domingo, 27 de junho de 2010

A Perda de José Saramago e A Morte da Cultura

Tive uma infeliz surpresa na noite do dia 18 de junho, quando cheguei em casa e fui assistir o telejornal da meia-noite: naquele momento fiquei sabendo do desaparecimento do mestre José Saramago. Morrera na manhã daquele dia, aos 87 anos, em decorrência de “múltipla falha orgânica”, conforme nota da Fundação que leva o seu nome. Saramago vinha sofrendo há mais de um ano com uma leucemia.



Depois de Jorge Amado, José Saramago é (e de imortais, só se deve falar no presente, mesmo após algo filosófico e teológico, que nominaram de MORTE) o escritor que mais admiro e que mais li na vida. Ambos foram comunistas na essência e na construção de inúmeros de seus personagens, amigos e admiradores mútuos em vida. De Jorge Amado, tenho 17 títulos de sua obra e não canso de analisar Ferradas, antes um distrito em que ele nasceu, hoje o bairro em que fica uma Escola na qual trabalho, há cinco anos. Da obra de Saramago, tenho dez títulos: Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Todos os Nomes, O Conto da Ilha Desconhecida, A Caverna, Ensaio Sobre a Lucidez, As Pequenas Memórias e As Intermitências da Morte (esse, ainda de leitura inédita para mim, mas que começarei hoje, em homenagem ao Mestre).



Não há qualquer das turmas de Ensino Médio ou de Pré-Universitários por onde eu tenha passado, que não conheça ao menos a biografia e um dos textos do escritor, e quase todas, pelo menos um de seus livros. Lamento e lamentarei que ainda haja jovens estudantes e até os que (por razões diversas e nenhuma aceitável) não estudem, que não conheçam a vida e a obra deste fabuloso escritor português. O Cristo do seu Evangelho foi o mais humano de todos os que conheci, mesmo eu tendo uma longa convivência com a Bíblia e com a Teologia da Libertação. No livro que incorpora no título as palavras que destaquei, Saramago fascina-nos com a descrição do lar e dos limites da vida cotidiana de Jesus, idênticos aos mesmos que vemos hoje em qualquer bairro periférico, em Lisboa, no Rio de Janeiro, em Salvador ou Itabuna, cidade natal de Jorge Amado e meu endereço residencial, desde o meu 2º.ano de vida.



Em “A Caverna” (dos livros dele que tenho, foi o que mais emprestei), é comovente e questionadora a sina do oleiro Cipriano Algor, por ver seu artesanato perder espaço num Shopping Center (a alegoria da Caverna, por não ter janelas, ter poucas entradas e ser fechados por cima), para a produção de louças e porcelanas industriais. O genro do oleiro é, ao mesmo tempo, seu interlocutor resignado, porque trabalha como Segurança no mesmo Shopping ou na mesma caverna onde até um certo ponto do livro, Cipriano entrega suas peças de barro. A filha de Cipriano tem o nome de uma de minhas irmãs, Marta, que é também o nome da personagem bíblica chamada à atenção por Jesus, por ser tensa demais e preocupada com as “coisas do mundo”, em detrimento da reflexão e da espiritualidade, algo cada vez mais comum nas moças e mulheres de hoje em dia, para não falar, algo cada vez mais comum na imensa maioria de todos os seres humanos de hoje em dia.



E falando da “morte” de Saramago lembro da Morte da Cultura nestes tempos de Festas Juninas e Copa do Mundo. Ainda é recente a Festa de Encerramento do 1º.semestre no Colégio Estadual Indígena. E lá como em todo o município de Pau Brasil, como na imensa maioria dos municípios pequenos ou nos bairros periféricos dos grandes municípios e até em festas de “Patricinhas” e “Mauricinhos”, é dolorido ouvir o que é do gosto e do agrado da maioria. Nestes dois últimos grupos sociais que citei, me marcou a reação deles em recente evento que compareci neste mês de junho. Era para ser uma festa de qualidade musical impar, com a Banda Bom Q’Xote (excelente, na linha de Fala Mansa e Estakazero) e o Forrozão Cara Alta, com bom repertório, de Adelmário a Flávio José, mas com algum deslize no vocal e na harmonia. Mas as moças e rapazes que mais “desfilavam” na festa, acontecida numa área reservada de Itabuna, esperavam mesmo era pela última atração, o Xandão. E o que toca o Xandão? O mesmo que a maioria dos jovens do Colégio Indígena e das localidades que citei nas quatro primeiras linhas deste parágrafo gostam: “Arrocha”, muito arrocha, “Forró de Estilo Pisadinha” e letras como “Dar um tampa na Bundinha Dela...” e por aí vai. Naquela festa de “Patricinhas” e “Mauricinhos”, como na do Colégio Indígena, parece que ao ouvir “aquele som”, “aquele ritmo”, há um “transe”, um “êxtase coletivo” e todos rebolam e dançam na mesma levada, sem analisar letras ou a insuportável repetição de notas (???) musicais. O único instrumento usado pelo Xandão é um teclado e notas (???) gravadas.



Há muito, muito para ser feito, primeiro para atrair os jovens às Escolas Públicas e segundo, pelos professores de Literatura, Cultura e Artes, em apresentar e demonstrar a importância de uma bela composição, de sua letra e de sua música. Explicar, com planejamento, com DVDs e CDs, porque que é preciso resgatar o que é bom, o que é tradicional, o que é da história e da Cultura do Nordeste, como fiz em Ferradas (terra natal de Jorge Amado), na Escola em que leciono em Itabuna, com um retorno maravilhoso, tanto em trabalhos escritos, quanto no pedido para que eu reproduzisse para eles os DVDs e CDs trabalhados. Do contrário, em breve, o Nordeste perderá sua referência e seus referentes, como o genuíno São João e São Pedro, suas quadrilhas, suas fogueiras, suas bebidas e comidas típicas, massacrados por “Fast-foods” (Cachorro-quente, Sanduíches e similares...) e Cervejas que “descem redondo” e bem geladas (???) em noites super frias.



Li em recente entrevista do Ministro da Cultura, o baiano Juca Ferreira, à revista Caros Amigos, que já foi aprovado no Congresso Nacional algo denominado de Vale Cultura, no valor de R$ 50,00, nos moldes do Bolsa Família, e que deverá ser usado para a compra de livros, CDs, DVDs e para entrada em Cinemas e Teatros. Mas sem mudar o empenho dos profissionais da Educação, a programação de emissoras de Rádios e TVs, podemos imaginar que fim levarão estes R$ 50,00. E confirmaremos que não foi José Saramago quem morreu. Este está e continuará vivo, em seus livros, em minhas aulas e nas aulas de tantos outros professores de Literatura. Quem está agonizando e, se nada for feito, terá uma Morte irreversível, é a Cultura, com suas festas, seus compositores, arranjadores e intérpretes, deixados de lado até no seu mês, em detrimento de coisas inadequadas como o “Brega Liht” e o “Arraiá Fest”, que de brega (com todo o respeito a Amado Batista e Odair José, bregas da melhor qualidade) tem muito, mas de Arraiá, não tem mais nada. VÁ COM DEUS, SARAMAGO, AINDA QUE SE DISSESSE ATEU, FOSTES UM FILHO DILETO DELE, TRABALHANDO-O EM MUITOS DE SEUS LIVROS E APRESENTADO-O COM OUTROS NOMES.

dE Marcos Bispo Santos

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