm risco de morrer. A nacionalidade dos outros ainda não foi revelada.
Por outro lado, nesta quarta houve o anúncio de mais ataques suicidas: um em Camarões, perpetrado por duas mulheres, matando mais dez pessoas numa mesquita na fronteira com a Nigéria. Outro no Paquistão, matando 15 agentes de segurança envolvidos numa campanha de vacinação. O primeiro foi atribuído ao Boko Haram. O segundo, ainda não se sabe.
Parece uma epidemia pior do que a do ebola. Tudo está muito feio e tenso por aqui. A xenofobia cresce, condena-se aberta ou veladamente a “ingenuidade” dos que querem receber positivamente os refugiados, enfim, estamos regredindo em direção aos tempos da República de Weimar.
E a nova edição impressa do Main Kampf, agora que caiu no domínio público, se esgotou em poucos dias. É uma edição séria, anotada, contextualizada, antinazista, feita pelo Instituto Histórico de Munique. É bem-vinda, uma vez que era necessária uma edição deste tipo, abalizada por séria pesquisa de caráter acadêmico.
Mas que sombras pairam no horizonte, pairam. Como diz um ditado gaúcho, a coisa é feia e vem se debruçando.

A trágica normalidade da América Latina e a desconfiança

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Antes das ciências sociais a literatura latino-americana tenha sido a primeira a constatar o caráter trágico na América Latina e a normalidade e naturalidade que essa tragédia adquire entre nós. Nos importamos e nos impressionamos com as tragédias dos outros, não com as nossas. Aqui “tudo é normal”, registraram os escritores. Essa normalidade nos conduziu a três condições excepcionais no mundo e sequer as percebemos ou as tratamos com seriedade. A América Latina é a região mais desigual do mundo, a mais violenta do mundo e a que tem o nível mais baixo de confiabilidade interpessoal do mundo. Certamente, as três condições estão relacionadas entre si e a desigualdade é a raiz das outras duas.
Na história da humanidade, as diversas histórias singulares e significativas mostraram que os grandes empreendimentos, as grandes e pequenas lutas pela liberdade, a conquista da glória, formaram acontecimentos que sempre tinham por base relações de confiança, um sentimento de comunidade e de pertencimento fundado numa noção de igualdade. Foi assim entre os cidadãos de Atenas antiga, entre os hebreus que buscaram a terra prometida, entre o popolo romano antigo que conteve os abusos da nobreza, entre os colonos que libertaram os Estados Unidos, entre os citoyens que derrubaram a tirania, entre os camaradas e companheiros que fizeram revoluções, entre os soldados nos campos de batalha entre os trabalhadores modernos que lutaram e lutam pelos seus direitos. Formar uma vontade coletiva e uma organização que reúna os esforços de vários indivíduos isolados é condição para o êxito da luta seja ela econômica, política, ideológica, religiosa, nacional etc. Essa vontade coletiva só se forma se houver confiança interpessoal e nas lideranças.
Sem confiança não há construção comum de qualquer projeto de futuro. A confiança implica que os outros ou as instituições ajam de acordo com o que se espera delas: o governo deve governar com eficácia e produzir o bem comum, a polícia deve proteger o cidadão, o deputado deve representar os interesses dos representados de forma honesta, o partido deve defender causas justas e éticas; o motorista deve parar no sinal vermelho, os fabricantes devem produzir produtos de qualidade e que não prejudiquem o consumidor, o sistema de saúde deve atender os necessitados com zelo e perícia, o vizinho deve ser cordato e solícito, o colega de trabalho deve ser solidário e assim por diante. Sem essas relações de confiança a vida social se torna muito difícil.
Desigualdade e desconfiança na América LatinaO Instituto Latinobarometro, sediado em Santiago do Chile, vem promovendo uma inestimável pesquisa sobre a democracia na América Latina há 20 anos, completados em 2015. Dentre os vários itens pesquisados um é o da “confiança”, tanto na sua dimensão da relação dos indivíduos com as instituições políticas, sociais e privadas, quanto na dimensão das relações pessoais.
Pois bem. As pesquisas do Instituto Latinobarometro mostram que a América Latina não funciona com base em relações de confiança. A violação das leis e das normas, a puxada de tapete, a lei de Gerson, o jeitinho, a fraude social, os atestados falsos, a compra e venda de documentos, o engodo político, a demagogia e a falta de solidariedade, de compromisso e de responsabilidade social são condutas generalizadas na região.
Desconfiança e baixo nível de organização e de participação social são consequências diretas dessa situação. Esses comportamentos não são exceções. A ação visando o melhor proveito pessoal, em detrimento do coletivo ou dos outros é regra. Proveito pessoal, todos querem. Mas o que se trata aqui, segundo o estudo, é do proveito pessoal adicional, obtido pela fraude social.
As ciências sociais mostraram que na América Latina a democracia sempre foi um mal-entendido, uma ideia fora do lugar, um sistema de privilégios, um instrumento de promoção da desigualdade e da violência das elites latino-americanas contra os mais pobres. A consequência foi essa violência social generalizada, o agravamento das desigualdades, essa trágica normalidade. O pior é que não há muitas esperanças. A situação parece regredir.
A média da confiança interpessoal nos 20 anos de pesquisa é de apenas 17%. Uruguai, Argentina e Panamá lideram o ranking com 22% de confiança entre as pessoas. O Brasil aparece em último lugar com apenas 7%. Quanto às instituições da democracia, os resultados de 2015 mostram que os governos aparecem com uma média de 33% de confiança; os Congressos com 37%; o Judiciário com 30% e os partidos com 20%.
Em 1995, quando a pesquisa começou a ser feita, os governos apareciam com 44%, os Congressos com 38%, o Judiciário com 37% e os partidos com 27%. A partir de 2010 passou-se a incluir o Estado como um item específico, que aprecia com 42% e hoje aparece com 34%. Outro dado interessante se refere aos sindicatos: eles apareciam com 35% e hoje têm 29%. Mesmo as instituições mais confiáveis como Igreja, Forças Armadas, Imprensa etc., todas apresentam quedas nos índices de confiança que inspiram. As empresas privadas aparecem numa faixa intermediária entre essas instituições melhor avaliadas e as instituições da democracia.
Os números mostram que de cada 10 latino-americanos 6 não confiam nas instituições da democracia. As alternativas políticas de direita, centro-liberal e esquerda não conseguiram produzir resultados expressivamente diferentes umas das outras, o que mostra que a região está mergulhada em grave crise de perspectivas em relação ao futuro. As diferentes alternativas parecem mover-se na lógica de produzirem resultados razoáveis quando ascendem ao poder para acabar em crise. Os novos ciclos de governos de alternativas que se alternam não são capazes de romper a trágica normalidade. O Uruguai é a única exceção, pois vem conseguindo aumentar os índices de confiança em todas as instituições da democracia com o passar dos anos.
O advento da Internet não conseguiu melhorar a confiança dos latino-americanos. A debilidade das redes sociais, das organizações da sociedade civil e dos valores de solidariedade e de comunidade resultam da disseminação da cultura de que apenas o esforço individual, mesmo que através da burla e da fraude social, é o caminho mais adequado para melhorar de vida. A profunda desigualdade da região gera violência e desconfiança. A conclusão do estudo indica que os níveis de confiança só crescerão com o avanço da democracia. A democracia só avançará se as desigualdades econômicas, sociais e de poder forem reduzidas. O desmantelamento das desigualdades requer luta solidária e empreendimentos sociais coletivos.

Dilma acaba com mamata do Judiciário e MP. Marajás se revoltam!

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Na verdade, a presidente apenas sancionou uma lei que impõe algumas restrições ao uso do auxílio moradia, até então distribuído indiscriminadamente a juízes e procuradores.
Foi o bastante para os marajás se revoltarem.
Os paneleiros, calados.
A mídia, cúmplice.
Se for para baixar salário de professor, aí vale distribuir cacetada, com apoio da mídia.
Será que isso tem a ver com o que os marxistas chamam de luta de classes?
O FIM DO AUXÍLIO MORADIA PARA JUÍZES E PROCURADORES CAUSA REVOLTA E VAI AO STF
A presidente Dilma sancionou a Lei de Diretrizes Orçamentárias que acaba com o privilégio das autoridades.
Uma decisão da presidente Dilma Rousseff vem causando insatisfação entre procuradores e juízes. A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), aprovada pelo Congresso e sancionada por Dilma, restringiu os gastos com auxílio-moradia de políticos, autoridades e servidores.
Mas, procuradores e magistrados, porém, ameaçam recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para derrubar as restrições, informa reportagem de Eduardo Militão, publicada no Correio Braziliense.
O benefício de R$4.377 por mês é utilizado, em alguns casos, para ultrapassar o teto constitucional de R$33 mil – manobra que os novos limites impostos pela LDO buscam coibir. A norma estabelece que, para receber a verba indenizatória, será preciso apresentar o recibo do gasto com aluguel ou hotel, requisito até então não exigido de magistrados e membros do Ministério Público.
A LDO também especifica que o auxílio-moradia não será fornecido caso a pessoa ou seu cônjuge tenha residência própria.
Quando a lei foi aprovada pelo Congresso, em 17 de dezembro, oito associações de juízes, promotores e procuradores ameaçaram ir ao Supremo se Dilma não vetasse a medida. “Não se hesitará em adotar as providências pertinentes no âmbito do Supremo Tribunal Federal, guardião maior da Constituição”, disseram em nota divulgada à época.
O presidente da Associação de Juízes Federais (Ajufe), Antônio César Bochenek, disse ao jornal que as entidades ainda estudam a elaboração de uma ação direta de inconstitucionalidade no STF. Já o presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), João Ricardo Costa, informou que o assunto só deverá ser tratado a partir do dia 15.
Para o grupo, a LDO é inconstitucional porque é uma lei comum que tratou de assuntos já regulados por duas leis complementares que regem a magistratura e a procuradoria.

A morte da imaginação

Especialistas em informática previram que, num futuro não muito distante, chips serão implantados no corpo. Estão atrasados. Corpos já pertencem a máquinas.

Nunca entendi essa obsessão por sorrisos em fotografias. Deve ser um conluio com os dentistas. (Nora Tausz Rónai)

Reza uma antiga lenda que dois reinos estavam em guerra. Os perdedores acabaram condenados ao confinamento do outro lado dos espelhos, um primitivo mundo virtual em que eram obrigados a reproduzir tudo o que os vencedores faziam. A luta dos derrotados passava a ser como escapar daquela prisão. O genial Lee Falk inspirou-se nesta narrativa para criar, na década de 1940, O mundo do espelho, para mim uma das mais aterrorizantes histórias do Mandrake. Espelhos foram, aliás, protagonistas de algumas sequências cinematográficas assustadoras. Bóris Karloff, um clássico do gênero, aproveitou muito bem o medo, que desde crianças carregamos, de que nossos reflexos nos espelhos ganhem autonomia. Ui! Já imaginaram se isso virasse realidade? Teríamos que conviver com nossos opostos, um estranhamento no mínimo desconfortável. Os quadrinhos exploraram o assunto também na série do Mundo bizarro, do Super-Homem. Era um nonsense pouco habitual no universo previsível dos super-heróis.

Estava pensando nos estranhamentos do mundo moderno quando me deparei com uma pequena nota de jornal. Encenava-se a ópera Carmen, de Bizet, no Theatro Municipal do Rio. Suponho que a plateia, que pagou caro, estava mergulhada na história e na interpretação da orquestra e dos solistas. Não é que um cidadão saca seu iPad e passa um tempão checando os e-mails, dedinhos nervosos para cima e para baixo, com a tela iluminando a penumbra indispensável para a fruição plena do espetáculo? Como esse tipo de desrespeito está entrando na “normalidade”, apenas uma pessoa esboçou reação. Uma espécie de angústia semelhante à incontinência urinária se espalha como praga nas relações pessoais e no uso dos espaços público e privado. Tudo passou a ser urgente. Todos os torpedos, e-mails e chamadas no celular viraram prioridade, casos de vida ou morte. Interrompem-se conversas para olhar telinhas e telonas, desrespeitando interlocutores. Como este tipo de patologia tende a se diversificar, já há gente que conversa (?) e olha o computador ao mesmo tempo, como aqueles lagartos esquisitos cujos olhos se movimentam sem aparente coordenação. Outros participam de reuniões sem desligar sua tralha eletrônica (na verdade, não estão nas reuniões). Especialistas em informática previram que, num futuro não muito distante, chips serão implantados no corpo. Estão atrasados. Corpos já pertencem a máquinas. A vida é controlada à distância e por outros.

Outro estranhamento vem da inundação de imagens, aflição que chamo de galeria dos sem imaginação. Enxurradas de fotos invadem o espaço virtual, a enorme maioria delas sem o menor significado e perfeitamente descartáveis. O Instagram recebe 60 milhões de fotos por dia, ou seja, quase 700 fotos por segundo! Fico pensando no sorriso irônico ou, quem sabe, no horror em estado bruto, que Cartier-Bresson esboçaria se esbarrasse nisso. Ele, que procurava a poesia nos pequenos gestos, no cotidiano que se desdobrava em surpresas, nos reflexos impensados, jamais empilharia a coleção de sorrisos forçados que caracteriza a obsessão pelos clics.

Essa história dos sorrisos foi muito bem notada pela Nora Rónai, que citei logo no início. Vivemos a era das aparências. Com a multiplicação das imagens, vem a obrigação de “estar bem”. Afinal de contas, quem vai querer se exibir no Facebook ou nas trocas de mensagens com uma ponta de melancolia ou, pelo menos, um suspiro de realidade? O mundinho virtual exige estado de êxtase permanente. Uma persona que não passa de ilusão. Criatividade não quer dizer tristeza, claro, mas certamente precisa incorporá-la como tijolo construtor da nossa personalidade. O resto é fofoca. Eric Nepomuceno, tradutor e escritor, fez o seguinte comentário sobre seu amigo Gabriel Garcia Márquez, que acabara de morrer: “Tudo o que ele escreveu é revelador da infinita capacidade de poesia contida na vida humana. O eixo, porém, foi sempre o mesmo, ao redor do qual giramos todos: a solidão e a esperança perene de encontrar antídotos contra essa condenação”. Nada que essas maquininhas onipresentes possam registrar, elas que jamais entenderiam a fina ironia de Fernando Pessoa no Poema em linha reta, que começa assim: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”. Mais adiante: “Arre, estou farto de semideuses. Onde é que há gente nesse mundo ?”.

A praga narcísica desembarcou nas camas. Leio que nova moda é fazer selfies depois do sexo. O casal transa, mas isso não basta. É urgente compartilhar! Tira-se uma foto da aparência de ambos, coloca-se no Instagram e ... pronto. O mundo inteiro será testemunha de um momento íntimo, talvez o mais íntimo de todos. Meu estranhamento vai ao paroxismo. É a esse mundo que pertenço? Antigamente, era costume dizer que o que não aparecia na televisão não existia. Atualizando a frase: pelo visto, o que não está na rede não existe. É a universalização do movimento apenas muscular, sem sentido, leviano, rapidamente perecível.

Durante o exílio, o poeta argentino Juan Gelman passou um bom tempo sem conseguir escrever. A inspiração não vinha. Disse ele: “A poesia é uma senhora que nos visita ou não. Convocá-la é uma impertinência inútil. Durante uns bons quatro anos, o choque do exílio fez com que essa senhora não me visitasse”. Quando, finalmente, a senhora chega, tudo muda, como narra o poeta: “A visita é como uma obsessão. Uma espécie de ruído junto ao ouvido. Escrevo para entender o que está acontecendo”. Não consigo imaginar uma serenidade como essa no mundo virtual. Tudo nasce e morre antes de ser completamente absorvido. Cada novidade passa a ser vital, filas se formam nas madrugadas nas portas de lojas que começam a vender modelos mais avançados de produtos eletrônicos. Não dá pra esperar um dia, muito menos uma hora. O silêncio e a introspecção são guerrilheiros no habitat plugado. Estou me alistando neste exército de Brancaleone.

O consumidor virtual e o consumidor real

Qual o papel dos consumidores no mundo contemporâneo? Seguem todos eles os desígnios impostos pelo mercado, quais sejam de entrar e sair de lojas de departamentos, supermercados, lojas de prestação de serviços, feiras, ruas de comércio, enfim do conjunto da meca do comércio e serviços, para darem conta de suas necessidades de consumo.

Como lembrava Marx tempos atrás, a construção capitalista da forma de produção de bens, mas também de serviços, quando mercadorias à disposição do consumo final, acabou por encobrir as etapas anteriores de fabricação dos produtos.

O chamado fetiche das mercadorias, a necessidade ou o glamour da aquisição de produtos, faz com que o consumidor adquira sua cesta de necessidades de bens e serviços, como pacote fechado, isto é, sem identificar quem produziu, com que produziu e em que condições foi produzido.

Assim, os grandes grupos vendem o marketing embutido nos produtos como o sinal mais evidente de sucesso, experiência e qualidade. A tecnologia dos carros modernos, a beleza dos efeitos dos produtos cosméticos, a resistência das fibras das malhas e tecidos de roupas em geral, os tênis que levam os usuários a terem impressão de voarem ou andarem descalços. E assim por diante.

Na época histórica do artesanato, o mercado era formado por bens e serviços dos quais se conheciam os seus produtores. Sabia-se das características de cada um, suas habilidades, as qualidades de seus produtos, toda a sorte de informações que levava o comprador a ir em busca dos produtos daquele artesão e só dele.

Hoje ao se ir ao mercado, o grande mercado moderno, espalhado em suas mais variadas formas de apresentação de produtos e serviços, em ruas, alamedas, shoppings, entre outras modalidades, não se tem mais essa informação. Compra-se somente o produto final e de que grupo industrial o fabricou. Nada mais.

E por que não se sabe mais? Uma das razões básicas mais determinantes é o fato de o consumidor moderno não ir em busca dessa simples informação. Ao adquirir o produto, ele compra o pacote fechado, caixa preta, apenas para seu uso pessoal. Para sua necessidade ou satisfação.

Não se dá conta, no entanto, que ao fazer assim ele está também aceitando as condições finais da compra, as quais não revelam as etapas anteriores de produção: quem de fato produziu, em que condições de trabalho e fabricação e em que estado do meio ambiente.

Ao assim proceder, todos nós consumidores estamos garantindo que os produtos adquiridos sejam reconhecidos como tais e garantindo que eles continuem a ser produzidos do mesmo modo dali para frente. Estamos comprando produtos e suas condições de trabalho e produção. Somos os responsáveis finais pela manutenção continuada dos mesmos produtores e de suas estratégias de fabricação e venda.

Nós consumidores somos responsáveis ao fim e ao cabo por ratificar a forma de produção do capitalismo contemporâneo. Querendo ou não. Compramos às escuras e os produtores mantém às escuras as formas com as quais extraem, organizam, fabricam e vendem seus produtos. Nossas compras no mercado chancelam tudo isso.

Assim, não adianta se assustar ao descobrir que grandes grupos industriais modernos utilizam mão de obra escrava na fabricação de seus produtos, ou mão de obra infantil, ou inseticidas e produtos transgênicos na produção de hortaliças, grãos e achocolatados. Entre tantos outros.

Nem mesmo se indignar pela depredação do meio ambiente, degradação das condições de trabalho, utilização intensiva de trabalhadores clandestinos e crianças, corrupção localizada ou disseminada, escassez de produtos por estratégia empresarial.

Há que se desvestir da roupa de consumidores e desvendar a caixa preta dos produtos expostos no mercado. Nós consumidores temos de assumir o papel de investigadores do que compramos, do que consumimos, do que garantimos a permanência no mercado.

Vejam um exemplo clássico de combate e resistência dos consumidores. Em 1995 o governo britânico, ao apoiar a Shell UK de afundar sua instalação de reserva de petróleo Brent Spar no mar do Norte a 2,5 quilômetros de profundidade no oceano Atlântico, recebeu uma pressão inusitada da população europeia com o apoio do Greenpeace.

A oposição pública e política, ao lado do boicote generalizado aos postos de gasolina (estações de serviços) da Shell, além de outros incidentes localizados, fez com que a empresa abandonasse seu intento, recuperando a instalação ao traze-la para a terra. Em 1998 parte dela foi reutilizada na construção de novas instalações portuárias próximas a Stavanger, Noruega.

Os consumidores desempenharam seu devido papel como compradores conscientes. Mais que isto, como re-orientadores dos interesses das empresas, do capital, em benefício do meio ambiente no caso, para que a produção de petróleo atendesse o mínimo de respeito, garantia e proteção da natureza, mas também da população.

Outros exemplos anteriores foram anunciados nos casos de denúncias de grandes empresas ofertando em suas dependências produtos feitos por mão de obra infantil (Nike) e mão de obra escrava (Zara, Gregory, C&A). Já a Starbucks estaria no rol daquelas que defendem as empresas que vendem produtos transgênicos como se fossem naturais, orgânicos.

Na contramão desse movimento de resistência dos consumidores, o Congresso Nacional do Brasil acabou de aprovar a retirada da letra “T”, designando transgênico, dos produtos que mantém esses ingredientes na sua fabricação. Assim, volta o consumidor a adquirir gato por lebre, mais uma vez enganado por venda às escuras. Sofre o meio ambiente, é afetada a saúde dos consumidores, mantém-se os interesses do capital.

Do consumidor virtual ao consumidor real, essa a proposta de retomada dos movimentos sociais. Talvez uma alternativa mais vigorosa, eficiente e benéfica para todos. Dar limites à acumulação predatória do capital. Ganha o consumidor, satisfaz plenamente a sociedade, salva-se o meio ambiente, humaniza-se as condições de trabalho e produção.

Acima de tudo consegue-se fazer frente à sanha desenfreada do capitalismo de a tudo explorar para lucrar sempre mais e mais independentemente dos trabalhadores, dos cidadãos, da natureza.

Toda caminhada começa nos primeiros passos. Cobranças e resistências dos consumidores aqui e ali podem se generalizar e dar conteúdo a um movimento social de protesto consciente e consistente. Deixamos de assinar cheques em branco às empresas e passamos a pagar com os olhos e ouvidos abertos.

A sociedade de amanhã, nossos filhos e netos, vão agradecer nossos primeiros passos e deverão eles seguir em frente levando a bandeira de um mundo melhor, mais saudável, ético e responsável.